Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 31 de 60

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Complexo de Cinderela

A traição do pai

A cisão, portanto, tem lugar num a distinção básica que a filha efetua: o pai é ativo, a m ãe é passiva. O pai é capaz de cuidar de si m esm o, a m ãe é indefesa e dependente.

Às vezes observa-se um vínculo especial entre a filha e o pai. Eles são am igos. Ele lhe fala de com o ela se parece com ele. Ela se enche de orgulho e satisfação, im aginando-se alguém m uito especial. Pam ela Daniels, um a socióloga de Wellesley, recorda "o ritualzinho retórico desem penhado por m eu pai e por m im diante das visitas. Ele perguntava: 'Quando o papai lhe diz pra fazer algum a coisa, o que é que você faz?' E m inha resposta era: 'Faço!' Não havia no m undo pai m ais orgulhoso, nem filha m ais obediente".

Im agine então o choque quando repentinam ente o pai se distancia, assim que seu "orgulho e alegria" tenta viver a própria vida.

 

A traição do pai

 

"Com um ente o pai estim ula a filha até o ponto em que ele com eça a tem er que os conhecim entos dela sobrepuj em os seus", assinala Ruth Moulton. "Ou então ele receia sentir-se sexualm ente atraído por ela. Freqüentem ente, o pai que se distancia da filha na adolescência é o m esm o pai que lhe ofereceu todo tipo de estim ulação intelectual quando ela era m ais nova." A seguinte história m e foi relatada por um a j ovem m ãe de Washington, D.C.: "Desde os cinco anos de idade todos davam por certo que eu iria ser um a virtuose no piano. Aí, subitam ente, eis-m e de m alas prontas para partir para a faculdade, e m eu pai m e pergunta em que estava planej ando m e especializar. 'Em m úsica, é claro', eu lhe disse. 'Não', retrucou ele; a m úsica era um cam po onde dificilm ente se conseguia sobreviver. 'Faça pedagogia. Assim , no m ínim o, você estará garantida dando aulas.'"

A m ulher seguiu o conselho do pai e form ou-se em pedagogia, especializando-se em pré-escolares. Após o térm ino do curso, lecionou por alguns anos, depois casou-se e teve filhos. Durante o curso colegial, ela fora eleita a aluna "m ais capaz de vencer" — eleição essa feita a nível estadual. Hoj e, a carreira am bicionada, a m úsica, há m uito assom a apenas em seus sonhos, com o um fantasm a.

Com tristeza, ela m e disse: "Há doze anos que não toco piano". Aliás, ela nem tem um piano.

Muitas j ovens que com eçam a vencer em áreas da intelectualidade ou criatividade vêem -se — sem aviso, de súbito — despoj adas de todo o apoio do pai. É um choque, experim entado profundam ente com o um a traição. "Eu cum pria à risca todos os seus conselhos e desej os", escreveu Sim one de Beauvoir, falando de seu relacionam ento com o pai na adolescência, e aquilo parecia irritá-lo. Ele havia proj etado para m im um a vida de estudos e, no entanto, censurava-m e por enterrar o nariz nos livros o tem po todo. A j ulgar por seu ar carrancudo, pensar-se-ia que eu o estava contrariando ao seguir o cam inho que ele escolhera para m im .

Falta à m enina a com preensão com que obj etivar o que está acontecendo com o pai. "Eu ficava m e perguntando o que fizera de errado", ressalta De Beauvoir. "Sentia-m e infeliz e pouco à vontade, e aninhava ressentim ento em m eu coração."

Seguram ente o ressentim ento está presente, porém a j ovem filha fica perplexa com isso, pois acredita no pai e na descrição que ele faz da situação, isto é, que ele se preocupa com ela. Ou desej a treiná-la para a vida. Ou pensa que, para ela, o m elhor é casar-se e alim entar suas am bições com o um hobby, j á que, de qualquer m odo, ela não conseguiria sustentar-se apenas a partir de seus talentos. Por vezes nota-se que o pai está com petindo com a filha com o m esm o vigor com que com petiria com um filho. Contanto que ele ocupe a posição dianteira na corrida, tudo bem ; ele se sente seguro e a cam aradagem persiste. Contudo, assim que a m enina com eça a dar sinais de ultrapassá-lo, iniciam -se os problem as. O pai pode tornar-se abertam ente hostil, criticando-a "para seu bem " ou, sob form a m ais insidiosa, pode ficar sorum bático e alim entar auto-com paixão. Fala-se m uito da m ãe causadora de culpa, e praticam ente nada a respeito do pai que age da m esm a form a. Entretanto, na constelação fam iliar específica que aqui descrevem os, pode bem ser o pai quem tenta reprim ir os esforços da filha, fazendo-a sentir-se culpada.

No ano em que term inou o colegial, Hortense Calisher confessou ao pai seu desej o de ser escritora — em particular (na época), poetisa. Qual a reação dele? Ela conta que ele tirou um caderno com os próprios poem as, caderno esse "j am ais m encionado antes, folheou-o m uito rapidam ente diante dos m eus olhos e disse: 'Olhe aqui. Eu j á quis fazer isso. Mas não se pode ganhar a vida com poesia, querida'".

Com o é que ela ousava tentar o sucesso onde ele próprio fracassara?, era a im plicação subj acente. Pondo-se na posição distanciada necessária à m ulher que desej a ativam ente rom per a estrutura da síndrom e da filha indefesa, a j ovem Hortense retorquiu: "Eu não quero ganhar a vida com poesia!" E a partir daí pôs-se a fazê-lo.

