Complexo de Cinderela
A "boa vida" da esposa que trabalha fora
Durante alguns anos, até finalm ente sentir-se saturada o bastante para resolver fazer algo à respeito de sua vida, essa atriz contentou-se em invej ar as am igas que, em sua opinião, tinham m ais liberdade que ela. "Um a vez tentei escrever um a peça com um a am iga solteira, m as ela tinha tanto m ais espaço e tem po livre em sua vida, podia dedicar-se tanto m ais que eu a pesquisas e entrevistas, que eu m e sentia tensa e burra a seu lado."
A com paração propagou-se por outras áreas de sua am izade. "Eu invej ava seu corpo esbelto e o tipo de roupas que ela com prava, pois ela ganhava um salário fixo, enquanto eu tinha que esperar que sobrasse algum dinheirinho em nosso orçam ento dom éstico para com prar um par de sapatos. O relacionam ento entre nós foi piorando. Perto daquela m ulher eu m e sentia gorda e desaj eitada, estragada pelos serviços da casa e por ter que constantem ente atender àquelas pestes dos m eus filhos, sem pre m e requisitando quando nos sentávam os para trabalhar em nossa peça. Por fim , com ecei a evitar com pletam ente m inha am iga. Ela entrava em m eu apartam ento — sem pre em desordem , com brinquedos pelo chão e fraldas por lavar — toda arrum ada e entusiasm ada, com a m ente a m il por hora e falando excitadam ente; e tudo o que eu conseguia pensar era que logo teria de preparar o alm oço das crianças. Fico triste ao refletir nisso agora, m as acabei desistindo do proj eto. Cheguei a um ponto em que não tolerava sequer ver aquela coisinha livre e feliz."
As m ulheres pagam um alto preço por sua ansiedade relativa ao sucesso. Matina Horner e seus auxiliares concluíram que m ulheres j ovens e capazes com um ente inibem -se de até m esm o procurar o sucesso. Em situações com petitivas onde estej am presentes pessoas de am bos os sexos, elas apresentam um desem penho m ais pobre do que poderiam apresentar; além do m ais, m uitas que, apesar de tudo, acabam vencendo tentam m ais tarde dim inuir a qualidade de seu desem penho. Essas m ulheres não põem à prova seu próprio poder e m éritos. Confusas e ansiosas, elas preferem baixar suas aspirações profissionais a sentir esse desconforto.
Algum as delas, desviando-se de qualquer coisa que cheire a com petitividade, sabotam totalm ente seu futuro. E o pior é que nem im aginam que suas vidas estão sendo governadas pelo pânico do gênero fem inino.
A "boa vida" da esposa que trabalha fora
Considere, por exem plo, a história de um a m ulher a quem cham arei Adrian Holzer. Do tipo vivaz e m uito ativo, que quase sem pre tivera um em prego, Adrian há m uito se esquecera de suas am bições de adolescente, relegando-as ao "com partim ento de inutilidades" (os sonhos infantis). Agora, por algum a razão, aqueles sonhos estavam de volta, alfinetando-lhe a m ente com o cartas não respondidas. Era um a sensação incôm oda, que a levava a sentir-se deslocada em sua vida, com o se, em algum ponto, ela houvesse tom ado um atalho errado. Precisam ente quando com eçava a achar que as coisas estavam correndo bem e agradavelm ente, algo inesperado brotou dentro dela para m udar sua vida interior. Num a tarde de inverno em que conversávam os e bebíam os vinho, Adrian exteriorizou seus velhos sonhos — e com eçou a perceber que tinha adquirido novos tem ores.
"Não dem orou m uito para que eu voltasse a trabalhar depois de ter tido m eus filhos — uns três ou quatro anos. Mas então a vida j á tinha um sabor diferente do que eu experim entara quando solteira. Eu j á não tinha m ais qualquer sentido de 'futuro', de um futuro só para m im . Sabe com o é, aquele viver dia após dia que toda m ãe conhece. Carreguei para o serviço essa m entalidade do dia-a-dia. Passaram -se dois anos, e eu nem pensara em dizer: 'Ei, e a m inha prom oção?' E então sobreveio a raiva por ter que pedi-la."
