Complexo de Cinderela
Fugindo da Luta
Com o Sim one de Beauvoir observou tão astutam ente há m ais de um quarto de século, as m ulheres aceitam o papel de subm issas "para evitar a tensão decorrente da construção de um a existência autêntica". Evitar essa tensão tornara-se m eu obj etivo oculto. Eu regressara à vida dom éstica — ou m elhor, mergulhara nela com o num a banheira de água m orna — porque era m ais fácil. Porque revolver terra, fazer superm ercado e ser um a boa — e sustentada — "parceira" provocam m enos ansiedade do que sair pelo m undo para lutar por si m esm a.
Lowell, contudo, não era o que se cham aria um "m arido tradicional", pois não apoiava essa m inha regressão. Infeliz com o que aparentem ente desem bocaria num a perm anente inj ustiça (ele pagando as contas e eu fazendo as cam as), um dia ele apontou o fato de eu não estar pondo dinheiro em casa. Em term os financeiros ele estava sendo o provedor absoluto, sustentando a m im e a m eus três filhos, bem com o a si próprio, e eu nem parecia estar consciente dessa inj ustiça. Doía-lhe, disse, eu parecer tão satisfeita em em poleirar-m e e tirar proveito de sua boa vontade em aj udar.
Sugeria que eu não estava cum prindo m inha parte no trato, o que m e encheu de ódio. Nenhum hom em j am ais sugerira tal coisa antes. Então ele não ligava para tudo o que eu estava fazendo para ele? Quem é que cuidava do nosso lindo lar? E todos aqueles bolos e tortas? Será que ele não notava que, quando tínham os hóspedes para o fim de sem ana, era eu quem trocava a roupa da cam a e lim pava o banheiro de hóspedes?
Era verdade que, na organização dom éstica, era eu quem fazia a m aior parte do "trabalho chato". Tam bém era verdade que fora eu quem assum ira esse papel, j am ais colocando-o em discussão. No íntim o, eu queria estar fazendo o trabalho chato. Ele é infinitam ente seguro.
Quando Lowell e eu resolvem os m udar-nos de Nova York e m ontar um a casa no cam po, com bináram os que cada um continuaria a se sustentar. Com o foi fácil "esquecer" isso! Cheguei a propor idéias para artigos de revista e livros, m as não estava em ocional nem intelectualm ente engaj ada no que fazia. Olhando para trás, agora, acho surpreendente eu não ter experim entado, na época, a necessidade de estar trabalhando. Em vez disso, lá estava eu com odam ente tirando vantagem do papel de esposa. E Lowell dizia: "Não é j usto". E eu pensava: "O que não é j usto? Não é assim que deve ser?" Algo em m im m udara. Enquanto estivera só e a necessidade de cuidar de m im e das crianças era clara e não am bígua, eu fora capaz de exercer m inha profissão e ao m enos comportar-me de m odo independente. Assim que Lowell e eu nos j untam os, todavia, regredi. Não precisei de m uito tem po para "recuperar" os padrões de pensam ento, sentim ento e ação dependentes exibidos durante os nove anos de m eu casam ento. Que ironia! Desfizera m eu casam ento porque com eçara a detestar m eus sentim entos de dependência. Minha vida tinha se tornado sufocante e restrita, e eu m e libertara. E eis que, quatro anos depois, eu fazia tudo de novo — salvo os j ardins e a casa grande, que só vieram dourar a pílula.
O aspecto econôm ico da situação era crucial para o que estava acontecendo. Com o deixara a cargo de Lowell a responsabilidade do pagam ento de todas as contas, escapei à ansiedade de ter que ganhar a vida. É constrangedor para m im adm itir isso agora, m as m inha atitude para com Lowell foi de exploração. Eu não queria o desgaste decorrente da responsabilidade por m eu próprio bem -estar. Visceralm ente, tam bém sentia que era adequado que Lowell trabalhasse m ais e assum isse m aiores riscos, sim plesm ente porque era hom em . Eu acreditava nisso, pelo m enos parcialm ente, porque fazia m inha vida m ais fácil. É aqui que aparece a parte exploradora. (Eu tam bém sentia haver algo não inteiram ente "fem inino" em relação a um com prom etim ento real com o trabalho — com o se eu deixasse de ser m ulher, se realm ente saísse pelo m undo e cavasse e batalhasse no m ercado com um da econom ia adulta. Mais tarde descobri que essa idéia, nunca questionada, desem penhava um papel im portante em m inha luta pela independência.)
Um a vez ao m ês, Lowell punha no correio os cheques de pagam ento do aluguel, da luz, da água e do com bustível para o aquecim ento central. Era ele tam bém quem m antinha o carro. (Aliás, era ele quem dirigia o carro; eu tinha fobia de dirigir e não conseguia — nem desej ava — aprender a fazê-lo.) Para dem onstrar m inha cooperação, eu não com prava nada de uso pessoal, fossem roupas, m aquilagem ou peças de decoração para a casa. Orgulhava-m e de poder eu m esm a criar enfeites a partir de velhos obj etos que encontrava no porão. Esse arranj o m e perm itia perm anecer distanciada do ponto crítico da situação. "Eu gostaria de trabalhar", dizia a Lowell. "Se alguém m e oferecesse um contrato, eu ficaria feliz por poder escrever. É minha culpa se ando sem inspiração?"