Coisas estranhas podem acontecer quando os pais sentem que as filhas estão fugindo ao seu controle. Em suas várias décadas de prática psiquiátrica, Ruth Moulton viu um a incidência assustadora de pais que, por vingança, se afastavam das filhas no m om ento em que elas tentavam quebrar a estrutura. Um seu conhecido tentou convencer a filha a casar-se tão logo term inasse a faculdade. "A m oça não queria casar-se na época; queria, sim , fazer direito", conta a Dra. Moulton. "Apesar do fato de saber o que desej ava, no início foi-lhe quase im possível consegui-lo."

Para esta m ulher, o que papai pensava dela era dem asiadam ente im portante. O risco de ser rej eitada por ele era potencialm ente devastador. "Ela teve que atravessar um a grande depressão, num a terapia bastante longa", narra a Dra. Moulton, "antes de finalm ente conseguir enfrentar o pai e seguir o próprio cam inho." Ainda assim , em todos os m om entos cruciais de sua vida, lá estava o pai m etendo o bedelho. Exatam ente quando ela pensava ter "elaborado" sua relação em ocional com ele, algo acontecia para relem brar-lhe o grau pernicioso de sua necessidade da aprovação dele.

"Um dia essa m ulher recebeu a oferta de um a bolsa de estudos na Europa. Novam ente seu pai se enfureceu", prossegue a Dra. Moulton. "Ele queria que ela ficasse em casa e estudasse na universidade estadual; ela, por seu lado, desej ava ir à Europa e acabou fazendo isso, m algrado o pai." Depois disso, seu relacionam ento nunca m ais foi o m esm o. "Dez anos m ais tarde, quando o pai m orreu, a m ulher percebeu que na verdade o perdera no ponto em que com eçara a desobedecer-lhe."

Para algum as m ulheres, o m om ento da partida ou da separação do pai, e do que o pai desej a, não ocorre senão bem m ais tarde. Meredith, um a m ulher que lutara arduam ente no m ercado de trabalho de Nova York por dezoito anos, recentem ente teve que enfrentar o relacionam ento infantil que m antivera com o pai; isso foi ocasionado pela perda do em prego que detinha havia alguns anos num a grande com panhia editora.

Ela perdera o em prego por questões de politicagem interna. "Boa colaboradora", Meredith j am ais im aginara deixar "O Grande Pai" (com o atualm ente cham a a estrutura paternalista da corporação). Todavia, quando O Grande Pai a deixou, ocorreram -lhe diversas alternativas, todas elas aptas a fom entar crescim ento pessoal. Ela poderia estabelecer-se com o free-lancer; ou procurar um em prego em outra editora; poderia, igualm ente, voltar a estudar e especializar-se em algo totalm ente novo.

"Senti que era um a hora boa para ao m enos considerar abraçar um a nova profissão", disse Meredith. Ela contava trinta e nove anos na época. Achava que poderia tirar proveito do que lhe acontecera, transform ando o aspecto negativo da situação num tram polim para a m udança. Mas seu pai — que vinha lhe ditando o que fazer desde seus catorze anos, quando teve que recusar o prim eiro convite para sair com um rapaz, pois ele não era "bom o suficiente" para ela — tinha outras idéias. "Papai ficou horrorizado por sua filha ter sido despedida, e queria 'fazer algum a coisa a esse respeito e j á'. Ele conhecia alguém que conhecia alguém que conhecia o dono da em presa — esse tipo de coisa." Consciente da longa história de introm issão de seu pai em sua vida, Meredith resistiu aos esforços paternos no sentido de lhe solucionar o im passe. "Quem sabe?", ela com entou com ele. "Talvez eu volte a estudar e vire um a psicoterapeuta."

Muito bem , se era um a nova profissão que a filha alm ej ava, ele até concordava. Mas... psicoterapia? A advocacia era a profissão certa para a sua cria. "Se você fizer direito, eu pago o curso", anunciou. Se, por outro lado, ela insistisse em se tornar um a terapeuta, ele não lhe pagaria o curso. Psicoterapia não era algo "adequado" para ela. "Mais um a vez", disse-m e Meredith, "era: 'Se você fizer as coisas a m eu m odo, cuidarei de você'. É realm ente nisso que consiste m eu relacionam ento com m eu pai durante todos estes anos. Quando penso nisso, tenho vontade de chorar." Em bora pensar a respeito sem pre tivesse o efeito de provocar-lhe sentim entos de desam paro e vontade de chorar, Meredith afinal chegou a um a conclusão: ou perm anecia sendo a garotinha do papai pelo resto de sua vida, ou, apesar da ansiedade, com eçava a dar passos no sentido de dirigir a própria vida. "Após todos estes anos, por fim adm ito que sou um a princesa", ela confessa. "Meus pais m e diziam o que fazer, o que pensar, que roupa usar. Em nossa fam ília nunca se fazia nada separadam ente ou diversam ente dos outros. Fazia-se tudo conj untam ente. íam os às com pras j untos. Eles escolheram m inhas roupas até eu sair de casa, aos vinte e um anos. Até hoj e em m inha carta de m otorista consta o endereço de m eu pai, em Rhode Island. Sem pre que ela tem de ser renovada, tenho que ir lá para fazê-lo."