Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 41 de 60

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Complexo de Cinderela

Cenas de um casamento

Os detalhes do que acontecera durante o período no qual os Boroffs viveram do auxílio-desem prego nunca tinham sido totalm ente esclarecidos; um a coisa, porém , era óbvia: se alguém devia ser m andado para a prisão, não era Madeleine. Madeleine Boroff era um a boa m ulher. Atravessando agruras que teriam derrubado a m aioria das esposas, ela conseguira fazer das quatro crianças adolescentes relativam ente tranqüilos. Aos quarenta anos ela ainda era atraente, esguia e cheia de esperanças. Dera dem ais de si aos outros. Será que agora ela não deveria ter a chance de viver feliz?

Diversas sem anas após o alarm a inicial, Madeleine constatou com tristeza ter previsto corretam ente o futuro. "Você não vai acreditar", disse à am iga, "m as fui condenada. Vinte e um dias na penitenciária de Hartford. Manny j á cum priu sua pena. Ele pegou só duas sem anas." Deu um a risada engasgada. "Acho que o j uiz achou que tenho m ais tem po livre que Manny." Naturalm ente, descobriu-se que o j uiz não havia se preocupado em saber quem tinha m ais tem po livre. O j uiz apenas se ocupara com a prova de fraude, e concluíra que a Madeleine cabia a m aior culpa. Sim , ela era m ais culpada que o m arido. Fora ela, afinal de contas, quem assinara o form ulário do auxílio-desem prego em Massachusetts, quando eles j á constavam da lista de beneficiados segurados em Connecticut.

Inicialm ente, não foi fácil às am igas de Madeleine com preenderem a sentença. A idéia de um a m ulher que se conhece ser forçada a deixar os filhos e ir para a prisão era tão pavorosa que escapava a qualquer princípio de j ustiça conhecido. A velha idéia da santidade da m aternidade m ais um a vez vinha nublar o quadro circunstancial e im plicava um padrão duplo de ética. Aborrecidas com o fato de Madeleine ter que "suportar" m ais um a inj ustiça, suas am igas negligenciaram com pletam ente as questões relevantes. No que de fato consistira a vida de Madeleine até então? Durante todos aqueles anos, será que ela realm ente se devotara aos filhos, ao m arido e a si m esm a? Ou sim plesm ente fora m ovida pelo desespero, obcecada pela insegurança?

 

Cenas de um casamento

 

Vários anos antes de ser despedido de seu últim o em prego, Manny Boroff se m udara com a fam ília do apartam ento em Springfield, Massachusetts, para um a grande e velha casa em Thom psonville, um a cidadezinha à m argem do rio Connecticut. Havia um ano Manny era o contador-chefe de um dos bancos m ais respeitados de Massachusetts, e recebia um salário tão alto que resolvera tirar a fam ília de Springfield e aloj á-la num a casa incrível — um pouco dilapidada, m as encantadora.

Corroborando seu estilo de vida até então, Manny logo se viu novam ente sem em prego. Os em pregadores inicialm ente se im pressionavam com a esperteza e a boa aparência de Manny, m as logo se desapontavam com sua incapacidade de corresponder a suas responsabilidades. Ele era o tipo de pessoa que, no princípio, se excedia no cum prim ento do dever. Aí, tendo m arcado condignam ente sua presença, punha tudo a perder, faltando arrogantem ente a com prom issos, atrasando-se para o trabalho e, finalm ente, quando repreendido, m entindo para acobertar suas falhas. Era o fato de ser pego num a m entira — ou num a série de m entiras — que o encrencava. Porém , ao relatar o caso a Madeleine, ele sem pre j ogava a culpa sobre "eles", desenvolvendo form as cada vez m ais sutis de alinhá-la a seu lado contra em pregadores insensíveis e retardados. Dessa vez, todavia, as coisas pareceram diferentes a Madeleine. Com o passar dos m eses na casa de Thom psonville, um a rotina com gosto de segurança se estabeleceu. Manny se fechava no escritório do terceiro andar da casa, trabalhando, dizia, num rom ance. Madeleine se encheu de esperanças. Para suplem entar os pagam entos, ela vendia pão feito em casa e trabalhava com o paj em . Era um a vida nova e, em alguns aspectos, revigorante. Com Manny em casa, era divertido planej ar, esquem atizar e preparar a horta há m uito sonhada. Todas as m anhãs Manny acordava cedo, assobiando, e ocupava-se dos consertos da casa. As tardes, ele as passava no terceiro andar, escrevendo o rom ance. Por um ano tudo se cobriu de um a aparência peculiarm ente idílica. Quem não gostaria de um a vida de j ardinagem e ficção no exuberante vale do rio Connecticut? Contudo, após cinqüenta e seis sem anas, o fundo de garantia dele se esvaiu por com pleto e o orçam ento dos Boroffs repentinam ente quebrou. Resolutam ente, Manny procurou a Previdência de Connecticut. Procurar um em prego, isso ele não fez. Apenas escrevia (ou ao m enos tentava), e Madeleine o encoraj ava. Trabalhar em contabilidade sem pre frustrara Manny e o fizera beber dem ais. Toda a vida ele desej ara ser escritor, queria-o desesperadam ente. Madeleine punha fé na m udança que o m arido estava aparentem ente tentando levar a cabo. Esperava que essa m udança trouxesse um a existência m ais estável a todos. Ela baj ulava, analisava, "apoiava" o m arido — no m ínim o tão interessada na própria segurança quanto na dele. À m edida que os m eses passavam tornava-se cada vez m ais difícil viver dos m íseros, em bora constantes, cheques da Previdência. A hipoteca da casa dos Boroffs custava trezentos e cinqüenta dólares por m ês, e todos tinham de com er. Além disso havia os quatro ou cinco garrafões de vinho que de algum m odo eles conseguiam consum ir cada sem ana (apesar de Madeleine adm itir ser principalm ente Manny quem os consum ia). Então um dia, um as duas sem anas antes da data de execução da hipoteca pelo banco e sem perspectivas de entrada de dinheiro, Madeleine, sem saber o que fazer e acreditando que em um m ês ou dois Manny term inaria o esboço e o capítulo-am ostra do livro e o subm eteria a seu agente, tom ou o ônibus para Springfield e inscreveu-se para o seguro da Previdência de Massachusetts. Com o prova de residência, ela apresentou o recibo de aluguel do velho apartam ento de Springfield. Que sorte terem -no m antido, sublocando-o!