Ao trinta e quatro anos, Adrian voltara a trabalhar com o relações-públicas na Fundação Ford, "um em prego de prestígio com um a im agem de prestígio", segundo a descrição dela. "Eu estava recebendo um bom salário, considerando que não precisava dele para m e sustentar. Mas tenho m e sentido de algum m odo, distanciada de tudo. A verdade é que não m e im porto nem um pouco com os interesses da fundação. Sem pre m e contentei, com o m ulher casada e m ãe, com ter um 'bom ' em prego e roupas bonitas. Se o dinheiro m e bastava para ir alm oçar fora com m inhas am igas, com prar um a bolsa de vez em quando... bem , isso j á era liberdade suficiente para m im ."
"Já se passaram quatro anos!", exclam ou subitam ente, enchendo novam ente seu copo. "Quatro daqueles anos que nem se percebem , m as que de qualquer m odo nos levam aos trinta e oito anos de idade."
Esse balanço de vida feito por Adrian é típico da m ulher que rebaixa seu nível de aspirações aos vinte anos e não se dá conta do que está ocorrendo até quase chegar aos quarenta. Agora os alm oços eram entediantes, assim com o o em prego. "Quando paro para pensar nisso, acho tudo um a loucura. Todos na faculdade sem pre tiveram com o certo que eu iria direto para o m estrado. Eu tinha notas m uito boas m esm o. Houve um a época em que pensei em entrar para a diplom acia."
E o que fez em vez disso? Tal com o tantas m ulheres, efetuou um a troca crucial. "Tornei-m e um a esposa. Depois, um a esposa que trabalha fora. Se Gerry m orresse am anhã eu nem sei o que faria. Quando penso nisso — com o seria se eu ficasse sozinha —, fico apavorada. Viúva e ainda fazendo relações públicas para um grande Papai sim pático e não-lucrativo?!" Ela levanta os olhos, assom brada. "Acho que nem conseguiria m anter esse em prego, se não fosse casada!"
Tal percepção paralisou-a. Em que espécie de situação se m etera se não seria capaz de sobreviver com seu salário enquanto m ulher descasada? O quadro com eçou a se delinear m ais claram ente. "Meu m arido m e sustenta, e m eus filhos despedem -se de m im de m anhã, ao saírem para a escola; só assim eu posso vestir m eus vestidos refinados e sair para escrever m inhas notas à im prensa", disse.
O autoconhecim ento com eçava a atingir Adrian Holzer, trazendo consigo a questão que por quase duas décadas ela evitara: "Por que estou fazendo o que estou fazendo?"
Na esteira dessa pergunta vinha um pensam ento ainda m ais perturbador: "E, se não for isto, o que será?"
Eram perguntas que ela j am ais tivera de se fazer. As m ulheres são, elas não fazem . Ainda quando escolhem trabalhar fora, trata-se de algo em segundo plano com parativa-m ente ao ser esposa e m ãe. Esse, pelo m enos, era o m odo com o Adrian e suas am igas sem pre haviam experim entado o ser m ulher. Porém a im inência do quadragésim o aniversário estava m odificando as coisas para Adrian Holzer. Havia nela um a sensação de que algo estava sendo negligenciado. Tarde da noite (aliás, nas horas m ais inesperadas) passeava-lhe pela m ente a m enina-m ulher de vinte anos, aquela criatura entusiástica e esperançosa. Esbelta, com longos cabelos louros e cheia de ideais, a m oça daqueles dias se perdera para Adrian havia vários anos. Agora, repentinam ente, ali estava ela, recusando-se a partir. Com sua aparência, todos aqueles alm oços e j antares, as com pras de roupas para os filhos no Saks... tudo se reduzia apenas a rituais vazios. Pelo am or de Deus! Um am igo de seu m arido, de apenas quarenta e três anos, tivera um enfarte! A vida j á não era m ais atem poral e livre. As coisas tam bém haviam m udado em casa, com os filhos crescendo e Gerry passando tanto tem po em Washington. As pessoas não pareciam m ais precisar m uito dela. Foi-se sentindo cada vez m ais só. E agora as novas questões avolum avam -se: "O que estarei fazendo daqui a cinco anos? Dez anos?" Dez! Dez parecia im possível. Quarenta e nove anos de idade e ainda reunindo o pessoal em casa para fum ar m aconha e ver o Show de Sábado à Noite no grande altar da tecnologia? Quarenta e nove anos e ainda indo à sauna religiosam ente três vezes por sem ana, a fim de tentar livrar-se da celulite, torcendo desesperadam ente para, no próxim o ano, não precisar ir lá quatro vezes em vez de três? Estava cansada de passar o Natal nas Berm udas, cansada de visitar seus parentes em Viney ard durante duas sem anas de agosto de cada ano, cansada da enorm e rotina de tudo. Acim a de tudo, entretanto, ela estava cansada daquele negócio bidim ensional esponj oso que habitava os espaços ocos de seu cérebro. Pensam entos obsessivos. Queixas longínquas e desapontadas. Adrian não gostava de m ulheres insatisfeitas — era o que dizia.
