Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 10 de 60

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Complexo de Cinderela

A famosa "situação de desvantagem" da mulher

Por que as m ulheres têm tanto m edo? A resposta a essa pergunta se acha na raiz do com plexo de Cinderela. A experiência tem algo a ver com isso. Se você não sair e agir, perm anecerá para sem pre tem erosa dos negócios do m undo. Contudo, várias m ulheres alcançam certo grau de sucesso em suas carreiras e profissões e ainda assim se m ostram no fundo inseguras. De fato, com o verem os nos capítulos a seguir, é espantoso nos dias de hoj e que tantas m ulheres retenham um núcleo oculto de dúvida, em relação a si m esm as, enquanto externam ente se com portam com o se fossem m onum entos de autoconfiança. Recentes pesquisas em psicologia dem onstram que esse núcleo de dúvida é característico das mulheresde hoje. "Descobrim os que os atributos 'passividade', 'dependência' e, principalm ente, 'auto-estim a rebaixada' são as variáveis que repetidam ente diferenciam as m ulheres dos hom ens", relata a psicóloga Judith Bardwick, a partir de estudos conduzidos na Universidade de Michigan. Poucas m ulheres precisam de pesquisas para se convencerem disso. A falta de autoconfiança parece perseguir-nos desde a infancia, e com intensidade tão palpável que, às vezes, tem os a sensação de tratar-se de algo com existência própria. Miriam Schapira, um a pintora de Nova York, conta ter passado a vida inteira com a sensação de que dentro dela vive um a criança desprotegida, um a "criatura frágil e indefesa, tím ida e auto-recrim inadora". Som ente quando pinta, diz ela, a criança "consegue tornar-se m ais assertiva, viva... e m ais livre em seus m ovim entos".

Independentem ente do vigor investido em nossa tentativa de viver com o adultas — flexíveis, potentes e livres —, a m enininha dentro de nós sobrevive, assom brando nossos ouvidos com m urm úrios assustados. Os efeitos de tal insegurança são am plos e resultam num fenôm eno social incôm odo: as m ulheres em geral tendem a funcionar m uito abaixo do nível de suas habilidades básicas. Por razões culturais e psicológicas — um sistema que na realidade não espera muito de nós, em combinação com nossos receios de afirmarmo-nos e enfrentarmos o mundo —, as mulheres estão se mantendo por baixo.

 

A famosa "situação de desvantagem" da mulher

 

Para com eçar, considerem os a história de nosso progresso econôm ico nos últim os vinte anos. Apesar do m ovim ento de conscientização dos anos 60 e 70, as m ulheres atualm ente se encontram em situação m ais desfavorável do que nos tem pos das saias-balão e dos espartilhos. Em com paração com os hom ens, hoj e ganham os m enos dinheiro que há duas décadas. Em 1956, a m édia salarial das m ulheres constituía sessenta e três por cento da dos hom ens. Agora ganham os m enos de sessenta por cento do que percebem os hom ens. Não obstante o desenvolvim ento de cursos e ação política que enfocam o problem a da m ulher, a m aioria de nós ainda adentra o m ercado de trabalho com salários e posições inferiores aos dos hom ens. Dois terços das m ulheres que trabalham ganham m enos de dez m il dólares anuais. Mal ganham os o suficiente para sobreviver, quanto m ais para garantir o futuro. Aum ento do capital, participação nos lucros, um a boa aposentadoria — estes são term os em presariais da alçada dos homens. Metade das mulheres trabalhadoras não tem direito à Previdência. Constituím os — aparentem ente por nossa própria vontade — um exército de parasitas m alpagas tão m aciço e tão característico que os cientistas sociais atribuíram -nos nova denom inação: "os oitenta por cento". Com isso referem -se à porcentagem de m ulheres que ocupam posições braçais ou sem i-especiaiizadas, percebendo salários ínfim os — m ulheres que, ao m enos econom icam ente, rastej am com o verm es no fundo de um poço.

