Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 50 de 60

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Complexo de Cinderela

O caso de Sulka

É um a pena que, à beira do autoconhecim ento, as m ulheres tão freqüentem ente pareçam necessitar de algo catastrófico que as arrem esse para o confronto inescapável com a verdade. Após aquela tarde na qual Adrian se revelou tanto — m as, infelizm ente, não o suficiente — não pude deixar de pensar que, a essa altura de sua vida, far-lhe-ia bem conhecer alguém com o Sulka Bliss.

 

O caso de Sulka

 

Conheci Sulka (cuj o nom e tam bém foi m udado) no Centro de Esposas Desativadas de Oakland, Califórnia Esse lugar lem bra as duras privações de um cam po de trabalhos forçados. Centro de Esposas Desativadas. Bem poderia ser o escritório de algum pequeno partido político que j am ais conseguirá votos substanciais. Um as m esas baratas, cadeiras um tanto desconj untadas, latas de café solúvel, inúm eras xícaras de plástico e cestos de papel de m etal verde decoram o lugar. As m ulheres que trabalham ali são voluntárias, elas m esm as esposas desativadas torcendo para que "o Partido" consiga integrá-las de novo. Muitas delas, quando casadas, levavam vidas confortáveis em dem asia. Quando seus casam entos se desfizeram , o m undo à sua volta tam bém desm oronou. Ali, pelo m enos, há ordem — um a m esa, um telefone, vozes com que preencher os espaços vazios. Ali há trabalho para ser feito, em favor de outras m enos afortunadas do que elas: m ulheres que acabaram de levar o fora e desconhecem o que lhes aconteceu. Mulheres com olhos verm elhos e inchados de chorar e unhas roídas. Mulheres que se levantam da cam a j á com um cigarro aceso e adorm ecem à base de Valium m isturado com vodca. Sulka Bliss ainda não se entregara à rotina das pílulas com álcool, porém , quando nos conhecem os, ela certam ente estava m uito deprim ida. "Não sei fazer m ais nada, exceto tom ar conta de filhos", disse-m e. "Duvido até que consiga bater trinta palavras por m inuto."

Sem prática (e claram ente sem auto-estim a), Sulka tinha um a coisa a seu favor, da qual a m aioria dos em pregadores talvez nunca tivesse ouvido falar, no m ínim o porque poucos deles dem onstram algum interesse por potencial: no curso colegial, verificara-se que Sulka Bliss tinha um QI de 135. "Naquela época, quando recebem os os resultados dos testes, fiquei surpresa", contou. "Eu disse a m im m esm a: 'Acho que vou ser cientista'. Eu sem pre fora ótim a em m atem ática, m as naquele tem po as m eninas não eram criadas para serem cientistas, e m eu irm ão ficava m e gozando por causa disso. Mesm o m inha m ãe achava que eu estava esnobando quando dizia que queria tornar-m e um a cientista."

Depois do colegial, Sulka fez um curso de dois anos num a faculdade e em seguida casou-se.

O tem po dera cabo das am bições de Sulka. Muito tem po atrás, tanto que ela m al conseguia recordar-se com precisão da época, ela fora um a j ovem m agra, ativa e enérgica. Mas a cada gravidez engordava m ais. Atualm ente, veste-se com largas túnicas e cáftans de algodão tingidos com batique. Envergonhada de sua gordura, Sulka cuida bastante dos dem ais itens de sua aparência; o resto, contudo, não m ais lhe im porta. Os gerânios de seu j ardim m orreram . O j ardim m orreu. Os sulcos entre os tij olos que cobrem as paredes externas de sua casa pedem m ais argam assa. A tinta sob o beiral do telhado com eçou a desbotar e descascar. Incrível, pensa Sulka, com o um a casa pôde com eçar a cair aos pedaços em m enos de um ano.

Fazia quase um ano que Dick partira. Ele não fora em bora por ela ter engordado (com o às vezes ela gostava de crer). Não, aquele hom em estivera com um pé fora de casa desde que obtivera seu doutorado em biologia m olecular — um título que, de certo m odo, Sulka lhe dera, trabalhando para sustentá-lo enquanto ele progredia triunfalm ente na carreira acadêm ica. Além de trabalhar em período integral com o secretária, fazia serviços de datilografia nos fins de sem ana.

