Complexo de Cinderela
O desmoronar da falsa autonomia
Esse estado de coisas vem -se anunciando há m uito tem po, sub-repticiam ente, sim , tal qual, os fatores prim eiros de precipitação de um a erupção vulcânica. As transform ações sociais não ocorrem da noite para o dia. O "papel" da m ulher estava em processo de m udança m uito antes que se propusesse um nom e à libertação das m ulheres. O fato de que as coisas para nós não eram m ais tranqüilas, de que o futuro à nossa frente agora se m ostrava nebuloso, deve ter-nos assustado. Um a sensação pouco nítida, m as certam ente presente enquanto crescíam os. Algo estava acontecendo, m as nem nós nem nossos pais sabíam os do que se tratava. Inadvertidam ente, a m aioria dos pais das décadas de 40 e 50 falharam na educação das filhas, pois não podiam prever para que as preparavam . Obviam ente não era para a independência. Com o m uitas m eninas, na época de m eu ingresso no colégio eu j á construíra um a espécie de m áscara dissim uladora — o que um psiquiatra rapidam ente reconheceria com o sendo um a "m edida contrafóbica": a concha que disfarça o m edo e a insegurança. Algum a coisa estava sabotando m inha auto-confiança, originando profunda confusão com relação ao que eu era, ao que pretendia fazer de m inha vida, e ao que significava ser m ulher. Naturalm ente nada disso foi percebido. Eu era insolente com os professores e sarcástica com os rapazes. Na faculdade, aprendi a argum entar com sofisticação e a debater. Anos depois, com o surgim ento do Movim ento de Desenvolvim ento Hum ano, tornei-m e a estrela de m eu grupo: durona, provocadora, consciente de m inha "honestidade". Um negro do nosso grupo, um hom em que crescera nas ruas e passara dezessete anos na cadeia por diversos crim es, disse-m e que até ele m e tem ia durante as sessões de nosso grupo de encontro. Ah, que poder; que autonom ia excitante! Quando essa "autonom ia" com eçou a desm oronar, as pessoas que m e conheciam se espantaram . "Mas você sem pre foi tão forte", com entavam , "tão integrada!" Com o fim de m eu casam ento veio a fobia — m al conseguia cam inhar pelas ruas tais eram os ataques de ansiedade e vertigens. A súbita transform ação de m inha velha (aparente) força novam ente m e deixou confusa. Então eu não era durona? Então eu não era "integrada"? Pois eu não havia m antido m inha fam ília intata, praticam ente sem a participação de m eu m arido, durante anos? Revendo tudo agora, parece-m e claro sem pre terem existido sinais de um a potencialm ente devastadora falta de congruência entre m eu "eu" interno e m eu "eu" externo. O "eu" externo era "forte" e "independente" (especialm ente se com parado com as expectativas sociais de com o as m ulheres deveriam ser). O "eu" interno era um m ar de dúvidas e auto-acusações. Houve um episódio peculiar em m eus tem pos de faculdade, algo que logo tratei de "esquecer". Um dom ingo, durante a m issa, senti-m e de repente com pelida a fugir da capela. A pom pa, o incenso e a form alidade do ritual provocaram -m e suor, grande ansiedade e náuseas: m eu prim eiro "ataque de pânico". O que estava acontecendo com igo?, perguntei-m e, agarrando-m e ao banco à m inha frente, para não cair, inundada por ondas de tontura.