Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 24 de 60

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Complexo de Cinderela

Capítulo IV

O desamparo feminino

Todo o m im o e toda a proteção que recebi com o prim ogênita duraram cinco anos. Foi aí que m eus pais m e m atricularam na pequena escola católica do outro lado da linha férrea. Minha vida escolar iniciou-se cedo, em parte porque eu j á sabia ler, o que convenceu a escola Sagrado Nom e de Maria a m e aceitar com tão pouca idade, e em parte devido ao nascim ento de m eu único irm ão. Sentindo-m e confusa e um pouco rej eitada, lá fui eu receber ensinam entos de freiras austeras, m em bros de um a instituição onde j am ais, da prim eira à décim a segunda série, senti-m e à vontade. Eu tinha facilidade para aprender, e em geral m e entediava, enquanto outras crianças precisavam se esforçar m uito, vendo e revendo as m esm as coisas vezes sem conta. Ocasionalm ente m inha rapidez e prontidão m e conduziam à afetação; em geral, porém , faziam -m e sentir-m e peculiar.

Pulei m etade da segunda série e m etade da quinta, entrando na sexta série na São Tom ás de Aquino, um a escola desorganizada dos arredores de Baltim ore. Contava então nove anos de idade. Essa era a escola católica m ais próxim a de onde m orávam os. As crianças lá eram pobres, hostis e, se espertas, não gostavam de m ostrar-se inteligentes. Passei a m aior parte do tem po tentando evitar apanhar ao térm ino do período escolar. Ao fim da oitava série, nossos QI’s foram testados. O diretor da escola, na m elhor tradição antieducacional, anunciou os resultados à turm a. Meu escore foi o m ais alto; desse m om ento em diante, os colegas passaram a m e fitar com o se eu fosse o inim igo — em sum a, um elem ento alienígena. "Ela acha que é m uito inteligente", as m eninas sussurravam entre si às m inhas costas, quando eu passava por elas para ir à lousa resolver equações.

Felizm ente fui m andada para um colégio particular do interior, m uito em bora as m eninas de lá fossem quase tão desinteressadas no aprendizado quanto as da escola anterior. Apesar de ser provocadora e rebelde (conseqüência de nunca m e ter aj ustado a escola algum a), eu era vista com o um a .líder. Fui eleita representante da turm a, editora do livro anualm ente publicado pelas estudantes, e baliza dos desfiles da escola. Logo transpus esse recém -descoberto poder para m inha vida em fam ília, usando-o para com bater m eu pai, que repentinam ente passara a se interessar por m eu desenvolvim ento intelectual. Eu estava sem pre tentando m ostrar-lhe que era inteligente, que sabia coisas, que estava com eçando a pensar. E ele sem pre tentando m e m ostrar que m elhor seria para m im se eu sim plesm ente reconhecesse quão pouco sabia sobre qualquer coisa e aceitasse sua doutrinação. Seu cam po era a ciência — a ciência e a m atem ática. À m edida que crescia nossa disputa, m enor era m inha m otivação para a m atem ática. Quando entrei na faculdade, m inha ansiedade relativa à ciência assum ira tais proporções que quase fui reprovada em quím ica. Por m uitos anos pensei que m eus problem as se originavam de m eu pai. Som ente quando cheguei à casa dos trinta é que com ecei a suspeitar que m eus sentim entos em relação à m inha m ãe eram parte do conflito interno em desenvolvim ento desde tenra idade. Minha m ãe era um a pessoa tranqüila, avessa a gritos e repentes nervosos, sem pre lá, sem pre aguardando que m eu irm ão e eu regressássem os da escola. Matriculou-m e num a escola de balé quando eu era bem pequena, e m ais tarde — até a m etade de m inha adolescência — sutilm ente forçou-m e a estudar piano. Todos os dias ela se sentava a m eu lado e contava os com passos, com a regularidade e a previsibilidade de um m etrônom o. Igualm ente regular era sua sesta vespertina, sua escapadela da realidade do cotidiano. E tam bém era freqüentem ente acom etida de um a variedade crônica de doenças: dores de cabeça, bursite, fadiga.

A nível superficial, aparentem ente nada havia de incom um em sua vida: ela era a típica dona-de-casa da época. No entanto... persistiam aquele esquivar-se, aquelas pequenas m oléstias, das quais m uitas, penso agora (e ela concorda), se relacionavam com um a raiva não expressa. Ela evitava confrontações com m eu pai, levando-nos a crer que estava inteiram ente a seu favor. Quando chegava a tom ar posição em algum assunto, a tensão originada pelo ato era sensível. Ela o tem ia.

Com parado com m inha m ãe, m eu pai aparecia com o um ente m uito grande e m arcante — o pai todo-poderoso com um a voz alta, gestos expansivos, rude e de m aneiras por vezes em baraçosas. Ele era autoritário, professoral; ninguém que o conhecesse podia facilm ente ignorá-lo. Antipatizar, sim ; esse sentim ento podia seguram ente ser causado por ele. Mas era im possível fingir não perceber sua presença. Ela forçosam ente abria cam inho até a consciência daqueles com quem ele entrava em contato; sua personalidade se im punha a todos. Tinha-se a im pressão de que ele devotava atenção àqueles em cuj a com panhia estava; na verdade, em geral as conversas pareciam brotar essencialm ente de algum a necessidade oculta dele m esm o.

