Complexo de Cinderela
Outras mulheres, conflitos idênticos
Em todos os m om entos de m inha vida em que m ais m e senti am edrontada e solitária, vi-m e com pelida a escrever. Não houve exceção dessa feita. Quem sabe se, descrevendo m inha experiência, não descobriria outras pessoas com o eu. Pensar que eu talvez fosse um a aberração, algum a espécie de "m arciana" indefesa e dependente, e só no m undo, aterrorizava-m e. Som ente depois de entregar-m e ao processo de escrever a respeito desses sentim entos é que consegui reunir coragem para discuti-los com alguém . Nunca ouvira qualquer pessoa m encionar tal experiência. Um com placente editor que conhecia decepcionou-m e ao exibir seu desinteresse quando lhe expliquei o que escrevera. Respirei fundo e retom ei m eus argum entos; se aquele hom em não com preendia de que se tratava, quem m ais com preenderia? Quando com ecei m inha segunda narrativa do que ocorrera com igo desde m inha m udança para o cam po, e por que desej ava escrever a esse respeito, aquele sentim ento novam ente m e assaltou. Eu m e conscientizara de algo, aprendera algo, e não ia perm itir que m inha experiência fosse desvalorizada pelo m ero fato de outra pessoa não ver im portância nela. Disse ao editor que o que experim entara e aprendera era importante. Pois era im portante que as m ulheres pudessem ter acesso aos problem as com que eu vinha m e debatendo. Minha experiência m ostrava algo real e m utilante, um fenôm eno psicológico ainda intocado pelo m ovim ento fem inista; o artigo que eu queria que ele publicasse descrevia o que as m ulheres obtêm em troca da m anutenção de sua dependência, os proveitos que dela tiram . Em resum o, aquilo que em psiquiatria se denom ina "gratificações secundárias".
"Acho que estou com eçando a perceber do que é que você está falando", disse o editor.
Outras mulheres, conflitos idênticos
Um m ês depois a revista New York publicou em artigo de capa m eu trabalho sob o título: "Beyond liberation: Confessions of a dependent woman" (O outro lado da libertação: Confissões de um a m ulher dependente). O volum e da correspondência sobre m inha escrivaninha m ultiplicou-se de im ediato. Havia anos que eu vinha recebendo cartas de leitoras, m as, aparentem ente, nunca as tocara tão no íntim o. "Você não está só", diziam antes de, com evidente alívio, m ergulharem em suas próprias-experiências.
Diariam ente o carteiro chegava com um punhado de cartas, e eu as levava para um pequeno terraço atrás da casa, onde as lia e chorava. As cartas provinham de m ulheres de todas as partes do país: m ulheres de vinte e poucos anos, m ulheres de quase sessenta, m ulheres que trabalhavam , m ulheres que nunca tinham trabalhado, m ulheres que não m ais trabalhavam . Todas sofrendo as m esm as ansiedades, lutando pela independência através de cursos de pós-graduação, bons em pregos, m elhores salários — e com o m esm o ressentim ento subj acente a tudo. Ressentim ento, raiva e um a terrível e dolorosa confusão, um a sensação de "Mas é assim que as coisas devem ser?"
"Depois de anos trabalhando num j ornal, resolvi parar e entrar no esquem a de free-lance", escreveu-m e um a m ulher de Santa Mônica, Califórnia. "Meu m arido ganhava bem , eu podia dar-m e esse luxo, não podia?" Um a correta atitude, ao m enos potencialm ente; todavia, essa atitude gerou um terrível conflito em relação ao hom em em quem , no íntim o, ela se encostara para sentir-se capaz de prom over o que desej ava. Relata ainda que, desde aquela época, "tenho m e dividido entre um a enorm e culpa por depender dele e um profundo ódio à m era possibilidade de ele vir a refutar-m e esse direito". O conflito entre querer viver por si só e querer encostar-se em alguém "por via das dúvidas" (o m esm o tipo de m otivação que leva algum as pessoas a freqüentarem a igrej a aos dom ingos) cria um a am bivalência crônica que acarreta m uito dispêndio de energia. Aos trinta e quatro anos, um a m ulher que dizia ter "escapado à prisão de dois casam entos", criado dois filhos e retom ado os estudos de advocacia, deu-se conta de ainda estar com pletam ente enredada "num vínculo neurótico de sim ultaneam ente odiar e tem er tanto a dependência quanto a independência". Após trabalhar para o governo por breve período, decidiu m ontar seu próprio escritório de advocacia com um colega sem m aior experiência que ela. A diferença na form a com que cada um deles assum iu a nova responsabilidade, prossegue ela, foi gritante. "Desde o início, ele sem pre acreditou que faria qualquer coisa que necessitasse ser feita. O que não se aplica a m im . Sem pre que tenho de enfrentar um a nova situação, vej o-m e pesando os prós e os contras de 'm eter a cara' ou correr a esconder-m e por trás de algum hom em que m e protej a. É um a arm adilha, e é m uito fácil cair nela. É terrível com o fico indolente e dependente sem pre que conto com alguém que eu possa usar dessa m aneira."
O desejo de salvação. Podem os nem sem pre reconhecê-lo tão claram ente quanto essa m ulher, porém ele existe em todas nós, em ergindo quando m enos se espera, perm eando nossos sonhos, abafando nossas am bições. É possível que o desej o fem inino de ser salva tenha suas raízes nos prim órdios da história, quando a força física m asculina era necessária para proteger m ulheres e crianças dos perigos naturais. Mas tal desej o não é m ais adequado nem construtivo. Nós não necessitamos ser salvas.
As m ulheres hoj e se acham entre o fogo cruzado de velhas e radicalm ente novas idéias sociais; a verdade porém é que não podem os m ais refugiar-nos no antigo "papel". Ele não é funcional, nem um a opção verdadeira. Podem os crer que o sej a; podem os desejar que o sej a; m as não é. O príncipe encantado desapareceu. O hom em das cavernas é hoj e m enor e m ais fraco. Na realidade, em term os do que se requer para a sobrevivência no m undo m oderno, ele não é m ais forte, m ais inteligente ou m ais coraj oso do que nós.
Todavia, ele realmente tem m ais experiência.