Complexo de Cinderela
Os primeiros sinais
Em abril conheci um hom em . Ele era católico e intelectual. Vivera em Paris durante três anos, com um a bolsa de estudos na Sorbonne. Agora trabalhava com o repórter de um a revista, escrevia poesias e cozinhava m uito bem . Achei-o fascinante. Quase im ediatam ente decidi colocar m eu destino em suas m ãos. Em um m ês eu estava grávida e, pouco m ais tarde, casada. Essa foi um a das últim as decisões que m eu pai m e aj udou a tom ar. Não pedi sua intervenção; porém , por outro lado, não a rej eitei. Meu pai m e disse que, naquelas circunstâncias, a única atitude m oral com patível era casar-m e. "Você tom ou essa decisão no ato m esm o da concepção", declarou. Eu não estava realm ente envolvida com a m oralidade das coisas. Para se ser m oral deve-se ser autêntico. Não sabia distinguir verdadeiram ente o que era certo e o que era errado, a não ser segundo os ditam es do catecism o. Sem pre vivera segundo regras estabelecidas para m im pelos outros. Agora, com o anteriorm ente, segui-as. Mergulhei no casam ento com o quem desaba sobre um colchão de penas, som ente para adiar os tem ores da rua e os terrores noturnos por m ais de dez anos.
Os primeiros sinais
Psiquiatras que trabalham com m ulheres com plexadas observaram certas sim ilaridades em suas origens. Elas tendem a revelar na infância a necessidade de se m ostrarem autoconfiantes e controladoras de seus sentim entos. Enquanto crianças, esforçam -se por desenvolver as habilidades e qualidades que lhes oferecerão a ilusão de força e invulnerabilidade. Quando adultas, em geral procuram em pregos que reforcem a im agem de auto-suficiência. Muito do que as m eninas pré-fóbicas tentam realizar em suas vidas é perfeitam ente norm al — m ais: adm irável — em e por si. O atributo neurótico surge quando o im pulso para a realização se transform a num a com pulsão — elas não podem não realizar. A raison d'être de tais j ovens é construir um a fortaleza por trás da qual possam esconder seu núcleo de insegurança e m edo. A m ãe de um a am iga m inha até hoj e gosta de recordar-lhe o seguinte: "Você sem pre agiu com o se ninguém pudesse lhe dizer nada. Desde seus catorze ou quinze anos você deixou bem claro não haver nada que eu pudesse fazer ou dizer que de algum m odo lhe fosse útil". O azar foi que a m ãe levou a sério a farsa de autoconfiança da filha. Ela sentira m edo por ela, perplexa, perguntando-se com o sua garotinha repentinam ente se tornara um a sabe-tudo. Mas ao proclam ar a m ensagem : "Não preciso de ninguém; sei cuidar de mim mesma", sua filha adolescente estava exibindo um sintom a evidente. Toda aquela autonom ia era um engodo, um a tentativa de super-com pensação de um a profunda falta de confiança. Não é incom um que pré-fóbicos exibam m odos desafiantes quando adolescentes. Eles podem ser fisicam ente ativos, assum indo riscos e sendo agressivos nos esportes, ou podem provocar aqueles que têm autoridade sobre eles. Independentem ente do estilo pessoal, diz Alexandra Sy m onds, que estudou fobias em m ulheres, a m ensagem é a m esm a: "Não preciso de ninguém; eu tomo conta de mim". Passo a passo, ano a ano, a fachada contrafóbica é m eticulosam ente desenvolvida. Os detalhes podem variar de um a pessoa para outra, m as o quadro caracterológico básico perm anece o m esm o: o de alguém dom inador, m andão, seguro de si próprio. Pode haver um a atraente exuberância acobertando o velho núcleo, um a constrangedora energia parcialm ente provinda dos esforços (do contrafóbico) em controlar seu m eio am biente im ediato. Por exem plo, os contrafóbicos costum am ser bons com panheiros de conversa, com pelidos que são pela necessidade de articular e definir tudo. Em festas e reuniões eles em geral têm um a presença m arcante. Quem é que poderia adivinhar que aquela vistosa assistente governam ental de vestido de seda verde que está sendo o centro de atenções na festa — pondo todos perplexos com suas anedotas e seu decote ousado — é um a fóbica disfarçada, insegura quanto à sua inteligência, seu poder de atração, o tam anho de seus seios?
Mulheres contrafóbicas têm dificuldade em se relacionar positivam ente com hom ens. Elas têm um a im periosa necessidade de se sentir superiores, de estar "com o controle nas m ãos". Em seus relacionam entos am orosos, acabam invariavelm ente se queixando dos hom ens com os quais se envolveram . Após a lua-de-m el, com eçam a agir de m odo frio e arredio. Seus hom ens ficam aturdidos, sentindo-se estranham ente culpados, sem saber o que fizeram de errado. O que fizeram de errado foi acreditar na im agem de autoconfiança proj etada por um a m ulher basicam ente dom inada pelo m edo. Se levadas a sério, essas m ulheres nunca chegarão a encostar-se em seus hom ens, o que, secretam ente, é na verdade o que sem pre desej aram . Prevalece um sistem a de duplas m ensagens, onde elas agem de m aneira audaciosa, im pudente e independente, m ascarando seus sentim entos básicos de insegurança e desam paro. Seus hom ens não com preendem que foram enganados por um a falsa fachada de auto-suficiência. Eles podem até ter desej ado o m esm o que suas mulheres: um "outro" forte e independente em quem se encostar. Então, quando a verdade das necessidades das m ulheres em erge e os hom ens ou não se dispõem , ou são incapazes de preenchê-las, sobrevêm terríveis conflitos. Foi esta a dinâm ica no prim eiro relacionam ento afetivo de um a j ovem californiana a quem cham arei Jill.
