Complexo de Cinderela
Presa entre dois mundos
Casar-se e propiciar ao m arido os cursos de m estrado e doutorado fora um a linha de conduta segura e reforçadora de ego para Sulka, em seus vinte e um anos de idade. "Ela não é m aravilhosa?", todos diziam na época, quando ela entrava em casa com o cheque sem anal de seu salário. "Ele tem m uita sorte em ter-se casado com ela." Realm ente, o desafio de sustentar a am bos fora estim ulante para ela, em bora o trabalho fosse chato. O que Sulka não reconhecia então, no entanto, é que o desafio era superficial. Ela nunca j ulgara qualquer tipo de trabalho em term os do desenvolvim ento de seu próprio potencial. E cada dia, dirigindo-se para o serviço, sem pre a acom panhava a crença subj acente: "Isto logo term inará".
E logo term inou m esm o. Com a perda do em prego e o retorno ao ninho, todos os traços de independência de Sulka m orreram . O desafio que estim ula o crescim ento desapareceu; conseqüentem ente, seu crescim ento cessou. Agora, dez anos m ais tarde, ela estava pagando o preço disso em perda de auto-estim a e, pior que isso, na perda da coragem . Sulka levaria m uito m enos tem po para recuperar sua antiga perícia com o datilografa do que para reconquistar a confiança e a força.
Se Sulka Bliss houvesse conhecido Adrian Holzer, ainda confortavelm ente refugiada na proteção do lar, do outro lado do país, ela possivelm ente teria se distanciado do próprio sofrim ento o bastante para dizer a Adrian: "Aposse-se de sua própria vida; não espere nem m ais um m inuto. Seguir o cam inho da m enor com batividade não dá segurança nenhum a. É m era ilusão!"
Presa entre dois mundos
A am bivalência intensa e não-resolvida a respeito de papéis e sucesso vem sendo correlacionada com sérios sintom as psicossom áticos em m ulheres. Antigam ente eram as donas-de-casa, entediadas, destinadas apenas a tirar o pó da casa e arrum á-la, que form avam o m aior contingente entre as alcoólatras. Agora esse problem a se alastrou tam bém entre as fileiras das m ulheres "ativas", aquelas que todas as m anhãs despedem -se de Johnny e voam porta afora para pegar o trem das oito horas que vai para a cidade. "Com parando-se as m ulheres casadas que trabalham fora, as solteiras que trabalham fora e as donas-de-casa, as m aiores taxas de alcoolism o localizam -se entre as prim eiras", diz Paula Johnson, da University of California, em Los Angeles. O fato de os hom ens casados que trabalham não serem afligidos em proporção igualm ente alta por problem as de alcoolism o levanta, afirm a ela, "a questão da possibilidade de esse tipo de papel não-tradicional gerar o aum ento da taxa de alcoolism o". Penso não ser o papel — a com binação de trabalho e casam ento — o fator determ inante do alcoolism o (nas m ulheres), m as sim o conflito que as assalta quanto à escolha do papel. A distinção é im portante. Escolher significa agir livrem ente e com total percepção da situação, reconhecendo que haverá conseqüências, e com prom etendo-se a aceitá-las, sej am quais forem . Isso não é fácil para ninguém , m as é especialm ente difícil para as m ulheres, desacostum adas que são a fazer coisas que as deixem expostas ao risco e à ansiedade.
Desconhecedoras do desfecho provocado por suas novas opções, as m ulheres se atem orizam . Não avançam os de corpo inteiro; ao contrário, recuam os, paralisam o-nos, tentando vencer num m undo com petitivo sem desistir de nossas m aneiras antiquadas, "fem ininas" — sem pre tendo nossos perfum es e pós-com pactos com o m uletas. Nós "perm itim os" que o hom em abra a porta do carro ou nos acenda o cigarro, dizendo a nós m esm as: "Que m al isso pode fazer?" Não é o ato em si que gera problem as, m as o sentim ento que em nós se insinua — o sentim ento de "Com o é bom ser cuidada por um hom em ". Em pequenos detalhes as m ulheres m ostram que desej am continuar a ser m im adas e servidas, especialm ente pelos hom ens. Elas dizem que isso as faz sentirem -se delicadas e fem ininas. Apreciam esses pequenos gestos de proteção. Por dentro, recitam o credo da revista Cosm opolitan: "Posso ser sexy e bem -sucedida sim ultaneam ente".