Foi espantosam ente fácil. Bem , se não exatam ente fácil, tam bém nem tão difícil quanto se poderia im aginar. Os cheques seriam enviados a seu endereço em Springfield. Para acelerar o processo, ela declarou ter sido abandonada pelo m arido. O sistem a sem pre se com padece m ais de m ulheres abandonadas com filhos. Além do m ais, Manny a convencera de que ele j á estava cheio de ter que apresentar-se quase m ensalm ente naquelas audiências da Previdência de Connecticut para garantir a prorrogação do auxílio. Seria o cúm ulo se ele tivesse que fazer a m esm a coisa em Springfield. Madeleine então concordara que era sua vez de passar pela "chateação da Previdência". Era um passo perigoso a dar, m as não tão assustador quanto enfrentar os tem ores e a baixa auto-estim a que a vinham corroendo um bocadinho m ais a cada ano. Cegam ente dedicada a Manny, Madeleine estava tam bém cega quanto à sua própria dependência — sua necessidade de perm anecer am algam ada com o m arido, num a relação de tanta proxim idade quanto a da m ãe canguru com seu filhote. O interior da bolsa podia até ser sufocante, não fazia diferença. Mais do que tudo, Madeleine tinha terror de ficar só. Para evitar isso, ela faria qualquer coisa — inclusive roubar o governo, se necessário (em bora, na época, nenhum dos dois visualizasse aquele ato com o um "roubo"). É irônica a eficiência em presarial com que Madeleine m ontou o esquem a do duplo auxílio. Providenciou para que seus sublocatários em Massachusetts enviassem os pagam entos para seu endereço em Connecticut. Aí ela sim plesm ente descontava os cheques em algum lugar — qualquer lugar, exceto em seu banco em Thom psonville onde costum ava depositar os cheques da Previdência de Connecticut.

Ver-se face a face com a realidade suscita um a sensação estranha do tipo "com o é que isto foi acontecer com igo?" naqueles que, intim am ente, não se sentem de fato adultos. Para Madeleine, ser pega foi duplam ente irônico. Quando as duas seções da Previdência descobriram a fraude, Madeleine havia finalm ente reunido coragem para se libertar. Apesar das crianças. Apesar de seu m edo de que Manny desm oronasse sem ela. Ela estava desej ando fazer algo por si m esm a, ainda que isso significasse abandoná-lo. Aqui vem os um dos truques da personalidade dependente: acreditar que se é responsável por "cuidar" de um a outra pessoa. Madeleine sem pre se sentira m ais responsável pela sobrevivência de Manny do que pela sua própria. Enquanto se concentrava em Manny — na passividade, na indecisão, no alcoolism o dele —, ela focalizava todas as suas energias im aginando soluções para ele, ou para "eles", sem nunca olhar para dentro de si m esm a. Por isso Madeleine levara vinte e dois anos para com preender que, se as coisas continuassem com o sem pre tinham sido, ela acabaria perdendo. Perdendo por j am ais ter vivido um a vida, realm ente.

