Complexo de Cinderela
Capítulo VI
Pânico do gênero feminino
Se nunca se ousou m udar nada na vida, com o é que se com eça a ousar? O que é que nos dá o em purrãozinho, o im pulso para ultrapassarm os a fronteira do conhecido e aventurarm o-nos adiante?
Para m uitas m ulheres, é o sentim ento do desespero.
Não foi na escola, nem em Madem oiselle, que finalm ente com ecei a escrever, m as sim num pequeno apartam ento de cinco côm odos ao lado da estação ferroviária, ao norte de Greenwich Village. Isso se deu quando m eu segundo bebê contava um m ês de idade. Recordo claram ente aquela noite, pois de m odo algum previra o que ia acontecer. O ím peto viera do nada (essa foi m inha im pressão na época). Apenas um im pulso súbito e prem ente para escrever, pôr palavras no papel. Aquelas palavras eram um início, porque provinham diretam ente de m inha cabeça para o papel, sem a intervenção de nada m ais. Era um a corrente m aravilhosam ente fluida, a prim eira experiência inteiram ente independente que eu tinha desde o casam ento. O apartam ento estava calm o, em silêncio. Meu m arido dorm ia no sofá da sala de estar. Eu dava a m eu filho a m am ada da m eia-noite. Lem bro-m e de que o acariciava com a m ão esquerda enquanto o tinha ao peito, e com a m ão direita com eçava a rabiscar palavras. O bebê sugava, e m inha m ente se enchia im petuosam ente com os contornos de algo que eu queria com unicar aos outros. Eu escrevia sem cessar, quase febrilm ente, m al parando para pôr o bebê no berço. Fiquei lá, só, apenas consciente das cham inés sobre os telhados vizinhos, até que a luz da m anhã com eçou a surgir.
O que m e im peliu, a com eçar a escrever foi que eu não queria m ais ficar sozinha. Era um a solidão antiga, que de m uito precedia a solidão de que m eu casam ento se revestia. Seus traços de origem estavam na pequena escola paroquial de Valley Stream , Long Island, com suas freiras estranhas e rígidas e com m eu próprio corpo frágil; estavam nos espaços entre m eus dentes; em m inha perene auto-percepção de ser nova dem ais, m agra dem ais, nunca em sintonia com o m undo a m eu redor: m eus pais, m eus colegas de escola, m eus am igos. Por anos eu fora um a dissidente e um a líder, m arginal e m em bro de um grupo. Minha existência sem pre se colocara ligeiram ente à direita de m inha auto-im agem , produzindo um m odo de vida solitário e auto-alienado. Assim , quando afinal iniciei o processo de ruptura, m inha m otivação era a de dizer: "Olhem para m im . Tenho algo em com um com vocês. Tenho sentim entos que certam ente vocês deverão conhecer". Creio que na época, com o agora, eu estava escrevendo especificam ente com a finalidade de criar um sentido de com unhão com outras m ulheres.
No princípio, os sentim entos sobre os quais eu escrevia pertenciam a um dom ínio bastante seguro — eram as frustrações aninhadas no ser de um a j ovem esposa e m ãe tentando viver adequadam ente num a grande cidade suj a e barulhenta. Em m inha solidão, eu im aginava que as m ulheres que lessem m eus artigos realm ente conseguiriam ver-m e fazendo aquele vestido a partir do m olde da revista Vogue, sentada num a sala cheia de brinquedos quebrados, e tendo por vista som ente um a escada de em ergência defronte à j anela. Eu im aginava que elas saberiam que tudo o que às vezes eu desej ava era ser capaz de aplicar o delineador nos olhos com um risco preciso e sem borrões, e sair e esquecer que ainda não tinha trinta anos e j á m e sentia inutilizada, um a m enina que de algum m odo envelhecera e se cansara, sem j am ais ter tido a oportunidade de desabrochar. À m edida que o tem po passava as frustrações aum entavam , e os riscos decorrentes do escrever sobre elas tam bém . Sete anos após m eu prim eiro artigo ter sido publicado, eu estava pronta para com eçar a falar. Eu tam bém estava pronta para rom per m eu casam ento. As duas coisas, parecia-m e, coincidiam : a necessidade de j ogar fora a falsa segurança de m inha relação com m eu m arido e a necessidade de usar m eus escritos com o um ato de auto-definição. Eu com eçara a pensar por m im m esm a. As opiniões de m eu m arido (às quais, a princípio, eu m e agarrara, vítim a de um a espécie de fascínio infantil e, posteriorm ente, porque m e alienara com pletam ente de m inha própria m ente) não m ais tinham peso para m im . Eu visualizava a m aioria das coisas de m odo diverso dele, e m uito do que ele considerava im portante j á não m e im portava absolutam ente.
Falando francam ente, eu tam bém via que aquele hom em não podia m e proteger do m undo. Eu atingira um ponto onde parecia m enos perigoso viver sozinha do que persistir num casam ento que subm ergia a am bos no dom ínio da ilusão. Estranham ente, só m e conscientizei disso ao fim de um ano em que Ed não bebera um a gota sequer de álcool. Éram os gente com um , trabalhadora, sem m otivos para nos rotularm os especiais ou diferentes. Na ausência da crise, nossa vida em com um passou a revelar-se espiritual e em ocionalm ente árida. Através de m eus artigos, com m eus artigos, eu com eçara a entrar em contato com igo m esm a. Escrever exige o uso solitário da m ente e das em oções do escritor. Não há ninguém que nos anim e enquanto criam os parágrafo após parágrafo, ninguém que nos diga: "É isso aí, você está no cam inho certo". Você decide sozinho, e as decisões são infindáveis. Existem várias m aneiras pelas quais se pode chegar a conhecer — e aceitar — a si m esm o. Existem várias m aneiras de um a pessoa com eçar a engaj ar-se na vida sem subterfúgios. No m eu caso, o que im pulsionou esse processo foi o escrever.
Qual a razão de escolherm os perm anecer criaturas indiferenciadas na fusão, evitando o processo da auto-definição? Quantas de nós figuram na indeterm inada estatística do enor¬m e reservatório de talentos adorm ecidos e enterrados sob a superfície da condição de m ulher da classe m édia? "Todo m undo sem pre m e dizia que eu era criativa"; assim com eça a carta que m e foi enviada por um a m ulher residente em um abastado subúrbio de Bedford Village, no condado de Wetchester, em Nova York. "Com um a paciência inacreditável, algum as de m inhas am igas ainda confiam em que de repente farei m inha aparição no cenário artístico profissional com o um com eta bem -vindo. Isso, enquanto datilografam e arquivam papéis das nove às cinco horas, todos os dias. Entretanto eu continuo sentada, perplexa, tentando resolver o que fazer quando am adurecer. Aj ude-m e. Estou a ponto de retornar ao piano, ou voltar ao j ardim para arrancar o m ato entre os canteiros." (A rem etente desta carta tem trinta e sete anos.)