Complexo de Cinderela
Capítulo V
Dedicação cega
Cinco anos de casam ento. Desde o princípio, m eu obj etivo fora o de levar m eu m arido a conduzir-se num nível que m e perm itisse sentir-m e segura no m undo. Sua com petência era a m inha com petência; seus fracassos, porém , eram unicam ente seus. Sem dúvida um arranj o côm odo, ainda que inj usto. Nunca questionei essa atitude — nunca, aliás, identifiquei-a. No verão de 1967, m inha am bição pelo sucesso de m eu m arido rej ubilou-se quando ele recebeu a prim eira oportunidade de fazer sua tão cobiçada reportagem de revista. The Atlantic Monthly estava interessada em que ele traçasse a relação entre o aum ento dos custos alim entícios e a quantia de dinheiro gasta com propaganda — conta naturalm ente paga pelo consum idor, sem o saber. A aprovação de The Atlantic Monthly ao proj eto de Ed deu a ele o ím peto para a sua execução, m uito em bora não houvesse garantias de que o artigo fosse um dia publicado.
Naquele verão, ele passou praticam ente todas as horas em que não se encontrava no escritório pesquisando e escrevendo o artigo. Essa m udança no estado de coisas m e anim ou sobrem aneira (devo ter previsto algum futuro grandioso e cheio de glórias originando-se ali). Vi-m e polarizada por m eu novo papel de aj udante e revisora. Fazia um calor horrível em Nova York naquele verão, m as o suor que se derram ava em nosso pequeno apartam ento era com o um a purgação saudável. Adeus às toxinas do fracasso e da frustração! Assim que Ed chegava a casa, eu servia o j antar. Em seguida levava os bebês ao parquinho e lá ficávam os até escurecer. Às oito e m eia ou nove horas, após banhá-los e pô-los na cam a, eu ia para a sala de j antar para revisar o que Ed escrevera até aquela hora. Essa era um a atividade aprendida em Madem oiselle: exam inar as sentenças e parágrafos de outras pessoas, a fim de m elhorar-lhes a estrutura e a clareza. Eu com eçara a produzir m eus próprios artiguinhos sobre ser m ãe e dona-de-casa; todavia, sentia-m e constrangida diante das im portantes idéias que Ed estava tentando alinhavar — associadas ao governo, à indústria e ao recém -surgido m ovim ento dos consum idores. Quando as idéias de Ed estavam redigidas de form a obscura, eu conseguia reconhecer e assinalar a necessidade de um a clarificação, porém conhecia pouco sobre o assunto e acreditava que precisava contar com algo extra — um a pós-graduação? um cérebro m aior? ter nascido hom em ? — a fim de m anipular m aterial tão com plexo.
Parte de m eu problem a, obviam ente, era o fato de eu estar com vinte e nove anos e ainda não ter desenvolvido o hábito de ler j ornais. Qualquer peão de obra da cidade, assistindo ao noticiário da televisão às cinco da tarde, durante a cervej inha do fim de expediente, sabia m ais de econom ia e política do que eu. De algum m odo, essas coisas não pareciam relevantes para a m inha vida pessoal. Quem governa o país, e com o, e por quê; quanto dinheiro corria e com o isso funcionava — não eram coisas de im portância visceral para um a m ulher com três filhos pequenos e que, para o bem -estar próprio e o deles, dependia dos esforços de um outro indivíduo. O m ovim ento fem inista estava apenas com eçando na época, m as não enfatizava a idéia de que cabia às m ulheres assum ir m aior responsabilidade por si m esm as. Pelo contrário: parecia sugerir que elas precisavam receber determ inadas coisas — coisas que, tradicionalm ente, lhes haviam sido sem pre negadas: profissões, salários igualitários, direito de opinar a respeito de suas vidas atuais e de seus sonhos futuros. A ironia é que, ao passo que com eçam os alm ej ando m ais, continuam os dependendo de outrem (de hom ens, em particular) para consegui-lo. Aparentem ente as m ulheres tinham entrado na adolescência; queríam os liberdade, m as ainda não desej ávam os a responsabilidade que a segue. Presentes, sim , m as nem tanto.
É claro que não percebíam os isso. O fato de Ed e eu nunca term os dinheiro suficiente era um problem a que eu pensava estar solucionando. E o que estava fazendo? Aj udando-o. Abrindo cam inho e fortalecendo sua auto-im agem , de m odo que ele conseguisse fazer m ais. Um a possível nova carreira com o redatora free-lancer parecia um a saída em com paração com o em prego sem futuro representado pelos escassos sete m il e quinhentos dólares anuais pagos por revistas a seus colaboradores constantes. De qualquer m aneira, eu ganharia pouco dem ais para um a fam ília de cinco pessoas m orando em Manhattan; m as parecia não haver saída — a m enos, é claro, que Ed se encarregasse disso. É verdade que as m ulheres se achavam aprisionadas pela regra social da responsabilidade integral pela criação dos filhos. Estávam os enj aulados em nossos lares — presas do assustador conhecim ento de que ninguém m ais, além de nós, cuidaria de nossos filhos. Não existiam creches quando com ecei a prom over m inha cam panha para que Ed passasse a trabalhar num nível m ais alto e m ais bem rem unerado. Certam ente teria sido difícil arrum ar um a babá e, no fim do m ês, contar com um dólar que fosse. Olhando retrospectivam ente, porém , agora sei que poderia ter feito algum a coisa. Eu poderia ter m ontado um plano, com eçado de baixo, e gradualm ente ir m elhorando (o que acabei tendo de fazer de qualquer m odo). A causa de m inha inércia não era a falta de creches. Eu não desej ava realm ente assum ir a responsabilidade por m im m esm a, e por isso nada fiz para iniciar o processo. Fugira à independência aos vinte e quatro anos, e não tinha m otivos para querer abraçá-la agora. No fundo eu ainda ansiava por ser cuidada, e estava disposta a trabalhar m uito, m uito duro, e a agüentar horrores em troca. Estava, de fato, disposta a ser um a escrava.