Eu o am ava m uito. Adorava sua vivacidade e sua autoconfiança, seu idealism o, sua energia vibrante. Seu laboratório na Faculdade de Engenharia da Johns Hopkins University era calm o; todo aquele equipam ento, grande e frio, m e im pressionava. Ele era o m estre. Falando com outras pessoas, m inha m ãe se referia a ele cham ando-o de "Dr. Hoppm ann". E apresentava-se com o a sra. Hoppm ann. Ao atender o telefone, dizia: "Aqui é a Sra. Hoppm ann", com o se de algum m odo se refugiasse na form alidade da frase e no uso do nom e de m eu pai. Éram os, de fato, um a fam ília bastante form al. No trabalho — que era a sua vida —, m eu pai lidava com giz, núm eros e aço. Em seu laboratório havia m áquinas. Sobre sua m esa havia um peso de papéis m aciço que lhe fora presenteado por alguém do Departam ento de Metalurgia. Era um pedaço de aço prensado, com um a cruz fria e traçada com extrem a precisão bem ao centro. Agradava-m e sentir-lhe o peso em m inha m ão. E m e perguntava com o é que alguém poderia adm irá-lo, pois não era nem belo nem inspirador.

Face à personalidade forte de m eu pai, era aparentem ente difícil para m inha m ãe afirm ar-se com o pessoa. Ela se m antinha quieta e a tudo acedia. Som ente aos sessenta e poucos anos ela, a décim a quarta de dezesseis filhos de um a fam ília de fazendeiros de Nebraska, com eçou — silenciosa e determ inadam ente — a viver a própria vida, quase que à revelia de m eu pai. Com a idade m inha m ãe foi se tornando m ais incisiva e interessante, diversam ente de todo o período de m eu desenvolvim ento; naquela época ela era totalm ente subm issa. A m esm a subm issão que eu via em praticam ente todas as m ulheres que conheci durante m eu crescim ento. O que, em outros term os, consistia num a necessidade de deferência ao hom em que "cuidava" dela, o hom em de quem ela dependia para tudo.

Quando entrei para o curso secundário, com ecei a trazer m inhas idéias da escola para casa — não para m inha m ãe, m as para m eu pai. Sentados à m esa do j antar, ele dissecava tais idéias com desprezo passional. Depois prosseguia um pouco sobre o ponto em questão, entrava em digressões — abstrações que pouco tinham a ver com igo —, m as sem pre infundindo grande energia à conversa. Sua energia tornava-se m inha própria energia — era o que eu pensava. Meu pai considerava seu dever (atribuído por Deus) assinalar-m e a direção da verdade — especificam ente falando, corrigir as atitudes errôneas que m e eram im pingidas pelos "intelectuais de terceira categoria", isto é, m eus professores. Seu papel de professor fascinava-o bem m ais, penso agora, do que seu senso de obrigação para com o desenvolvim ento de m inha aprendizagem . Com a idade de doze ou treze anos com ecei a perseguir aquilo que iria ser um a das am bições de toda a m inha vida: fazer m eu pai calar a boca. A dependência que tínham os era m útua e peculiar: eu queria a atenção dele; ele queria a minha. Ele acreditava que, se eu sim plesm ente m e dispusesse a ouvi-lo com penetradam ente, ele poderia m e entregar nas m ãos o m undo, por inteiro e sem falhas, com o um a pêra descascada em um a bandej a de prata. Eu não desej ava ouvi-lo com penetradam ente, e não queria um a pêra descascada. Eu desej ava descobrir a vida por m im m esm a, por m eus próprios m eios, tropeçando sobre ela, com o um a surpresa — eu queria a m açã rubra, ainda que disform e, que cai de um a árvore não podada.

Quando eu m e queixava a m eu pai a respeito de seus m étodos de argum entação e de sua aparente necessidade de ter a razão acim a de tudo o m ais, ele ria e dizia que m inha percepção dele era falsa. Apenas sim ulávam os um j ogo de esgrim a, explicava ele, o que era um a excelente form a de "afiar" m eu espírito. O fato de eu m e envolver no j ogo, dizia, apenas confirm ava seu respeito básico à m inha capacidade de "absorção".

As m ensagens que com ecei a receber de m eu pai a partir da idade de doze anos m e confundiam . Eu acreditava que m eu pai estava m e treinando para batalhar no m undo tum ultuado e abrasivo dos adultos e das idéias. (Ele não afirm ava ser isso o que estava fazendo?) Entretanto, ele parecia estar pessoalm ente interessado nesse ganhar ou perder. Mesm o naquela época, eu j á com eçava a perceber que havia pouca relação entre com bate e persuasão. Quando com ecei a escrever — isso foi na casa dos vinte —, não m e dei conta de estar adentrando um cam po com pletam ente oposto ao do m eu pai. Com ecei escrevendo sobre aquilo que classificava com o "coisinhas”: relatos curtos sobre estados de espírito, artigos ditados pelo subj etivism o — nada m uito tem erário, pensava eu. Certam ente nada que requeresse um Pensar Real. O Pensar Real era para hom ens. O Pensar Real era para professores, pais, padres. Afora algum as contendas verbais extenuantes com alguns dos professores da faculdade, adquiri pouca experiência no aprendizado do desenvolvim ento de um a posição racional — fosse em relação ao que fosse. Ainda na faculdade, eu m ais com petia do que produzia qualquer pensam ento independente. Am edrontava-m e m uito o tipo de desenvolvim ento m ental e em ocional originado no isolam ento, quando enfrentam os a nós m esm os. Tanto que levei quase vinte anos para m e entregar a ele. Eu tentava clarificar, obj etivar as coisas, e m inha posição quanto a elas diferenciava-m e de algum Outro forte e poderoso — hom em ou m ulher, quem quer que fosse, sobre quem eu pudesse proj etar a im agem interiorizada de m eu pai. Desnecessário dizer que essa "obj etivação" tinha vida curta. Eu m e distanciava do Outro com o um elástico esticado, "curtia" m inha diferenciação por um breve m om ento e depois entregava-m e novam ente, assim que a tensão da separação se tornava insuportavelm ente opressiva.