Afinal ela reconheceu isso e deu o passo definitivo para rom per — não som ente com Manny, m as com todo o seu estilo de vida dependente. Pôs a velha casa, que tanto adorava, à venda, pagou as dívidas (o j uiz perm itira que cum prisse sua pena nos fins de sem ana) e m udou-se com os filhos para Seattle. Lá ela arranj ou um em prego num a com panhia de seguros, m atriculou-se num curso noturno e passou a despender toda a sua energia na reconstrução — ou, m elhor dizendo, na construção — de um a vida autônom a. Desde os dezoito até os quarenta anos — período no qual as pessoas teoricam ente devem traçar o próprio cam inho, crescer e experim entar o m undo —, Madeleine Boroff estivera m arcando passo, fingindo a si m esm a que a vida não era o que era, que logo o m arido daria um a arrem etida certeira para o futuro, e que um dia ela se libertaria para fruir sua vida interior pacífica e criativam ente.

Durante vinte e dois anos ela fora incapaz de defrontar-se com o significado im plícito da m entira de sua existência, e assim , sem intenção m aldosa, m as am edrontada dem ais para viver autenticam ente, dera as costas à verdade.

A história de Madeleine pode parecer trágica em seus detalhes superficiais, m as, na dinâm ica fundam ental, não é tão incom um . A aceitação incondicional que ela exibia, a aparente incapacidade de se desligar, ou m esm o de pensar em se desligar, de um relacionam ento que a exauria totalm ente — são sinais de desam paro característicos de m ulheres psicologicam ente dependentes. Para elas, o casam ento funciona com o um agente reforçador. Em vez de fortalecer a personalidade da m ulher, debilita-a. Em vez de propiciar autoconfiança, conduz à dúvida quanto ao próprio valor. Em vez de prom over experiências pelas quais as m ulheres possam crescer e desenvolver recursos individuais, m uito com um ente o casam ento acaba fom entando o efeito contrário: reforça sua dependência e rem ove o que nelas há de autônom o, deixando-lhes apenas um vestígio da alegria e da força que ao m enos aparentavam possuir antes de "m ergulharem " no m atrim ônio.

Jessie Bernard, um a socióloga da Pennsy lvania State University, nota em seu livro The future of m arriage (O futuro do casam ento) que: "Mulheres que, anteriorm ente ao casam ento, cuidavam bastante bem de si m esm as tornam -se indefesas depois de uns quinze ou vinte anos". Ela narra a história de um a m ulher que gerenciava um a agência de turism o antes de casar-se, m as que, ao enviuvar, aos cinqüenta e cinco anos, viu-se na penosa realidade de não m ais saber com o tirar um passaporte e ter que perguntar aos am igos com o fazê-lo! "As m eninas são criadas para aceitar sua condição de seres naturalm ente dependentes, com direito a encostar-se nos hom ens, seres m ais fortes do que elas; casam -se, pois, totalm ente confiantes em que essas expectativas serão satisfeitas", observa a Dra. Bernard.

O correlato dessa fantasia, obviam ente, é que os hom ens farão às vezes de pais: fortes, inabaláveis, dispostos e capazes de proteger e prestar socorro. Segundo o m ito fam iliar, às m ulheres reserva-se o papel de criar e educar; no entanto, esse m ito não leva em conta o outro lado do quadro concreto: as m ulheres buscam nos hom ens o m esm o tipo de proteção, apoio e encoraj am ento que os filhos esperam dos pais. Após o m atrim ônio, a decepção visita as m ulheres; seus m aridos, descobrem elas, estão longe de ser os super-hom ens im aginados durante o nam oro. Os hom ens são tão vulneráveis com o qualquer pessoa e, na tentativa de alcançarem a realização pessoal, têm que se debater com suas próprias inseguranças. Na data dessa descoberta, diz Bernard, algum as m ulheres agem com o crianças "que vêm a perceber que os pais não são realm ente oniscientes". Ficam desapontadas e enraivecidas.

Depois de algum tem po de casada, Madeleine Boroff deu-se conta de que seu j ovem e charm oso m arido não era nada do que ela im aginara. Em vez de constituir-se num a fortaleza, ele buscava forças nela — e na fam ília inteira. Eles eram a arm adura com que ele esperava disfarçar sua falta de confiança. Aquelas m aneiras francas e teim osas que ele apresentava ao falar, aquele ostensivo desdém às convenções nada representavam além de tím idas tentativas de ganhar estim a em face de seus repetidos fracassos. Qualquer pessoa que olhasse para Manny Boroff veria essas coisas, exceto Madeleine. Ela era cúm plice do m arido na fantasia de que ele detinha o poder no lar. "Algum as m ulheres exercem controle sendo dependentes", diz a terapeuta Mareia Perlstein, "alim entando no hom em a im pressão de ser ele quem dita as ordens." Isso é freqüente em relacionam entos onde o hom em tem problem as de auto-estim a. "A m aneira de ele se sentir im portante no m undo é tornar-se im portante para alguém ", prossegue Perlstein. "Ocupando a posição de 'pequenez' esperada, e controlando cuidadosam ente a situação, para que esta perm aneça equilibrada, a m ulher consegue m anter am bos sim bioticam ente unidos e 'felizes'."