Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 27 de 60

Páginas do PDF

Complexo de Cinderela

Como começa tudo isso?

As m eninas desse j ardim de infância estavam representando um antigo sistem a de troca: servir o am o em troca de proteção. Professores, terapeutas e dem ais profissionais que trabalham ou estudam com j ovens do sexo fem inino deploram a continuidade da existência do com plexo de Cinderela — a crença, por parte das m eninas, de que sem pre haverá alguém que irá cuidar delas. "Apesar de toda a ênfase que hoje se dá à ampliação de papéis femininos, não houve mudanças significativas na preparação das meninas para a idade adulta", disse Edith Phelps, diretora executiva do Girls Clubs of Am erica, num a recente conferência. "Sua preparação continua no m áxim o destrutiva — e no m ínim o cheia de conflitos." Estudando adolescentes na University of Michigan, a psicóloga Elizabeth Douvan descobriu que, até a idade de dezoito anos (e às vezes além dela), as m eninas praticam ente não m ostram nenhum im pulso para a independência, não se rebelam nem confrontam a autoridade, e não defendem "seus direitos de form ar e preservar crenças em m ecanism os de controle independentes". Com respeito a todos esses aspectos, elas diferem dos m eninos. E os dados mostram que a dependência nas mulheres cresce à medida que elas ganham mais idade.

Tam bém revelam , surpreendentem ente, que, desde bem pequenas, as m eninas são treinadas para a dependência, ao passo que os m eninos são treinados para se livrarem dela.

 

Como começa tudo isso?

 

As m eninas iniciam o j ogo da vida um passo adiante dos m eninos. São m ais habilitadas verbal, perceptual e cognitivam ente. Desde o nascim ento contam com um a vantagem , em term os desenvolvim entistas, equivalente a quatro ou seis sem anas de vida. Quando entram na prim eira série do prim eiro grau, as m eninas se encontram um ano à frente dos m eninos nesses aspectos. Então por que é que, já aos três ou quatro anos de idade, elas desempenham com tanta "naturalidade" o papel de serviçais?

Eleanor Maccoby, um a psicóloga de Stanford com especialização em fatores psicológicos da diferença de sexos, responde que "a chave do problem a reside em se, ou quão cedo, a m enina é encoraj ada a assum ir a iniciativa, a responsabilidade por si m esm a, e a resolver sozinha seus problem as, em vez de, para isso, depender de outrem ".

Os psicólogos afirm am que a estrutura independente é m ontada antes de a criança atingir os seis anos de idade. Alguns deles crêem agora que as m eninas são incapazes de dar a virada crucial em seu desenvolvim ento em ocional precisamente porque seu traj eto lhes é dem asiadam ente facilitado — porque são superprotegidas, exageradamente aj udadas, e ensinadas no sentido de que tudo o que têm a fazer para m anter a continuidade da aj uda é serem "boas". Acontece que os com portam entos reforçados nas m eninas não são reforçados nos m eninos. Muito do que se considera "bom " em garotinhas é considerado extrem am ente repulsivo em garotinhos. Tim idez e fragilidade, ser "bem -com portada" e quieta, e depender dos outros para obter auxílio e apoio são com portam entos j ulgados naturais — se não desej áveis — nas m eninas. Os m eninos, em contrapartida, são ativam ente desencoraj ados a apresentar form as dependentes de relacionam ento — elas os tornam m aricas. Gradualm ente, diz Judith Bardwick, "o filho é forçado a apresentar com portam entos independentes e recom pensado por isso"...

Por que os m eninos (e não as m eninas) crescem aprendendo a ser independentes, por que eles não têm m edo de se arriscar sozinhos (ou m elhor, por que o fazem apesar de seu medo), e por que com eçam a desenvolver padrões pessoais de auto-estim a virtualm ente antes de deixarem as fraldas — essas são questões que estão sendo exam inadas por pesquisadores com o Bardwick e Douvan. Com isso desenvolveu-se um a teoria relacionada com os efeitos construtivos da tensão. Aos olhos dos pesquisadores, ao garotinho não resta escolha senão a de lidar com a tensão produzida pela repressão de seus "com portam entos instintivos" (aqui alude-se às proibições de atos com o m order, bater e m asturbar-se em público), e pelo processo "m asculinizante" de extinção de seu com portam ento dependente. Essa tensão, crêem eles, é, em últim a análise, benéfica: a experiência de ter que lidar com restrições, e eventualm ente ter que se bastar sem a aprovação adulta, aj uda a guiar o m enino pelo cam inho correto — o cam inho da descoberta de viver segundo suas próprias inspirações. Via de regra o processo de adotar um modo de ser independente se inicia, nos meninos, ao dois anos. Durante os três anos seguintes, eles aos poucos se alienam da necessidade de aprovação externa e passam a desenvolver critérios independentes através dos quais se sintam bem consigo próprios. A m aioria dos m eninos atinge esse ponto vital do processo de m aturação antes de completar seis anos de idade.

Com as m eninas a coisa é bastante diferente. Em estudos desenvolvim entistas im portantes e freqüentem ente citados, Jerom e Kagan e H. A. Moss descobriram que tanto a passividade quanto um a orientação dependente em relação aos adultos apareciam consistentem ente nas m eninas, desde a infância até a idade adulta. Mais: descobriu-se que estes dois traços de personalidade eram os m ais estáveis e previsíveis entre todos os traços de caráter fem inino. A m enina que é passiva nos três prim eiros anos de vida seguram ente (ou quase) continuará a ser passiva no início da adolescência; da m esm a form a, pode-se esperar da adolescente passiva um com portam ento excessivam ente dependente de seus pais tam bém quando atingir a idade adulta.

À m edida que crescem , as m eninas tendem a aumentar o seu grau de dependência dos outros. Num a espécie de aberração do desenvolvim ento norm al, as crianças do sexo fem inino utilizam suas precoces habilidades perceptivas e cognitivas não para apressar o processo de separação da m ãe, não para se envolverem na satisfação de realizar por realizar (elas em geral perseguem as realizações em nom e da aprovação conseqüente), não para efetuar um a crescente independência, m as sim para aprender e antecipar as exigências adultas — e a elas se conform ar.