Mas elas se enganam . Querer ser protegida e, ao m esm o tem po, querer ser independente é com o tentar dirigir um carro com o freio de m ão puxado. Para se conseguir as coisas, é preciso ser agressivo se a ocasião o exigir. É preciso ser capaz de defender as próprias crenças, brigar por elas se necessário for. Tam bém é preciso ser capaz de tolerar atritos. As m ulheres são dem asiadam ente propensas a evitar afirm ações que possam de algum m odo ser interpretadas com o hostis. Isso traz a am eaça da solidão. Tem endo o isolam ento, deixam de cultivar em si m esm as as técnicas e os talentos necessários ao progresso profissional. Com o observou Lois Hoffm an, da University of Michigan: "Defender um ponto de vista, ganhar um a discussão, vencer outros em situações com petitivas e levar a cabo a tarefa que tem de ser feita sem se deixar obstaculizar por questões de relacionam ento são com portam entos extrem am ente penosos para as m ulheres, independentem ente do grau de inteligência que possam apresentar''.
Com efeito, as m ulheres estão, a um só tem po, tentando avançar e m anter-se na retaguarda. Nossa incapacidade de nos visualizarm os positivam ente com o trabalhadoras fem ininas corrói nossas m ais prezadas am bições. De fato, toda a nossa relação com o trabalho é reativa. As m ulheres trabalham quando os hom ens lhes "perm item " trabalhar (o que, naturalm ente, significa: quando os hom ens precisam que elas trabalhem ). Devido ao atual estado da econom ia, os hom ens hoj e precisam que trabalhem os; assim , a esposa que trabalha fora é sancionada socialm ente. As m ulheres sentem que a nova liberdade para trabalharem — e serem esposas — não vem de dentro delas, m as de fora. Apenas receberam licença para isso. "Meu m arido se alegra por ainda poderm os j antar fora um a vez por sem ana, graças ao m eu salário", queixou-se um a professora de nível colegial, cônscia do interesse egocêntrico do m arido. "Antes, porém , de serm os atingidos por essa m onstruosa inflação, ele sem pre dava indiretas com relação à bagunça da casa, insinuando que m eu trabalho afetava nossos filhos. Não tenho dúvidas de que sua atitude se m odificará novam ente assim que a econom ia se estabilizar."
Sem dúvida. A atitude de todo o país "m odificou-se novam ente" após a Segunda Guerra Mundial, quando as m ulheres, não m ais necessárias nas fábricas, foram m andadas de volta aos lares. E obedecem os. E, aparentem ente, nada aprendem os da experiência.
As m ulheres são reagentes. Nossa posição não se apóia em si m esm a, nem é auto-geradora. Ainda tom am os nossas decisões básicas de acordo com o que "ele" quer, o que "ele" perm ite. Porque, lá no fundo, ainda "o" vem os com o o Protetor?
É m uito esclarecedor observar o que acontece com um a m ulher quando seu casam ento se desfaz. Repentinam ente ela com eça a se expandir. "Ora vej am só!", pensa consigo m esm a. "Então isto é que significa ser adulto." Agora que ela é forçada a assum ir a responsabilidade financeira da casa, agora que cabe a ela pagar as prestações ou o aluguel e com prar os sapatos dos filhos, a am bivalência som e. Que alívio para ela não ter que lutar m ais com os tem as do pânico do gênero fem inino, não ter que se preocupar com a "correção" do que está fazendo, nem recear que os outros possam vir a apontá-la com o um a pessoa dura e invulnerável — não-fem inina. Seu salário sobe; increm entam -se suas atribuições. Há um a relação nova e sadia entre trabalho e dinheiro, um profissionalism o agora sancionado. Finalm ente autônom a! Mas ela não está reagindo? Não está sim plesm ente seguindo outro ditado, tão velho quanto o próprio reino anim al? Ela é a leoa cuidando de sua prole; quem pode acusá-la por isso?
