Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 1 de 60

Páginas do PDF

Complexo de Cinderela

Capítulo I

O desejo de salvação

Estou só no terceiro andar de nossa casa, de cama, em razão de uma forte gripe, tentando evitar que a doença passe aos outros. Sinto o quarto grande e frio e, com o correr das horas, estranhamente inóspito. Começo a recordar a garotinha pequena, vulnerável e indefesa que fui. Ao cair da noite já me sinto imprestável, não tanto pela gripe quanto pela ansiedade. "O que estou fazendo aqui, tão solitária, tão distanciada dos outros, tão... insegura", pergunto a mim mesma. Que coisa estranha ver-me tão perturbada, afastada de meus familiares e de minha vida tão ocupada e frenética... desligada... O fluxo de pensam entos se interrom pe e reconheço: eu sempre estou só. Cá está, sem aviso prévio, a verdade ignorada às custas de tanto dispêndio de energia. Odeio estar sozinha. Gostaria de viver com o os m arsupiais, dentro da pele de outrem . Mais que o ar, a energia e a própria vida, o que quero é estar segura, acalentada, cuidada. Espanto-m e por descobrir que isso não é nada novo. Isso vem sendo parte de m im há m uito tem po.

Desde aqueles dias passados na cam a, aprendi que há m uitas m ulheres com o eu, m ilhares e m ilhares de nós, criadas de um m odo tal que nos im possibilita encarar a realidade adulta de que toca a nós, apenas, a responsabilidade por nós m esm as. Podem os até verbalizar essa idéia, m as, no íntim o, não a aceitam os. Tudo na form a de serm os educadas continha a m ensagem de que seríam os parte de algum a outra pessoa — que seríam os protegidas, sustentadas, alim entadas pela felicidade conj ugal até o dia de nossa m orte.

É claro que, um a a um a, descobrim os — cada um a de nós com os instrum entos respectivos — a m entira dessa prom essa. Porém , foi apenas nos anos 70 que se deu um a m odificação no cenário cultural, e as m ulheres passaram a ser vistas, concebidas e tratadas de m odo diferente. As expectativas em relação a nós m udaram . Foi-nos dito que nossos velhos sonhos de infância eram débeis e ignóbeis, e que existiam coisas m elhores a am bicionar: dinheiro, poder e a m ais ilusória das condições, a liberdade. A capacidade de escolher o que faríamos de nossas vidas, com o pensaríam os e a que daríam os im portância. Liberdade é m elhor que segurança, diziam -nos; a segurança aleij a. Logo descobrim os, contudo, que a liberdade assusta. Ela nos apresenta possibilidades para as quais não nos sentim os equipadas: prom oções, responsabilidades, oportunidades de viaj arm os sozinhas sem hom ens a nos conduzirem , oportunidades de fazerm os am igos por nossa conta. Todo tipo de perspectivas rapidam ente abriu-se às m ulheres; j untam ente com isso, porém , vieram novas exigências: que cresçam os e parem os de esconder-nos sob o m anto paternalista daquele que escolhem os para representar o ente "m ais forte"; que com ecem os a basear nossas decisões em nossos próprios valores, e não nos de nossos m aridos, pais ou professores. A liberdade requer que nos tornem os autênticas e fiéis para conosco. Aqui é que repentinam ente surge a dificuldade, quando não m ais basta serm os "um a boa esposa", ou "um a boa filha", ou "um a boa aluna". Pois, ao iniciarm os o processo de separar de nós as figuras de autoridade a fim de nos tornarm os autônom as, descobrim os que os valores que j ulgávam os nossos, não o são. Pertencem a outrem — a pessoas de um passado vivo e dem ais abrangente. Por fim a hora da verdade em erge: "Realm ente não tenho quaisquer convicções próprias. Realm ente não sei no que acredito". Essa experiência pode ser am eaçadora. Todas as coisas a respeito das quais tínham os certeza parecem desm oronar tal com o um a avalancha, enchendo-nos de incerteza em relação a tudo — e aterrorizando-nos. Essa atordoante perda de estruturas de apoio antiquadas — crenças em que nem m esm o crem os m ais — pode m arcar o início da verdadeira liberdade. Mas seu caráter assustador pode fazer-nos recuar para o conhecido, o fam iliar, aparentem ente tão seguro. Por que é que, tendo a chance de crescer, tendem os a recuar? Porque as m ulheres não estão acostum adas a enfrentar o m edo e ultrapassá-lo. Fom os sem pre encoraj adas a evitar qualquer coisa que nos am edronte; desde pequenas fom os ensinadas a só fazer as coisas que nos perm itissem sentirm o-nos seguras e protegidas. O fato é que não fomos jamais treinadas para a liberdade, mas sim para o seu oposto: a dependência.

O problem a rem onta à infância. Àquela época em que estávam os em segurança, em que tudo j á se achava resolvido ou determ inado, e podíam os contar com m am ãe e papai para qualquer coisa de que necessitássem os. A hora de dorm ir não significava pesadelos, insônias ou a incessante e obsessiva com pilação m ental do que tínham os feito de errado naquele dia ou poderíam os ter feito m elhor. Significava, antes, ficar na cam a ouvindo o vento acariciar as árvores até o sono vir. Aprendi que existe um a ligação entre a tendência fem inina à dom esticidade e aqueles devaneios sobre infância que parecem repousar logo abaixo de nosso consciente. O fator subj acente é a dependência: a necessidade de apoiar-nos em alguém ou, m ais regressivam ente, de serm os alim entadas, cuidadas e preservadas de m ales. Essas necessidades perduram através de nossas vidas, clam ando por satisfação, sem serem anuladas pela necessidade igualm ente presente de autosuficiencia. Até certo ponto a necessidade de dependência é norm al tanto em hom ens quanto cm m ulheres. Ocorre que, com o verem os, desde pequenas as m ulheres são incentivadas a um a dependência doentia. Qualquer m ulher que se auto-análise sabe quão destreinada foi para sentir-se confiante perante a idéia de cuidar de si própria, afirm ar-se com o pessoa e defender-se. Na m elhor das hipóteses, pode ter representado o papel de independente, intim am ente invej ando os m eninos (e posteriorm ente os hom ens) por parecerem tão naturalmente auto-suficientes. A auto-suficiência não é um bem agraciado aos hom ens pela natureza; é um produto de aprendizagem e treino. Os hom ens são educados para a independência desde o dia de seu nascim ento. De m odo igualm ente sistem ático, as m ulheres são ensinadas a crer que, algum dia, de algum m odo, serão salvas. Esse é o conto de fadas, a m ensagem de vida que ingerim os j untam ente com o leite m aterno. Podem os aventurar-nos a viver por nossa conta por algum tem po. Podem os sair de casa, trabalhar, viaj ar; podem os até ganhar m uito dinheiro. Subj acente a isso tudo, porém , está o conto de fadas, dizendo: "Agüente firm e, e um dia alguém virá salvá-la da ansiedade causada pela vida". (O único salvador de que o menino ouve falar é ele próprio.) Devo dizer que m eu conhecim ento sobre a dependência fem inina originou-se num a experiência pessoal — e isso é recente! Por m uito tem po enganei a m im e aos outros com um tipo sofisticado de pseudo-independência — um a m áscara construída durante anos a fim de ocultar m eu assustador desej o de ser cuidada. O disfarce era tão convincente que eu bem podia ter continuado a crer nele indefinidam ente, não fosse por um fato que produziu um a rachadura na frágil estrutura de m inha auto-suficiência.