Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 22 de 60

Páginas do PDF

Complexo de Cinderela

A esposa secretamente fóbica

Quando j ovem , Caroly n fora um contralto de prim eira ordem , um a das m ais j ovens cantoras a serem convidadas a participar da Santa Fe Opera Com pany. Esforçada e talentosa m enina de Shaker Heights, Ohio, ela crescera participando de caçadas e corridas de cavalo e — acim a de qualquer outra coisa — treinando, treinando, treinando, o que resultou num a voz adm irável para a sua idade. Todos os que a conheciam ficavam im pressionados com sua disciplina, sua m aturidade, seu profundo senso de obj etivo. "Caroly n sem pre soube o que queria, desde bem pequena", sua m ãe costum ava com entar em sua roda de am igas do clube de cam po. Elas concordavam silenciosam ente, no íntim o inve-j ando-a, j á que, enquanto suas filhas se ocupavam em "bolar" penteados sofisticados e engom ar suas blusas e saias, Caroly n ia-se envolvendo em algo... significativo. A m enina trabalhava febrilm ente, estivesse desm azelada e com os cabelos desgrenhados, ou elegantem ente vestida em seu traj e com pleto de equitação. Por fim , nos últim os anos da adolescência, desistiu da equitação e passou a praticar o canto durante duas, três, quatro horas diárias. Na prim avera de seu últim o ano na faculdade, Caroly n foi a Santa Fé para concorrer a um a vaga na com panhia de ópera e, para alegria e satisfação de seus fam iliares, foi aceita. Im ediatam ente fizeram -lhe as m alas e despacharam -na para o ingresso no m undo da m úsica. Quem é que iria im aginar que apenas seis m eses m ais tarde, m andada pela m am ãe para um a sem ana de apresentações em Nova York, ela iria conhecer e se apaixonar pelo elegante Helm ut Anderson? Se isso não tivesse ocorrido, Caroly n provavelm ente teria entrado para um a com panhia de ópera de Nova York; contudo, quando Helm ut a pediu em casam ento, ela resolveu facilitar as coisas para o m arido "ficando em casa algum tem po". Helm ut, aos vinte e quatro anos, estava term inando seu doutorado. Ele precisava da paz e da quietude de um lar enquanto escrevia a tese de doutorado.

Em resum o: precisava de um a esposa.

 

A esposa secretamente fóbica

 

Sem prestar m uita atenção ao fato ("Quem é que prestava m uita atenção a essas coisas?", com entou, suspirando), Caroly n engravidou de im ediato, e novam ente oito m eses após o nascim ento do prim eiro filho. Jovem , cheia de energia, loucam ente apaixonada e com toda um a história de vitórias atrás de si, Caroly n im aginou que seria fácil retom ar a carreira quando as crianças entrassem no j ardim de infância. Enquanto isso ela seria dona-de-casa, m ãe e secretária, papel — e que choque descobri-lo — que adorava. "Eu nunca brinquei de casinha quando pequena", contou-m e. "Depois dos seis ou sete anos, nunca m ais dei a m ínim a a bonecas. Mas quando Helm ut e eu nos casam os, senti-m e encantada por ficar em casa, encantada por cuidar de um a casa, encantada, enfim , por ser esposa e dona-de-casa. O que m e pegou de surpresa. Era com o se algo dentro de m im tivesse dado um giro de cento e oitenta graus e de repente tudo tivesse entrado no lugar certo."

Helm ut, que logo obteve aulas num a universidade próxim a, adotou com o seu um dos côm odos do apartam ento, a sala de j antar. Por ser esse o m elhor côm odo da casa, j á que contava com m ais luz e ventilação, rapidam ente a sala tornou-se seu escritório.