Evitara filhos até que Dick se estabilizasse financeiram ente. "Pode parar agora", ele lhe dissera, quando, num m esm o m ês, recebeu o grau de doutor e um a oferta de em prego no Califórnia Institute of Technology. Logo Dick estava instalado num a sala do CIT com j anelas altas, escrivaninha de carvalho, lousa, alunos e um laboratório sustentado por subvenções governam entais. Sulka deixara o em prego com um grande suspiro de alívio e contentam ento. Agora poderia plantar seus gerânios. Agora, sem dúvida, poderia engravidar. Sulka lim pou, lavou e cantou durante um ano, apren¬deu a fazer pão em casa e, na prim avera de 1965, deu à luz o prim eiro bebê, um a m enina. Ela e Elsie viviam j untas num a casa ensolarada, e eram tão próxim as que quase constituíam um a só pessoa. Havia coisas novas surgindo na vida de Dick, m as daí toda a existência dele com eçara a distanciar-se da dela, tanto quanto a vida dela ia se tornando cada vez m ais apartada da dele. Recebiam am igos várias vezes ao ano, de quando em quando com pareciam a festas do departam ento; essas coisas, todavia, não atraíam m uito o interesse de Sulka. Seu coração estava em casa, no ninho.

Ela teve m ais filhos, e ganhou m ais peso em cada gra¬videz — e nunca conseguia perder esse extra. Por volta de 1970 ela estava m uito redonda e feliz, com três criancinhas alegres que se agarravam a ela com o à vida. Quanto a isso, tudo bem com Sulka. Ela fazia suas próprias roupas (nada do que havia nas loj as lhe cabia) e penteava e trançava o cabelo, longo e reluzente. Aonde quer que fosse — ao superm ercado, à biblioteca, ao cinem a à noite —, levava com ela os filhos. Dick, em geral, não estava presente. Sulka nunca deu m ostras de se im portar com isso. Os cientistas são preocupados e obsessivos. Dick não era diferente deles. Ela tinha o que desej ava. Dick não a incom odava. Aí, no início dos anos 70, tudo se precipitou com repentina intensidade na vida de Dick. Ele e seu grupo de pesquisadores estavam envolvidos no processo de elaboração de algum grande avanço tecnológico, e freqüentem ente passavam a noite no laboratório, dorm indo apenas algum as horas antes de retornar ao trabalho. Quando Sulka o via, o que era m uito ocasional, seu rosto estava pálido e seus olhos, obscurecidos, com o que para im pedir que o m undo externo o atingisse e interferisse em seus processos de pensam ento. Sulka por vezes im aginava o cérebro do m arido funcionando com o um a m áquina cheia de botões e program ações com plicadas difíceis de m anej ar e, em últim a análise, côm icas. Dick era um a pessoa ativa. Ele trabalhara m uito — m as aonde, Sulka às vezes se perguntava, toda essa atividade iria conduzi-lo? Conduziu-o (bastante subitam ente, foi a im pressão dela m ais tarde) a um novo e m isterioso negócio, no qual todos os tipos de grandes corporações estavam despej ando fundos, algo cham ado ADN recom binatório — era a engenharia genética. "Isso vai ser a salvação da crise de energia", anunciara Dick um a noite, um pouco alto com várias doses de vinho e com os olhos cintilando de entusiasm o. "De fato, será a salvação do futuro!" Sulka recordava a palavra "salvação" porque, à luz de um a visão retrospectiva, tivera a im pressão de ele ter ido em bora na m anhã seguinte à noite em que fizera aquela afirm ação. Será que Dick de algum a form a se identificava com seu trabalho a ponto de ter com eçado a se visualizar com o o salvador? Com o geralm ente fazem as m ulheres prestes a serem abandonadas pelos m aridos, Sulka com eçou a analisar Dick freneticam ente, tentando discrim inar as m otivações dele e vê-lo de m odo frio, "obj etivo". Ela estava passando por um processo de tentativa de obtenção de controle. Era, é claro, tarde dem ais para qualquer coisa. O esfriam ento em ocional — ou, m elhor dizendo, a indiferença — se im plantara havia m uito. Dick não tardou em partir para a conquista de novos m undos: um novo em prego, um novo salário e, inevitavelm ente, um a nova m ulher.

"Im agine só", disse Sulka, chorando, na prim eira vez em que procurou o centro, depois de m uito hesitar — desaprovava o rótulo de "esposa desativada", porém sentia-se no fim da linha e carente da aj uda de alguém . "No m om ento m esm o em que alcança o sucesso ele m e abandona com três crianças para cuidar e quase sem dinheiro para pagar as prestações da casa." Som ente depois de ter recebido um pouco de aconselham ento psicológico é que Sulka pôde com eçar a parar de ver sua vida com o inteiram ente determ inada pelo m arido e, em vez disso, enxergar o papel que desem penhara no que ocorrera. Lentam ente, deu-se conta de que renunciara a si m esm a havia m uito tem po, antes m esm o de ter term inado o curso colegial. Tivera, é claro, m uito reforço nesse sentido por parte dos pais e am igos — inclusive do orientador da escola, que sugerira que seu QI de 135 deveria ser direcionado para algum a "carreira" de cunho secretarial. Enfim , Sulka com pactuara com todo o program a. Acedera a tudo. Havia razões para ela sentir-se tão fraca, inútil e inutilizada; agora com eçava a ver que pelo m enos algum as dessas razões tinham a ver com ela!