Mas se essa m ulher se casa novam ente ou se j unta a outro hom em , você verá o film e rodar retroativam ente: — e rápido. Agora ela está de novo "em casa". Volta a brotar nela a sensação de segurança.
Mais um a vez acom panhada pela atitude de deferência. "Com ecei com pequenas gentilezas", contou um a m ulher que, aos trinta e dois anos, estava casada pela segunda vez havia três anos. "Sem pre que ia à cozinha tom ar café, trazia tam bém um a xícara para ele. Quando m e dei conta do fato de o estar servindo, pensei: 'Ei, isso é legal, eu o am o, que m al há nisso?' 'Quer um sanduíche, querido?' 'Um a cervej inha?' É óbvio que não dem orou para que a situação se cristalizasse, eu sem pre indo buscar as coisas e ele lá, sentado, aguardando ser servido. E eu j á tinha passado por tudo isso antes, e sabia que esses detalhes são significativos. Não são 'nada'. Apontam para a existência de um contrato: 'Você cuida de m im no m undo, e eu cuidarei de você em casa'. De repente ele age de acordo com o contrato, você idem , e, antes que você se aperceba, está exatam ente no ponto de onde partiu." Um a m ulher que vivera só por m uitos anos após o fim de seu casam ento descobriu que suas atitudes para com o novo am ante com eçaram a m udar logo depois que ela passou a viver com ele. "Meu trabalho com eçou a se afigurar um pouquinho m enos im portante, e o dele, um pouquinho m ais. Nem se tinham passado seis m eses e eu j á estava pensando no futuro dele com o o nosso futuro. O m eu futuro de algum m odo saíra da j ogada." Enquanto tinham vivido em apartam entos separados, eles haviam sido duas pessoas com carreiras diferentes, sendo que am bas as carreiras guardavam grau sim ilar de relevância. "Quando fom os viver j untos, senti que estava m e transform ando novam ente num a esposa." Fundida nele. Indiferenciada. Metade de um todo, e, aliás, um a m etade com m enor im portância do que a outra. Tal com o ocorria quando estávam os na escola, as prioridades se alteram e m al chegam os a perceber o que está acontecendo. O "ser com " ganha precedência em relação à independência. Com eçam os a com partilhar tudo — nossos proj etos, nossas idéias, nossas inseguranças básicas — de m aneira a não term os que estar tão sós com isso tudo. Subitam ente torna-se fácil com eçarm os a voltar-nos para ele a fim de receberm os apoio e aprovação a tudo o que fazem os e pensam os. Isso se revela abertam ente na seguinte coloca¬ção de um a j ovem paciente da Dra. Moulton: "Preciso de um hom em que em preste im portância ao que sinto ser im portante".
Um a vez tendo um hom em por perto, a m ulher tende a cessar de crer em suas próprias crenças. Após algum tem po, apenas as tem com o "sensações". Vagarosam ente, ela passa a abdicar de si m esm a, dando as costas à sua autenticidade. Algo peculiar vai se delineando — a velha reprise prim ordial. Sem consciência disso, ela vai reestruturando as coisas de m odo a parecerem — e a oferecerem as sensações — com o eram entre m am ãe e papai, sendo papai o foco central da vida fam iliar e m am ãe, um a subordinada feliz. "Casei-m e com um hom em tão diferente de m eu pai quanto eu era diferente de m inha m ãe", conta Celia Gilbert, um a escritora que m ora em Cam bridge. "E, no entanto, que coisa incom preensível! Nosso casam ento acabou se estruturando de m odo m uito sem elhante ao de m eus pais."
Por que isso acontece? Dizem os detestar tudo isso. Dizem os que não querem os viver com um hom em da form a com o nossas m ães viveram com nossos pais: dócil, com placentem ente, j am ais de posse dos requisitos de um a posição de independência, ou sej a, um a fonte própria e suficiente de recursos financeiros. Mas essa é um a declaração superficial. Em ocionalm ente, se não intelectualm ente, a decisão de viver contrariam ente à m ãe (pois é assim que isso é com um ente experim entado) é aterradora. Mam ãe pode não ter tido um a vida tão boa, m as ao m enos sabem os com o foi sua vida.