Naturalm ente não gostávam os de encarar a situação dessa m aneira — nem ele, nem eu. Preferíam os im aginar-nos com o pessoas atualizadas e avançadas. Eu não era m ulher de frescuras, das que vom itam durante a gravidez e desm aiam quando algo as assusta. Meus sintom as fóbicos haviam desaparecido. O casam ento tinha m e dado poder e força. Eu tinha energia bastante para cuidar de três crianças com m enos de quatro anos de idade, da casa, da com ida, das roupas, e ainda para telefonar para secretários de senadores para m arcar um a hora para Ed falar com eles. Eu tinha energia bastante para m e tornar um alter ego para ele, apoiando-o com m inha falsa força. Aparentem ente, Ed necessitava de m inha aj uda naquele verão, porque só podia dedicar as noites ao proj eto da Atlantic Monthly. A verdade era que ele estava com m edo — com m edo de com eçar (bem poderia fracassar), com m edo de pedir entrevistas a senadores e deputados (eles bem poderiam dizer não), com m edo de com eçar a trabalhar num nível novo e m ais desafiante, onde sua capacidade seria testada, pondo em risco a sobrevivência de suas fantasias onipotentes. Eu não sabia disso na época, pois j am ais enfrentara m eus próprios "dem ônios internos". Achava os tem ores de Ed "irracionais". Ao m esm o tem po gostava de pensar que acreditava em Ed, que sabia que ele poderia "vencer". Contando m uitas bravatas, num a tarde ao telefone consegui que m etade dos congressistas de Washington concedesse um a entrevista a Ed. "Meu m arido está preparando um artigo sobre os custos dos gêneros alim entícios", eu dizia aos secretários e assistentes. Sentia-m e eficiente e calm a. Não m e abalava estar-m e associando ao poder da im prensa (as portas dos senadores se abriam de im ediato) porque, na verdade, não se tratava de m eu poder, m as do de m eu m arido. Sentia-m e forte e eficiente precisam ente porque estava agindo em nom e de m eu m arido; m inha im agem continuava protegida, e m eus talentos pessoais, não testados. Eu poderia ter sido um a excelente secretária executiva, agente eficaz da burocracia, m ontando planej am entos, cuidando de todos os detalhes e garantindo que o outro — m eu chefe, m eu protetor — sem pre conseguisse o que desej ava.
Colocar a vida à disposição do am o pode acabar sendo im ensam ente decepcionante. Com o recurso para evitar a ansiedade que acom panha a autonom ia, nem sem pre funciona. Havia dias — m uitos dias — em que Ed dava vazão à própria frustração entregando-se à bebida. Esses episódios m e punham desesperada, pois traziam consigo o reconhecim ento de m eu próprio desam paro — quão vulnerável eu era, quão com pleta e futilm ente dependente, quão falha era m inha capacidade de fazer qualquer coisa! Na som bria m anhã seguinte, eu sentia um m isto de depressão e um a obscura sensação de alívio. O fundo do poço fora alcançado, e, com isso, o reconhecim ento da m entira vivida e da energia desperdiçada. O roupão am arrotado, a barba por fazer, o odor enj oativo de álcool ofereciam um feio vislum bre da verdade: o casam ento não estava dando certo. Nós dois estávam os usando esse arranj o para evitar os tem as centrais de nossas vidas particulares. Naturalm ente eu tratava de fugir a esse vislum bre com o que em pânico, com o que correndo de um a visão fantasm agórica. Queria o terreno fam iliar do conhecido, do seguro; assim , no fim da tarde do dia após a bebedeira, nós dois m ergulhávam os na culpa, nas desculpas, nos votos de m udar e, por fim , no perdão.
Durante nove anos vivi a vida de um a criança casada brincando de ser adulta. Batizei e vacinei m eus filhos. Paguei as contas e, quando a situação apertava, im plorava — diversas vezes — em préstim os aos bancos. Lavava, passava e tentava fazer tudo certo — e acreditava nisso. Qualquer pessoa m enos ingênua teria rido, se conhecesse de perto a situação real. Pois não lhe teria escapado que m eus esforços eram regressivos. Eram unicam ente dedicados à m anutenção das paredes de m inha prisão.