Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 54 de 60

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Complexo de Cinderela

Capítulo VII

Libertando-se

Depois do térm ino de m eu casam ento, o que m e trouxe de volta ao viver por m inha conta, não tardou m uito para que assom assem à superfície estranhos sinais contraditórios de perturbação. Havia um a trem enda fadiga; eu experim entava crises de choro quando não conseguia dorm ir. Por outro lado, esses sintom as depressivos eram contrabalançados por m om entos de indescritível alegria e energia, instantes de exultação quase m aníacos, j á que aparentem ente destituídos de razão de ser.

Os m elhores m om entos eram aqueles em que eu im aginava que algum dia obteria um real reconhecim ento. Não tinha bem certeza do que isso significava, exceto que equivalia a algum a form a de resgate. "Eles" m e descobririam , "eles" reconheceriam m eu caráter, m eus talentos ocultos e rem over-m e-iam daquele grande e vazio apartam ento sem vida, transportando-m e para algum a fronteira excitante, onde satisfações desconhecidas m e aguardavam . Às vezes, tarde da noite e ligeiram ente bêbada, eu dançava para m im m esm a em frente ao espelho. Nessas horas usava apenas um chapéu de abas curtas com um a longa plum a. Ainda recordo essa im agem em parte devido a seu contraste tão gritante com aquele outro aspecto de m inha personalidade — a colegial tím ida, j ovem , insegura e sem experiência. Essa era a parte de m im que desej ava perm anecer em segundo plano, contentando-se com a m era sobrevivência. Essa era a m ulher que se auto-retraía, feliz se o aluguel estava pago e o telefone ainda não fora cortado. De que m ais precisava além de um pouco de com ida e um pouco de calor?

Perto do fim desse período de m inha vida, o aspirador de pó quebrou-se. Sintom ático foi eu não haver m e m exido para que fosse consertado. "A vassoura serve", dizia-m e enquanto varria o apartam ento dia após dia. "Afinal de contas, as m ulheres não usavam vassouras antes da invenção dos aspiradores?" Com o eu andava assustada na época! Que vida m ais lim itada e reprim ida a m inha! Eu m e sentia agradecida quando ganhava entradas para o teatro, ou se era incum bida de escrever algum a coisa sobre um espetáculo de balé, pois então podia vê-lo de pé nos bastidores do New York State Theater. Lá m eus olhos se arregalavam com um m isto de espanto e adm iração pela j ovem bailarina sobre o palco esbanj ando perícia e perfeição, m ovendo o corpo vigorosam ente ao som da triunfante m úsica de Stravinski. Por algum a razão eu preferia pensar na bailarina com o um a m ágica. Eu não conseguia conciliar a m aj estade de seu desem penho com o suor escorrendo-lhe pelo corpo ou com as contorções de seu rosto quando, durante um a pausa da dança, tendo as costas para o público, eu a via ofegante, clara e odiosam ente cansada. Ela então parecia esgotada, vulnerável, exausta pelo esforço de ter-se entregue por inteiro. Eu não queria ver a conexão entre a m agnificência de sua arte e o trabalho duro, torturante, que se tinha de im por para alcançar aquele grau de desem penho. Essa visão m e presenteava com um a verdade desagradável: um a m ulher arquej ante, descontrolada e — m esm o que por um breve lapso — horrível de se ver. Seus esforços afrontavam dolorosam ente m eus sonhos de glória — sonhos que, sem eu saber, eram caracterizados por um a face quase vingativa: eu não deveria ter que lutar pelo reconhecim ento. Ele deveria vir a m im tão fluidam ente quanto um m anto de seda caindo-m e pelos om bros.

Fortes ondas de oposição estavam em ação. Ao m esm o tem po que m inha auto-estim a era dolorosam ente baixa, m inhas fantasias a m eu respeito eram grandiosas. A idéia de que realm ente deveria em penhar-m e para conseguir o que alm ej ava era hum ilhante; ela parecia validar aquela outra terrível opinião sobre m im m esm a: que, não sendo m uito inteligente e com certeza não-original, só m e restava m ourej ar. Eu era a insignificante irm ã adotiva cuj a única razão de ser era a de m anter a lareira acesa, o borralho lim po. Tal com o Cinderela, eu sonhava com um a fada-m adrinha, um príncipe — qualquer pessoa que m e proporcionasse um a saída.

Se tudo o que se desej a é segurança, basta um a existência lim itada e insípida. Eu não m e contentava com isso. Sentada na m inha grande cam a vazia naquele triste inverno de 1973, com os canos do aquecim ento tinindo e o ar quente escapando dos radiadores para turvar as j anelas, m inha m ente era assaltada por im agens de com o seria ser forte e autêntica, livre da ansiedade. Aos vinte e sete anos, enfiada em outro apartam ento m enor com três crianças pequenas, eu costum ava im aginar-m e usando um a m inissaia e botas, atravessando a Fifth Avenue num a Honda verm elha. Agora eu sonhava com outras coisas — com um a produção literária forte e livre: linhas de um a poesia carregada de intensa em oção assom avam -m e à m ente durante a insônia do m eio das noites. Não as pus no papel na época, porém elas m e apontavam a intensidade de m inha vida interior. Sonhava tam bém com viagens, com idas e vindas com novos am igos e am antes, segura num a gratificante nova conexão com igo m esm a. Subitam ente, e pela prim eira vez, reconheci ser um a pessoa que desej ava. Desej o, desej o, desej o, gritava um a voz dentro de m im , apesar de eu ainda ter a im pressão de que j am ais poderia obter o que desej ava. Era com o se estivesse vivendo dentro de um a m em brana rígida, m as translúcida. Enxergava através dela, porém não conseguia sair. As coisas que chegara a desej ar não eram m ateriais, m as em ocionais; não quantificáveis, m as torturantem ente evanescentes: a liberdade de fazer e ser, sim bolizada por anseios de m ais luz, m ais ar puro, m eses de férias j unto ao m ar, um a casa no cam po. Reprim idos, m eus desej os conflituosos de ser livre e estar em segurança m antinham -m e presa. Eu praguej ava, eu dançava, eu chorava. O chão sob m eus pés se deslocava. Disso tudo adviriam benefícios. Passar-se-iam alguns anos m ais; am igos partiriam ; as pessoas diriam que eu havia m udado. Eu teria m e tornado diferente — um a pessoa diferente. A ansiedade desapareceria, m as com ela igualm ente sum iria o que m e levava a dançar com ar sonhador na frente do espelho. Se queria curar a cisão que m e atorm entava, teria que renunciar a m uita coisa. Adeus à com odidade da segurança; adeus às glórias que se podem fantasiar quando se está vivendo principalm ente voltado para si m esm o.