Complexo de Cinderela
Como o complexo de Cinderela afeta o trabalho feminino
Essa necessidade do "outro", e fixação nele, inibe de um a vez a capacidade fem inina de trabalhar produtivam ente — de ser original, de com prom eter-se com a atividade e dela auferir prazer. O m ito que diz que nossa salvação reside em estarm os ligadas a alguém carrega consigo o corolário não explícito de que não serem os nunca cham adas a trabalhar. Quando de repente acontece algo que transform a o trabalho num a necessidade, m uitas de nós inflam am -se com um a extrem a fúria interna. Precisar trabalhar é um sinal de que, de algum m odo, falham os com o m ulheres.
Ou é um sinal de que o sonho em si era uma fraude. "Pelo pouco prazer que eu tirava de m eu trabalho, tanto faria se, em lugar dele, eu estivesse trabalhando na linha de m ontagem de um a fábrica de gram pos", relatou-m e um a curadora de m useu. Ela estava com trinta e um anos, não era casada e ocupava um a excelente e invej ável posição no m undo das artes em Washington, quando subitam ente tudo o que antes lhe parecera tão excitante despoj ou-se de colorido e interesse. Isso com eçou no dia de seu trigésim o prim eiro aniversário, pois essa era a data que ela elegera no íntim o para desobrigar-se de sua independência. "Tarde dem ais", anunciou um a voz dentro dela. "Você não deveria ter de trabalhar m ais. Mulheres de sua idade deveriam ter a opção de não trabalhar; deveriam poder ficar em casa e pintar quadros, ou dedicar-se a obras de caridade, ou criar filhos." Ela sentia ter perdido um a oportunidade única; ridículo, talvez, m as isso a deixava zangada e a insensibilizava. Achava que estava fazendo o serviço m ecanicam ente, com o que por inércia. Perdera o prazer de fazer experiências e desenvolver sua criatividade. Muitos anos m ais tarde, ela m e disse: "Eu m e sentia fútil, com o se estivesse desem penhando um a infindável série de tarefas que nada significavam além de m eras obrigações. Isso reduziu m inha eficiência pela m etade. Por que envolver-m e com um a atividade específica, se em seu lugar instantaneam ente apareceria algum a outra exigência despropositada?" Conheço um a m ulher com curso superior que trabalha com o faxineira, lim pando apartam entos em Nova York porque, explica, "Não quero ter a sensação de estar trabalhando em algo perm anente, que escolhi, algo que sugira: 'Muito bem , este é o tipo de serviço que você vai abraçar, é assim que você vai garantir sua vida'". Essa m ulher tem vinte e quatro anos e é extraordinariam ente inteligente. Além das faxinas, ela trabalha com o free-lancer criando textos de propaganda pelo correio — e o faz com brilhantism o. Seu chefe a considera excelente, o que é verdade — descontando-se o fato de que a cada dois ou três m eses ela se "atrapalha" e com eça a falhar na data de entrega dos trabalhos. Fica "bloqueada". Não consegue escrever nada. Tal ocorre sem pre que ela com eça a ganhar um pouco a m ais do que necessita para pagar o aluguel e dem ais contas de sua m inúscula kitchenette em Greenwich Village. "Se não estou a ponto de ter m inha luz cortada por falta de pagam ento, tenho a sensação de que m inha vida não é real", diz ela. "Ter de trabalhar o suficiente para sobreviver m ês a m ês é um a coisa. Ter de trabalhar porque é isso que os adultos fazem , e é nisso que sua vida vai consistir... sim plesm ente não consigo encarar isso. Sei que é com pletam ente neurótico e infantil, m as bem no fundo não quero ter que cuidar de mim mesma; quero que alguma outra pessoa o faça."
Existem inúm eros sinais de que as m ulheres estão sofrendo problem as funcionais devido a suas atitudes em relação ao tem a trabalho. Algum as persistem em continuar no m esm o em prego ano após ano, m uito em bora se entediem terrivelm ente. Algum as protestam contra a com petitividade do m undo m asculino, dizendo que "se recusam " a participar dele. O curioso é que em geral são essas m esm as m ulheres que invej am os hom ens por sua capacidade de fazer coisas que elas m esm as se sentem incapazes de realizar, ou encontram enorm e dificuldade para delas se desincum birem . Assim , por exem plo, negociar. Iniciar seus próprios proj etos. Pedir e conseguir m ais dinheiro. Em resum o, assum ir um papel ativo com relação a seu próprio bem -estar. Há toda um a rede de problem as psicológicos cuj os sintom as perm anecem confortavelm ente enterrados até que as m ulheres saiam em busca de em pregos ou tentem concretam ente entrar num cam po profissional. Aí sobrevêm a tem pestade. A ansiedade revelada nos testes, por exem plo, é notoriam ente m ais acentuada nas m ulheres do que nos hom ens. Se, para obter um em prego, m udar de profissão ou alcançar um a posição m ais desej ável em dada em presa, for preciso um teste, grande parcela da população trabalhadora do sexo fem inino desiste de seus planos e am bições profissionais. (Algum as delas entram em pânico diante de qualquer tipo de teste, sej a o vestibular, exam e de m otorista ou teste de qualificação para o ram o im obiliário.)
Falar em público tam bém é m ais difícil para as m ulheres. Num a pesquisa cuj os suj eitos eram duzentos pós-graduandos da Colum bia University, o investigador concluiu que cinqüenta por cento das m ulheres não conseguiam falar em público, contra vinte por cento dos hom ens. Para algum as delas, a ansiedade produzida por essa situação era tão avassaladora que se fazia acom panhar de ataques de tontura e até de desm aios.
A com unicação em geral é um em pecilho para m ulheres cuj a auto-estim a é baixa, provocando um a necessidade interna de serem cuidadas. Certas m ulheres ficam confusas, esquecem -se do que queriam dizer, não acham a palavra certa, não conseguem fitar as pessoas nos olhos. Ou enrubescem , gaguej am , ou suas vozes trem em . Ou então perdem o poder de argum entação no m om ento em que alguém discorda delas. Podem ficar desconcertadas ou chegar às lágrim as — especialm ente se seu oponente for um hom em . Diversas m ulheres com quem conversei descreveram a experiência de dim inuição de sua consciência de saberem o que sabem , de sua autoridade, no instante m esm o em que o pêndulo da conversação se desloca delas para o hom em .
Todos esses problem as na realidade são form as sintom áticas da "ansiedade de desem penho", a qual se associa com outros tem ores m ais gerais (indicativos do sentim ento de inadequação e desam paro no m undo). Assim , tem os m edo da retaliação por parte daquele de quem discordam os; m edo de serm os criticadas por fazerm os algo errado; m edo de dizer "não"; m edo de colocar nossas próprias necessidades clara e diretam ente, sem m anipulação. Esses são os tipos de tem ores que afetam as m ulheres em particular, pois fom os criadas de m odo a acreditar que cuidar de nós m esm as, afirm arm o-nos, é não-fem inino. Desej am os — intensam ente — ser atraentes para os hom ens: não-am eaçadoras, doces, "fem ininas". Tal desej o tolhe a alegria e a produtividade com as quais poderíam os estar dirigindo nossas vidas.