Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 35 de 60

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Complexo de Cinderela

"Por que tudo é tão mais fácil para os homens?"

Quando a conheci, Vivian Knowlton, um a j ovem advogada, estava aprisionada num círculo vicioso de invej a que a m antinha ignorante dos conflitos que a "am arravam ".

"Fico atônita frente a tudo o que está acontecendo em m inha vida agora", disse-m e Vivian. (Com o fiz com outras m ulheres citadas neste livro, o nom e e certos detalhes identificadores aqui foram trocados.) Estávam os sentadas na sala de estar de sua bela casa em Berkeley, Califórnia. "Ganho um bom salário e aprecio o trabalho j urídico. O problem a é que não m e sinto bem . Saio para o trabalho todos os dias com um a espécie de nuvem de ansiedade pairando sobre m inha cabeça.

"Há três anos, quando com ecei a trabalhar", recorda, "acordava todas as m anhãs cheia de vida. Saía toda feliz, praticam ente saltitando até o ponto de ônibus. "As coisas com eçaram a perder a graça após cerca de um ano. Achava que estava indo bem no serviço, m as, vej o agora, isso acontecia principalm ente porque eu era boa em aceitar incum bências e fazer o que m e m andavam fazer. Não passava de um a ingênua prestativa. Sem pre que algum trabalho chato precisava ser feito, acabava em m inhas m ãos." Vivian raram ente se m ostrava assertiva frente aos donos do escritório de advocacia em que trabalhava, dizendo a si m esm a estar apenas iniciando e que aquela era um a experiência de aprendizagem . (Quem era ela para desafiar pessoas que praticavam a advocacia havia vinte anos ou m ais?) Durante o segundo ano, ela passou a adm itir não estar trabalhando segundo o nível de sua capacidade. "Nas reuniões eu m e fechava com o um caram uj o, tím ida dem ais para expressar m inhas idéias. Se, porém , algum a outra pessoa precisasse de apoio, m inha oratória se tornava espantosa."

As coisas se arrastaram por m ais três anos. Vivian nunca chegou a ser reprovada, m as tam bém j am ais recebeu um elogio. "Eu m e tornara um a pessoa nota 5, e estava acostum ada a ser nota 10. Aquilo m e entristecia. Onde estava a m ulher inteligente e integrada que fora um a das prim eiras da turm a na faculdade?" Havia outra m ulher no escritório, em pregada lá há bem m ais tem po. "Natalie era extrem am ente segura de si. E que tentação a de enquadrar-m e em seu estilo! Surpreendia-m e inclusive im itando sua voz rouca. Era um a loucura! Tinha a sensação de haver perdido todo o senso de quem eu era, e ficava m e agarrando a pequenos trej eitos e m aneirism os de outra pessoa só para seguir em frente."

 

"Por que tudo é tão mais fácil para os homens?"

Vivian era am bivalente em relação aos dois j ovens advogados contratados m ais ou m enos à m esm a época em que fora em pregada. "Paul e Hurf com eçaram a abrir cam inho para si próprios desde o início. Paul pôs-se a pesquisar coisas com que nossa firm a j am ais se envolvera antes. Isso não o atrapalhava. Sim plesm ente m eteu-se na coisa, aprendeu e então convenceu a Hodgkins e Pearl, os chefes, que tínham os de expandir a área de nossa atuação." A disposição de Paul em tom ar iniciativas incom odava Vivian. "Ele parece visualizar o escritório com o um a base de operações para suas arrem etidas individuais dentro do m undo dos negócios", disse am argam ente. "Tem -se a im pressão de que ele não dá a m ínim a ao escritório, ou m esm o à advocacia, pela form a com o age."

Para Vivian, Hodgkins e Pearl tornaram -se o equivalente do Adulto. Sente-se revoltada em relação a seus em pregadores e, ao m esm o tem po, invej a Paul, que não precisa se rebelar, que é suficientem ente independente para conseguir enfrentar cara a cara "o escritório". Não intim idado pelos "patrões", Paul é bem m ais inovador e obj etivo que Vivian, e, por conseguinte, m uito m ais valioso à firm a.

Hurf não é tão im petuosam ente agressivo quanto Paul, m as tam bém assum e o tipo de riscos pessoais que encheriam Vivian de pânico. "O negócio de Hurf é j ulgam entos em tribunais", prossegue ela em sua narrativa. "Em geral eles não deixam um a pessoa inexperiente representar a firm a num tribunal, m as Hurf os pressionou. Tanto pediu para ser m andado que, após algum tem po, senti-m e envergonhada por ele."

Não é incom um às m ulheres sentirem que os hom ens com quem trabalham são "insensíveis" e "pressionadores". No entanto, Vivian notava que todo m undo parecia apreciar a agressividade profissional de seus colegas. "Toda vez que Hurf se aproxim ava dos chefes, ele dispunha de um a razão m elhor para receber o encargo que desej ava. Finalm ente ele abriu o j ogo num a reunião." Hurf fez o que m uitas m ulheres, no início de um a carreira, consideram um a enorm e tem eridade. Arriscando-se a enfrentar discordâncias ou, Deus nos livre!, rej eições, Hurf levantou-se perante todos na reunião bissem anal de Hodgkins e Pearl e "vendeu seu peixe". "Tenho condições ótim as para lidar com o caso Wilkinson", anunciou. Continuou contando com o seu cunhado era m aníaco-depressivo e com o ele m esm o estava fam iliarizado com os fatores bioquím icos da doença, bem com o com os precedentes, em term os de direitos civis, em casos relativos a surtos psicóticos. Após revelar sua experiência pessoal, expressou a certeza de que Hodgkins e Pearl econom izariam dinheiro se lhe perm itissem representar Wilkinson no tribunal.

"Não posso tirar o m érito de Hurf", Vivian m e disse. "Ele sozinho é o responsável por ter obtido um em prego e por seu êxito no tribunal. Ele foi perfeitam ente franco sobre o que estava fazendo. Ainda assim , quando coisas desse tipo acontecem , pergunto-m e por que não estou progredindo. Continuo com a sensação de que, de algum m odo, estou sendo negligenciada.