O pai de Jill era um advogado bem -sucedido e espirituoso. A m ãe, em bora "apagada" em situações sociais, obtinha m uita satisfação de sua carreira com o ilustradora free-lancer de revistas. Jill, filha prim ogênita, sem pre se sentia desnorteada por suas discrepantes im agens m asculina e fem inina: a m ulher, um ser silencioso m as bem -cuidado; o hom em , vivaz e extrovertido, porém só e desprotegido dentro de um m undo de com petitividade. Aos vinte anos, Jill com eçou a exteriorizar seu conflito interno. Foi viver com um carpinteiro, j ovem inteligente m as inculto, que não tinha certeza do que desej ava fazer de sua vida. Logo Jill passou a se sentir infeliz, frustrada, e com eçou a atorm entar o com panheiro. Resolveu fazer psicoterapia, e queixava-se de sua incapacidade de decidir se queria ser psicóloga, advogada, ceram ista ou m úsica. Não obstante ter finalm ente aberto um a loj a de cerâm icas, o conflito vocacional era o m enor de seus problem as.
Para com eçar, Jill era sexualm ente insegura; era o tipo da pessoa que precisava ser o centro de atrações em festas, e vivia tem erosa de que seu nam orado conhecesse alguém m ais atraente e a abandonasse. As queixas de Jill com relação a dinheiro tam bém eram sintom áticas. Ela queria um a casa m aior e sentia-se confusa quanto a quem cabia essa responsabilidade, a ela ou ao nam orado. No íntim o, guardava rancor contra ele por não ganhar o suficiente para com prar o tipo de casa que ela desej ava. Teim ava, contudo, em ignorar a profundidade de seu rancor, que contrastava tão agudam ente com seus ideais fem inistas.
"O interessante é", recorda a terapeuta de Jill, "que Jill sem pre dava a im pressão de ser terrivelm ente responsável. Era pontual em nossas sessões terapêuticas, e as finalizava por si, em vez de esperar passivam ente que eu as encerrasse. Ela parecia eficiente, parecia controlar tudo. Aí, em algum ponto entre o segundo e o terceiro ano de terapia, tudo desm oronou."
Sem qualquer aviso, num a m anhã, Jill com eçou a sofrer de hiperventilação, tonturas e palpitações cardíacas: toda a panóplia dos sintom as de ansiedade. Tinha m edo de sair de casa. Sua "súbita" insegurança se m anifestava de todas as form as. Por exem plo, ligava para a casa da terapeuta num sábado à noite para avisar que se atrasaria para a sessão de quinta-feira. "Não há nenhum problem a em ser cham ada em casa num a em ergência", revela a terapeuta, "m as aquilo não era em ergência. De repente aquela pessoa super-responsável estava m e tratando com o sua m ãe. Eu devia estar à sua disposição sem pre que ela quisesse. Acabam os descobrindo que seu antigo com portam ento contradependente fora um a grande m anobra defensiva. E a m anobra fora executada com tanto êxito que depois de dois anos eu pensava: 'Por que esta m ulher ainda vem aqui?' Ela aparentava ser tão competente!
"Agora Jill está com eçando a expressar sua raiva. Vej o que ela está furiosa, porque se sentiu insatisfeita com igo durante dois anos e eu nunca lhe disse nada a esse respeito. Eu lhe m ostrei que a questão era: Por que ela nunca m e falou do problem a? Agora, repentinam ente, ela tem e sair e fazer coisas por sua conta. Tem e tirar férias, pois não consegue se desprender da rígida estrutura de sua vida. Com o cair da fachada, estam os descobrindo que ela ainda é m uito dependente dos pais, e que era isso que ela acobertava com aquele com portam ento contradependente. Sua dependência está em ergindo sob a form a de raiva do nam orado e de m im . Ela está zangadíssim a com ele porque não vai ser advogado e cuidar dela adequadam ente. E com igo porque não quero ser sua m ãe."
Jill havia sobreposto a im agem do pai, forte e dinâm ico, à do am ante, esperando que este trouxesse para casa tanto o pão quanto a estim ulação social, exatam ente com o o pai sem pre fizera. Dinheiro, exaltação, am igos políticos estim ulantes — tudo isso fora proporcionado a Jill e à sua m ãe por "papai". Em com paração com o pai, o hom em com quem ela estava vivendo perdia longe. "Ele é um rapaz sim pático, sensível e doce, m uito apreciado pelos pais dela", conta a terapeuta, "m as é evidente que Jill está insatisfeita com ele. Durante a faculdade ela nam orou um hom em que estava incerto sobre o que desej ava ser, e eles term inaram porque Jill não pôde tolerar a am bivalência dele. Ela não consegue se sentir forte a m enos que seu hom em se sinta forte." Jill não quer ser com o a m ãe, reclusa e passiva. Identifica-se principalm ente com o pai. Porém ela certam ente não desej a ser um a figura tão poderosa, provedora de tudo em sua própria vida. O homem é que deveria fazer isso por ela. Quando não o faz, ela se sente enganada e furiosa. "Jill é o tipo da m ulher m uito sensual no início de um relacionam ento, m as que, depois de algum tem po, vê todo o seu entusiasm o e excitam ento se esvaírem devido ao ódio", diz sua terapeuta.