Para Helm ut, a situação era bastante satisfatória. Através das portas envidraçadas da sala, ele podia observar todas as atividades e o curso de vida de sua pequena fam ília. Caroly n sem pre garantia que as crianças brincassem em silêncio quando Helm ut estava em casa. "Psiu, papai está trabalhando", era o que os filhos ouviam dia após dia desde bem pequenos. Aquele arranj o era inconveniente em alguns aspectos, porém Caroly n o considerava um preço insignificante a pagar em troca do resto do grande e desorganizado apartam ento de Brooklin Heights. Exceto, é claro, quando Helmut saía do escritório, apossando-se de todo o apartamento.

Era um a daquelas pequenas cotas de realidade desagradável que tão freqüentem ente preferim os ignorar: Caroly n não tinha nada de verdadeiram ente seu. Tudo o que eles possuíam era de Helm ut. O cachorro era de Helm ut; no contrato do apartam ento, era Helm ut quem figurava com o inquilino; a com ida sobre a m esa, até m esm o o veículo de fuga a tudo isso (o talão m ensal de bilhetes do trem para New Haven, onde ele lecionava) — tudo era de Helm ut. Na época em que afinal com preendeu isso, Caroly n beirava os trinta. Acordou certa m anhã (assim lhe pareceu, com o se tivesse acabado de despertar) para o fato de que Helm ut era um "eu tenho", e ela, que durante toda a infância sem pre "tivera" e fizera por ter coisas, de algum m odo fora rebaixada à hum ilhante posição de "eu não tenho". Bastava Helm ut pigarrear por trás das portas de vidro de seu escritório e a fam ília autom aticam ente passava a cam inhar na ponta dos pés e a sussurrar. As crianças brigavam (interm inavelm ente, parecia-lhe), e lá vinha ela voando da cozinha para aquietá-las. Quando um a das crianças estava doente e a outra não, ela contratava um a paj em para levar a que não estava doente à escola, pois Helm ut j am ais a auxiliava nessas "coisas triviais". Nos dois dias da sem ana que passava em casa, ele escrevia — e só, independentemente do que ocorria à sua volta. Lá pelo fim de cada inverno, época em que os vírus j á tinham feito sua visita à casa, Helm ut reclam ava incessantem ente do dinheiro gasto com paj ens. Estavam em 1978; Helm ut lecionava em um a das universidades de m aior prestígio do nordeste am ericano. Foi nessa época que a adm inistração dessa universidade teve que se curvar às exigências de m udanças feitas pelas estudantes, inconform adas com a discrim inação na educação. No entanto, na casa de Helm ut nada se m odificou: ele, Helm ut, era o astro brilhante da constelação fam iliar. Caroly n não passava de um satélite. O caso é que assim oito anos se passaram . A ópera assum ira contornos vagos na im aginação de Caroly n: ofuscante dem ais para ser visualizada com clareza ou em detalhes, e fugaz dem ais para em ergir em sua consciência por m ais de um m om ento. Era coisa do passado, coisa de um a m enina cheia de sonhos e sem percepção do m undo real. Um a m enina com a idéia louca e infantil de que a vida poderia ser vivida no centro de um palco. Caroly n j á não era m ais um a cantora. Estava m agra e tensa, seus cabelos haviam perdido o volum e. A pele aveludada da infância com eçara a perder o viço. "Mas, querida!", exclam ava a m ãe pelo interurbano quando Caroly n tentava desabafar com ela. "Eu não com preendo. Helm ut está indo tão bem ! Professor adj unto nessa idade não é de se desprezar, hein? Em breve vocês terão m ais dinheiro e as coisas ficarão m ais fáceis." Caroly n não podia dizer à m ãe que dinheiro não era a solução. Não achava as palavras para explicar que j á não era nem m enina nem m ulher; que, vivendo no lim bo atem poral do servir a outro, era apenas um a criatura inteiram ente sem autonom ia. Aquilo com que sonhava — m as som ente durante o sono — era a possibilidade de estar no controle. Sonhava que era um a cirurgiã, a quem a equipe de assistentes respondia tão destram ente que lhe bastava pedir com os olhos os instrum entos operatórios.