"E se você continuar assim ?", ele perguntou afinal, após um ano. "E aí?" Seu "E aí?" enregelou-m e. Para m im aquilo constituía prova de que seu am or não era m uito profundo, senão ele não m e pressionaria assim . Por que é que estava, na verdade, m e dizendo: "Não quero cuidar de você"? O fato de não estar realizando nenhum trabalho profissional com eçou a corroer m inha auto-estim a. Em apenas três ou quatro m eses de vida de Hausfrau, naquele ano, m inha dependência com eçou a m ostrar-se de form a inequívoca. Aquela felicidade dom éstica pareceu esvanecer-se da noite para o dia, dando espaço à depressão. Em prim eiro lugar, eu sentia ter m uito poucos direitos. Sem aperceber-m e disso, passei a pedir a permissão de Lowell para fazer as coisas. Ele se incom odaria se eu ficasse em Manhattan até m ais tarde para visitar um a am iga? Será que poderíam os ir ao cinem a sexta à noite? Inevitavelm ente surgiu a deferência. Com ecei a sentir-m e intim idada pelo hom em que m e sustentava. Foi quando passei a achar todo tipo de falhas nele, criticando-o nas coisas m ais ridículas. Sinal certo de quão im potente eu m e sentia. Desgostava-m e sua grande capacidade de ficar à vontade com as pessoas, a fluidez que perm eava suas relações, fossem elas sociais ou em presariais. Ele parecia tão autoconfiante! Subitam ente percebi-m e odiando-o por isso. Ao passo que Lowell avançava, com o sucesso aparentem ente aguardando-o em cada esquina, eu ia m e sentindo deprim ida e ansiosa, e tendo dificuldade em dorm ir à noite. Percebia-m e querendo m ais e m ais sexo — ou m elhor, o contato que o sexo proporcionava —, pois com eçara a duvidar de que fosse sexualm ente desej ável, além de tudo o m ais. Se pudesse descrever aquele período, diria que, ao m ínim o, m inha auto-im agem era de total vulnerabilidade. Perdera a confiança em m inha capacidade com o escritora, com o agente de m eu destino e — obviam ente — com o am ante.
Talvez o m ais sintom ático de tudo tenha sido o seguinte: não m ais contar com a perspectiva que nos possibilita enxergar o hum or nas coisas. Eu entrara num círculo vicioso; perdera o respeito por m im m esm a e não conseguia analisar nada direito. Fiquei m edrosa, achando que a única saída era contar com alguém que m e levantasse. Queria que Lowell reconhecesse m inhas dificuldades e em patizasse com igo. Queria que ele visse que todos os acontecim entos de m inha vida haviam conspirado contra a possibilidade real de eu viver por m im só. Eu acreditava nisso piam ente, e sentia-m e m arcada de m aneira tal que j am ais poderia m udar nada.
"Vej a só com o fui criada", eu dizia. "Ninguém nunca esperou que eu tivesse de ganhar a vida. Com o é que eu ia esperar isso"? "Não é nada disso", ele retrucava. "Você se m anteve bem durante todos os anos em que esteve só. Agora que está vivendo com igo, está paralisada. Deve haver algo de errado."
O pior de tudo era que, em term os intelectuais, ele e eu professávam os as m esm as idéias. Am bos acreditávam os que as m ulheres deveriam ser responsáveis por si m esm as. Com o eu pudera regredir tão rapidam ente? O que tinha acontecido com igo?
Muitas coisas, na verdade. Boa parte das dificuldades com que eu estava m e defrontando tinham base concreta em m inha infância. O que não im plicava que tivessem de ser eternas. Em m eio a toda a dor e confusão, reconheci de algum m odo que eu fazia por conservar as coisas com o se apresentavam , que havia certas distorções na form a com o eu considerava esses fatores; em outras palavras: que eu estava ativamente mantendo essas distorções. Certam ente m inha relação com Lowell — ele sendo o protetor, e eu, a protegida — estava distorcida. Assim com o m inha relação com igo própria. Por algum a razão eu estava m e vendo com o m enos forte e m enos com petente que Lowell. Essa era um a distorção básica da qual, conseqüentem ente, brotava outra: Lowell "deveria" tom ar conta de m im . Sim , essa é a ética errônea dos fracos (ou daqueles que persistem em assim se conceberem ). Cabe aos fortes arrastar-nos para a frente; se não o fazem , afirm am os de m il m aneiras que não sobreviverem os.
Assim que reconheci que tinha raiva da idéia de precisar reassum ir a responsabilidade por m inha vida, raiva de Lowell por "forçar-m e" a fazê-lo, senti-m e envergonhada e profundam ente isolada. Com o era possível ter tanto m edo da independência? No tocante ao fem inism o, eu voltara à idade glacial. Quem mais, dentre todas as pessoas que conhecera, quem mais preferiria — como eu parecia preferir — ser dependente a ser independente?