Até recentem ente, as pessoas que trabalham com estatística abom inavam a expressão "m ulheres no m ercado de trabalho", com o se fôssem os um exército de am azonas pronto a dom inar o m undo. A noção do crescim ento da força e da m obilidade fem ininas está no ar há pelo m enos um quarto de século. Entretanto, com o os sociólogos finalm ente com eçam a reconhecer: "Para cada profissional m ulher bem -sucedida há outra cuj a 'participação no m ercado de trabalho' consiste em m anipular um a m áquina de fábrica oito horas ao dia, e outra cuj o trabalho esgota-se em arrum ar cam as e lim par banheiros, e outra ainda que passa o dia datilografando cartas e arquivando correspondência nos grandes e im pessoais escritórios da burocracia am ericana". (Essa afirm ação foi feita por Jam es Wright, da Universidade de Massachusetts, que, a partir da inform ação levantada em seis pesquisas a nível nacional, concluiu que o grau de satisfação das m ulheres que trabalham fora de casa não é m aior do que o das m ulheres que trabalham dentro dela. É fácil ver-se por que, estatisticam ente, as m ulheres dem onstram pouco entusiasm o por seus em pregos, um a vez que oitenta por cento delas deixam o conforto do lar apenas para faxinar escritórios e/ou arquivar papelada por baixos salários e sem direito à Previdência.) Num nível superficial, pode parecer que o problem a da m ulher não é nem um pouco diverso do do hom em ; pouquíssim as são as pessoas (de am bos os sexos) que chegam um dia ao topo do m undo dos negócios. Mas com as m ulheres a história é diferente. Vários estudos consistentem ente dem onstram que, entre os hom ens, o QI guarda relação m ais ou m enos estreita com o nível de desem penho, ao passo que, entre as m ulheres, essa relação é essencialm ente nula. Essa chocante discrepância foi revelada pela prim eira vez por um estudo sobre crianças bem -dotadas conduzido em Stanford. Mais de seiscentas crianças com QI superior a 135 (isto representa um por cento da população) foram identificadas nas escolas da Califórnia, e seus desem penhos foram seguidos até se tornarem adultas. As ocupações das m ulheres cuj os QI’s, na infância, equiparavam -se aos dos hom ens eram , na m aioria, insignificantes. Aliás, dois terços das mulheres com QI de 170 ou mais (gênios) ocupavam-se como donas-de-casa ou escriturárias.

O desperdício de talento fem inino é um escoadouro de cérebros que afeta o país inteiro, e por isso vem sendo exam inado atentam ente por diversos psiquiatras. Surpresa com o núm ero de m ulheres em conflito com o tem a "realização" que a vem procurando nos últim os anos, a Dra. Alexandra Sy m onds percebeu que as talentosas freqüentem ente m ostram -se adversas a avançar para posições de auto-suficiência. Entravam o processo ou tornam -se excessivam ente ansiosas diante da possibilidade de obter prom oções. Muitas delas gravitam ao redor de m entores, preferindo trabalhar com o brilhantes (e não reconhecidas) assistentes dos hom ens no poder — rej eitando tanto o crédito quanto a responsabilidade por suas próprias contribuições. Em terapia, aferram -se a essa subordinação. "Cada passo em direção à auto-asserção sadia é consciente ou inconscientem ente reprim ido", diz Sy m onds. "Algum as m ulheres afirm am explicitam ente que gostam de ser cuidadas e não tencionam m odificar essa posição. Outras vêm ... com a aparente resolução de m udar isso, porém , quando confrontadas com a realidade de tal m odificação e as inevitáveis opções entre separação e auto-em ergência, entram em pânico."

Em seu consultório em Manhattan, a Dra. Sy m onds trata várias m ulheres bem -sucedidas; entre elas, constatou que o problem a era de auto-confinam ento. Com relação a suas habilidades inatas, um a grande porção delas parecia incapaz de exercitar por com pleto seu potencial.

Por quê? O que é que "segura" essas m ulheres? O m edo, responde a Dra. Sy m onds. As m ulheres não querem experim entar a ansiedade intrínseca ao processo de crescim ento. Isso tem relação com a form a com o foram criadas. Quando crianças, as m ulheres não aprendem a ser assertivas e independentes; pelo contrário, são ensinadas a ser não-assertivas e dependentes. O fato de que o sinal verde foi aberto para elas, "perm itindo-lhes" ser independentes, só veio confundi-las. Ao redor desse "núcleo de dependências" brotando na infância, explica Sy m onds, desenvolve-se "um a constelação de traços de caráter inter-relacionados e que se reforçam m utuam ente". Esses traços se cristalizam com os anos. "Com o qualquer estrutura de caráter estabelecida, é im possível rom pê-la sem ansiedade." Portanto, é o rom pim ento de um a estrutura de caráter — ou a perspectiva de fazê-lo — que leva as m ulheres de hoj e a se sentirem tão perdidas. A estrutura dependente foi visualizada com o sendo apropriadam ente "fem inina" pelos psicanalistas m ais influentes. A seguinte passagem do texto clássico The psychology of women (Psicologia fem inina), de Helene Deutsch, pode parecer antiquada (foi publicado em 1944). Mas não se iluda; ela reflete as m esm as idéias de nossos pais e m ães no tocante à educação de suas filhas. Conseqüentem ente, sua noção da m ulher com o "a com panheira ideal" casa-se perfeitam ente com a nossa auto-im agem .

