Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 39 de 60

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Complexo de Cinderela

Há segurança na fusão

"Ele é um a pessoa m uito controladora — da com ida a ser servida, da casa e sua conservação, do dinheiro, é claro, é do m eu tem po", prosseguiu a esposa do neuro-cirurgião. O m édico sem dúvida sente-se j ustificado em sua dom inação da cena dom éstica, pois tem consciência, no íntim o, de estar pagando pela segurança da esposa com a própria vida. Quanto m ais ela reclam a de suas ausências, m ais tem po ele passa "no hospital", evitando-a. Ele se m ostra orgulhoso, convencido m esm o, da form a com o vive. Tende a isolar-se de seus sentim entos m ais am eaçadores, com o a raiva que o dom ina em relação à m ulher exigente e infantil com quem m ora. Ele prefere deixar atuar sua raiva, frustrando intencionalm ente as tentativas dela em dom á-lo e dom esticá-lo. Afinal de contas, ele está em posição de grande vantagem , pois a esposa não pode fazer nada, ir a lugar algum , sem ele. Tudo o que tem a fazer para circunscrever as atividades dela é cancelar seus cartões de crédito. A sim ples am eaça da privação econôm ica é suficiente para m anter a m aioria das esposas que não trabalham em seu lugar. E assim , sentindo a inj ustiça de ter que suportar tanto, a esposa do m édico, com um profundo suspiro de tristeza e depressão (pois, afinal de contas, ela não m erece m ais do que isso?), acaba resignando-se e, por fim , com eça a "trilhar a própria vida".

Na década de 50, a concepção vigente de um casam en¬to ideal era dada por um relacionam ento íntim o e aconchegante, no qual o casal com partilhava tudo: idéias, opiniões, sonhos, planos. Nos anos 60 essa concepção teoricam ente caiu por terra, entendida que foi com o um a interdependência doentia, j á que não perm itia nem ao m arido nem à esposa o crescim ento, a m udança ou o desenvolvim ento. (As revistas fem ininas, em particular, foram alvo de forte repúdio, por terem historicam ente defendido a posição de que as m ulheres deveriam querer e prom over aquele "com partilhar" sufocante.) Ou porque a hum anidade deu um passo atrás desde então, ou porque, no fundo, as m ulheres nunca desej am rom per a estrutura do "com partilhar", o fato é que, aparentem ente, o casam ento ainda oferece a m uitas de nós um a válvula de escape — um refúgio da autonom ia, selado com a aprovação da sociedade. Externam ente podem os dar a im pressão de ser m ais liberadas, m as o profundo m edo experim entado pelas m ulheres em purra-as para um a existência sim biótica, não fundam entalm ente diversa do panoram a dos anos 50, no qual o devotado casal seguia de m ãos dadas em direção ao róseo horizonte de seu futuro.

O tem a de que tratam os aqui é o que os psicólogos cham am de "separação-individuação", e tem a ver com a possibilidade de qualquer pessoa — hom em ou m ulher — tolerar a experiência de ser básica e fundam entalm ente só: um ser que cam inha com os próprios pés, desenvolve os próprios valores e possui um a concepção da vida única e pessoal. É a falta de separação-individuação que destrói grande parte dos casam entos.

 

Há segurança na fusão

"Fusão" é o term o em pregado na literatura da psicologia de casais para descrever um relacionam ento no qual um ou os dois parceiros, tem erosos da realidade do ser só, renunciam à identidade individual em favor de um a "identidade am algam ada". Afirm ações com o: "Posso ler a m ente dele", "Pensam os tudo igualm ente" e "Chegam os a sentir os sentim entos um do outro" não refletem intim idade; refletem m edo — o m edo do crescim ento e do viver por si só. O desej o de se fundir sim bioticam ente no outro tem suas origens na infância e no profundo desej o de se "reincorporar" à m ãe. Psicologicam ente falando, a prim eira fase da separação é um a época crucial no desenvolvim ento da criança pequena, que, ainda incerta de sua identidade e ansiosa com respeito à separação, vê-se tentada a regredir a um período da prim eira infância no qual ela não tinha qualquer consciência de existência independente; ao contrário, estava fundida com a m ãe, absorvente e excessivam ente protetora. Joan Wexler e John Steidl, professores de serviço social psiquiátrico de Yale, crêem que os adultos que tentam fundir-se com seus com panheiros estão deixando atuar um im pulso regressivo sim ilar ao da criança pequena. "Am bivalentes quanto à autonom ia, assustadas frente à separação e sentindo-se carentes e sós", dizem Wexler e Steidl, tais pessoas "alm ej am e tentam recapturar com os com panheiros o intercâm bio prim itivo e em pático do pequeno ser pré-verbal com sua m ãe. Esta tentativa de am algam ação... é um a tentativa de perm anecer fundido, de nunca estar só e de negar a separação ou diferenciação". Em casam entos onde a fusão persiste ano após ano, m arido e m ulher estão firm em ente fixados num nível de desenvolvim ento psicologicam ente infantil. Wexler e Steidl descrevem o fenôm eno de form a deprim ente, com o sendo "duas figuras cinzentas, trancadas num a dança m ortal, repetitiva". Com o os casais prom ovem isso?

Muito calculadam ente. Eles têm form as de se proteger, "dando passos m edidos e tom ando escrupuloso cuidado" para não enxergar a perturbadora realidade: as coisas m udaram de m odo radical, e o casam ento transform ou-se em algo am argam ente decepcionante.

Naturalm ente os hom ens são em parte responsáveis pela m anutenção desse vínculo, m as as m ulheres se sentem em m aior perigo e chegam a ser brilhantes na perpetuação dessa situação. Quanto m ais dependentes são, m ais vigorosos os esforços que despendem para (por exem plo) estruturar um a vida fam iliar "apropriada" — refeições em conj unto, horários fixos para acordar e deitar, e em geral um a insistência um tanto destituída de hum or no sentido de que a fam ília faça "o que é certo" (que pode ser traduzido por: "faça do m eu j eito"). A esposa espera que Hubby sej a confiável e previsível. Quando ele sai da cidade a negócios, responde à estrutura fam iliar telefonando para casa todas as noites. Em graus variáveis de exagero, as esposas dependentes tentam fazer da "vida fam iliar" um a com plexa rede social, um a tram a de filhos e parentes, de am igos m eticulosam ente selecionados, na qual o m arido é enleado, um a m osca de asas duras e brilhantes.

Algum as m ulheres exercem o controle através de um a insistência crítica em m anter todos os m em bros da fam ília "na linha". Outras o fazem através da dedicação cega. As cegam ente dedicadas se fazem indispensáveis aos m aridos, que, elas crêem genuinam ente, não poderiam viver sem elas. Há m uitas m aneiras de se garantir a continuidade do equilíbrio de um casam ento am algam ado. A solicitude e a excessiva preocupação pelo bem -estar do com panheiro constituem um a delas.