De repente, ela era um a delas.
Havia, é claro, um pano de fundo que conduzira a isso. Se Adrian tivesse se m atriculado na University of Michigan, em vez de na Sm ith, ela bem poderia ter sido um dos prim eiros suj eitos de pesquisa de Matina Horner. Suas aspirações tinham sido postas de lado m uitos anos antes. Em 1964, todavia, no ponto crítico de sua vida, uns seis m eses antes de form ar-se, ela não tinha nenhum a consciência do que estava acontecendo.
Adrian dissera ao nam orado que estava planej ando ir para a Faculdade de Relações Exteriores da Georgetown University. "Relações Exteriores!", ele repetira, horrorizado. "Esses cursos nunca term inam !" Aflito, ele tentara fazer piada. "Fique com igo, garota, e você nunca terá que ser espiã!" O que Adrian ouvira foi: "Não posso esperar pelo fim de toda essa história de pós-graduação". Acabou não insistindo. O fato era que não se sentira segura de si m esm a para insistir. Ela e o nam orado nunca realm ente conversaram a esse respeito depois disso. Deslum brado com a perspectiva de glória, ele partiu para um a escola de cinem a, e ela o seguiu até Nova York. Após cerca de um ano em que trabalhava na agência J. Walter Thom pson, ela parou de vê-lo. Nessa época Gerry j á entrara em sua vida. O querido Gerry, que dissera: "Pode fazer qualquer coisa que desej e. Ganho o suficiente para nós dois". Assim Adrian cessara de se preocupar com o que deveria fazer de sua vida. O casam ento, as crianças, Gerry — gradualm ente tudo isso passou a ter precedência sobre os tem as desenvolvim entistas. Ela não era um ser hum ano em crescim ento, aprendizagem , m udança; ela era — m uito apropriadam ente — um a esposa. É im pressionante a facilidade com que as m ulheres abandonam os estím ulos e desafios. Depois de algum tem po nem m esm o sentim os a perda. Escolhem os o conforto e a segurança, em vez da estim ulação e da ansiedade que esta freqüentem ente engendra. Parte do problem a de Adrian é que sua vida tem sido fácil dem ais — fácil o bastante para am oitá-la contra o terror existencial que pertence a todos nós. Mesm o agora, sua ansiedade perm anece no dom ínio da vaga apreensão. Ela ainda não recebeu aquele aterrorizante aviso interno que diz: "Cuidado ou logo você cairá". A form a com o Adrian experim enta as coisas depende das ações e atitudes de Gerry. Se ele m orresse (ou se, Deus m e livre! ele com eçasse a passar m ais tem po em Washington), então um a crise de enorm es proporções abater-se-ia sobre ela. Na ausência de tal crise, Adrian provavelm ente continuará com o está, sem j am ais se dar conta de quão insegura realm ente se sente, até que algum outro evento externo a force a conscientizar-se disso.