Deutsch assegurou ao m undo que a m aior felicidade da m ulher é subordinar-se a seu hom em .

"Elas parecem ser facilm ente influenciáveis, adaptar-se a seus com panheiros e com preendê-los. São com panheiras adoráveis e não-agressivas, e desej am perm anecer nesse papel; elas não insistem em ter seus próprios direitos — m uito pelo contrário."

Quanto à capacidade fem inina para a originalidade e a produtividade, Deutsch faz lem brar um a superiora de convento:

"... estão sem pre prontas a renunciar a suas próprias realizações sem se sentirem lesadas por isso, e rej ubilam -se frente às realizações de seus com panheiros... Elas têm um a extraordinária necessidade de apoio quando engaj adas em qualquer atividade dirigida para fora do lar".

Atualm ente, psiquiatras m enos cegos reconhecem o núm ero contorcionista exigido das m ulheres num a idade em que se espera que reprim am seus im pulsos m ais sadios. Sy m onds observa que as m ulheres não nasceram com esse protótipo "ideal"; elas tiveram que dar duro para atingi-lo. "Para que se consiga renunciar às próprias realizações sem sentir-se lesado, deve-se despender constantes esforços. Para ser adorável e não-agressiva, a m ulher passa a vida inteira contendo seus im pulsos hostis ou agressivos. Até a auto-asserção sadia é costum eiram ente sacrificada, pois pode ser confundida com hostilidade. Portanto, freqüentem ente elas reprim em sua iniciativa, renunciam a suas aspirações e infelizm ente acabam excessivam ente dependentes, com um a profunda sensação de insegurança e incerteza quanto a suas capacidades e seu valor."

Tendo em m ente a enorm e m udança ocorrida no que a sociedade considera um com portam ento fem inino "adequado", retom em os a questão das atuais atitudes fem ininas quanto ao trabalho e ao dinheiro. (Com o verem os, essas atitudes são vitais no processo do que cham am os "situação de desvantagem da m ulher".) Certas tendências recém -em ergentes (ou recentem ente reconhecidas) com eçam a evidenciar o fato de que as m ulheres não têm sido sim plesm ente mantidas econom icam ente dependentes; elas m esm as contribuem para isso. Por exem plo, entre 1960 e 1976 o núm ero de form andas de faculdades cresceu quase quatrocentos por cento. E, no entanto, m ais de m etade das m eninas am ericanas na segunda série do segundo grau ainda afirm am desej ar em pregos em um a dentre apenas três categorias profissionais: secretariado e atividades de escritório afins, serviço social e m agistério, e enferm agem . "A discrim inação de sexos no m ercado de trabalho é um a realidade, porém a principal razão da falta de produtividade profissional das m ulheres é sua m á vontade em assum ir um com prom isso profissional a longo prazo", escreve Judith Bardwick em The psychology of women: A study of biocultural conflicts (Psicologia fem inina: Um estudo de conflitos bioculturais). Relacionando os dados obtidos pelo National Manpoker Council, pela President's Com m ission on the Status of Wom en e pelo Radcliffe Com m ittee on Graduate Education, Bardwick conclui: "Tom ando-se a população de m oças e rapazes academ icam ente talentosos, nota-se que o núm ero de calouros e form andos de faculdades entre as prim eiras é significativam ente m enor que entre os segundos. A m esm a relação se dá no tocante a cursos avançados. Aquelas que chegam a com pletar o doutorado usam -no m enos que os hom ens. Elas são m enos produtivas que os hom ens, m esm o que com pletem o doutorado, perm aneçam splteiras e continuem a trabalhar em período integral". As m ulheres continuam a escolher carreiras m alpagas. Em 1976, quarenta e nove por cento dos bacharelados, setenta e dois por cento dos m estrados e cinqüenta e três por cento dos doutorados outorgados a m ulheres eram relativos a seis áreas tradicionalm ente "fem ininas" e m al-rem uneradas. "Se as m ulheres continuarem a abraçar profissões costum eiram ente ditas fem ininas", diz Pearl Kram er, econom ista-chefe do Long Island Regional Planning Bard, "a diferença entre o que ganham e o que seus colegas hom ens ganham persistirá indefinidam ente."