Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 55 de 60

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Complexo de Cinderela

Elaborando o conflito interno

 

Um a vez que o conflito interno entre dependência e independência haj a sido percebido, identificado, isolado da fina tram a constituída pelo cotidiano do indivíduo, é possível saltar-se do apertado quarto do m edo em direção às planícies abertas da liberdade?

Não é tão sim ples. Há todo um processo aí. Os terapeutas cham am -no de "elaboração". Não é necessário fazer um tratam ento (em term os form ais) para se aprender a elaborar um conflito. Precisa-se, sim , ser sistem ático e persistente. Um a conscientização vaga e generalizada de que se está em conflito não adiantará m uito. O em penho concreto, sim . Deve haver um esforço consciente e deliberado para perseguir — e separar — os fios em baraçados que com põem a m eada do conflito, se se desej a descer da gangorra im óvel da estase. O conflito entre querer ser livre e querer ser abrigado e protegido é insidioso porque carrega consigo um a vantagem oculta. O conflito nos perm ite perm anecer exatam ente onde estam os. A condição que adm itim os desej ar (a independência) age com o acobertam ento de algo que desej am os com igual intensidade, m as não podem os adm itir: a dependência — a necessidade de um a deliciosa segurança prim ordial. Pressionados por esses dois desej os opostos, conseguim os perm anecer num lim bo. O lim bo tem suas vantagens. Pode não ser m uito quente, m as tam bém não é m uito frio. Não é excitante, m as tam bém não é o m esm o que estar m orto.

É im possível elaborar a dependência se se é incapaz de identificá-la; isso é certo. A identificação dessa tendência, pois, é o prim eiro passo para a sua resolução. Tem -se que conscientem ente procurar seus sinais. Naquela época em que passava as m adrugadas rebolando, com m eu chapéu de plum a, eu tam bém reclam ava m uito de que a razão de eu não ganhar a vida com o escritora era que "eles" (os editores) eram cegos ao valor do trabalho de todos os pobres escritores. Aliando-m e a todos os pseudo-escritores surgidos sobre a face da Terra, fiz-m e de vítim a. "Recusava-m e" a fazer qualquer coisa que contrariasse m eus ideais, xingava o sistem a e convenientem ente continuava produzindo o m esm o trabalho que sem pre produzira repetitivam ente. A idéia de que eu podia estar com m edo de arriscar algo novo, de que talvez eu não tivesse coragem de experim entar coisas diferentes, de entregar-m e ao desconhecido — essa idéia j am ais m e ocorreu. Meus problem as perm aneceram confortavelm ente escondidos enquanto eu continuava a reclam ar.

O trabalho não era a única parte de m inha vida atingida pelo conflito. Minha vida am orosa era um a bagunça, dividida com o estava entre a necessidade de ser am ada e o desej o igualm ente forte de rej eitar essa necessidade. O aparente narcisism o daqueles nam oros noturnos com o espelho contrastava agudam ente com a m aneira com o eu m e sentia ao exam inar m inhas feições à luz do dia. "Você está envelhecendo", eu dizia, procurando em m inha face no espelho novos sinais de decrepitude. "Você está feia." Aquela preocupação com a idade — com qualquer coisa que m e levasse a sentim entos negativos, em relação a m im m esm a — deveria ter sido interpretada com o um sinal. Naquele tem po eu estava tendo um relacionam ento lim itado e insatisfatório com um hom em casado. Enquanto dançava vaidosam ente à noite, de dia receava não conseguir "agarrar" esse hom em , que m e fascinava j ustam ente devido a seu distanciam ento. Não obtendo o am or que a outra parte de m im reivindicava, eu recrim inava o hom em por ser obtuso, por ser covarde dem ais para arrem essar-se num relacionam ento louco e passional com igo. Era, naturalm ente, pura proj eção. Era eu a covarde. Continuei a encontrar aquele hom em várias tardes por sem ana durante um ano, m antendo-m e, pois, segura — e infeliz. Tanto no trabalho quanto no am or, portanto, eu m e via derrubada por inibições de toda espécie. Julguei estar experim entando os inevitáveis tem ores de um a nova m ulher em ergindo da estagnação de um longo casam ento opressivo. Pode ter sido isso em parte, m as era tam bém m uito m ais. O im pulso para perm anecer arriada era forte, e chocava-se com o im pulso igualm ente forte para abrir-m e, realizar, "construir um nom e". Os dois im pulsos — um expansivo e o outro restritivo — pareciam anular-se m utuam ente, deixando-m e no m eio, paralisada. A fadiga instalou-se em m inha vida com o a fuligem sobre os telhados vizinhos. Continuava trabalhando, porém era difícil term inar qualquer coisa. Castigava-m e por m inha lentidão. Roía as unhas.