Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 28 de 60

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Complexo de Cinderela

Ajuda excessiva e "mutilação" feminina

Bardwick e Douvan acreditam que a problem ática das m eninas em parte se origina de um a insuficiência de tensão quando pequenas. Já que seu com portam ento costum a agradar aos adultos desde o início (em geral elas não m ordem , nem tiram sangue de ninguém , nem se m asturbam em público), elas não necessitam fazer nada m ais desafiante, em term os desenvolvim entistas, do que continuar a ser com o são — verbal e perceptualm ente hábeis, não-agressivas e extrem am ente precisas no adivinhar o que desej am delas aqueles de quem dependem .

Os adultos, por seu lado, não interferem nem se opõem ao com portam ento "instintivo" das m eninas — exceto às suas açõestateantes rumo à independência. Estas eles bloqueiam sistem aticam ente — com o se suas filhinhas, ao estenderem os braços para fora e se arriscarem , estivessem cortej ando a própria m orte.

 

Ajuda excessiva e "mutilação" feminina

 

O treinam ento à dependência tem início bem precocem ente na vida da m enina. Os bebês do sexo fem inino são carregados freqüentem ente e m enos vigorosam ente m anuseados do que os bebês do sexo m asculino. Apesar de serem m ais adiantadas em term os de m aturação, as m eninas são consideradas m ais frágeis. Recebendo m enos estim ulação física, elas podem não obter a m esm a espécie de encoraj am ento dado aos m eninos, por suas precoces explorações aventureiras. É com um os pais de m eninas exibirem apreensão quanto à sua segurança antes m esm o de elas deixarem o berço. Um estudo efetuado em 1976 indicou que os pais fazem um a distinção de sexo ao interpretarem o significado do choro dos bebês. O choro de um a m esm a criança foi interpretado por pais com o medo, se achavam que a criança era do sexo fem inino, e com o raiva, se pensavam que era do sexo m asculino. Além do m ais, as m ães respondem diferentem ente ao choro. Quando suas filhinhas choram , elas estão m ais prontas a interrom per o que fazem e a correr para confortá-las do que quando se trata de m eninos. (Aparentem ente é m ais fácil para os pais ignorar o choro de bebês do sexo m asculino.)

Outra diferença notável é que a m ãe aum entará o contato com o bebê-m enina se esta estiver irritada, m as o dim inuirá se o bebê for um m enino — ainda que o filho estej a m ais irritado ou m ais aflito que a m enina. De acordo com o psicólogo Lois Roffm an, da University of Michigan, esse condicionam ento precoce pode bem significar "o início de um padrão de interação... no qual as filhas rapidam ente aprendem que a m ãe é um a fonte de conforto e que o com portam ento m aterno é reforçado pelo cessar do choro". Em outras palavras, os bebês do sexo fem inino aprendem que o auxílio vem depressa se choram por ele, e as m ães desses bebês aprendem que o choro term inará se correrem para aj udá-los. Precisam ente o contrário acontece quando a interação é entre m ães e filhos. Porque pensa que os bebês do sexo m asculino são m ais fortes, a m ãe não vai voando pela casa, arriscando-se a tropeçar no aspirador, para confortar o filhinho que chora. Por conseguinte, ele não é tão sistem aticam ente reforçado na idéia de que "basta chorar, que serei aj udado im ediatam ente". Há horas em que ele tem que consolar a si próprio. Ocasionalm ente, descobre, isso funciona. Ele é capaz de consolar-se. Pouco a pouco ele aprende a fazer isso em base m ais regular. Pouco a pouco ele aprende a se tornar seu próprio provedor em ocional.

Após alguns m eses a criança com eça a engatinhar, levanta-se no berço pela prim eira vez e finalm ente dá os prim eiros passos. E a ansiedade paterna com eça a desfigurar sua própria alegria. O feito da criança enche os pais de orgulho, com binado com um a nova am bivalência, pois agora o "nenê" passará a correr novos riscos: tom adas de eletricidade, obj etos quebráveis nas prateleiras baixas da estante, tom bos resultantes de um a audácia desm edida. Tal com o ciganos que lêem tudo num a bola de cristal, m am ãe e papai com eçam a prever essas catástrofes no m om ento m esm o em que o bebê com eça a engatinhar. Só que essas catástrofes potenciais não assum em caráter tão trágico e vívido nas m entes dos pais se o bebê é um m enino. Pesquisas indicam que a am bivalência relativa aos prim eiros m ovim entos infantis em direção à independência é m aior quando a criança é do sexo fem inino. Billy, esse (pequeno) garotão valente, está com tudo. Deborah precisa ser m uito vigiada, precisa de m uita aj uda. Quando Billy dá os prim eiros passos, m am ãe e papai não cabem em si de tanta felicidade. Quando a pequena Deborah dá os prim eiros passos, a felicidade é obscurecida pela preocupação. Infelizm ente, a pequena Deborah levanta os olhos e vê a ansiedade nos olhos da m ãe.

Essa prim itiva indicação de ansiedade por parte da m ãe — por alguns pesquisadores, denom inada "super-solicitude apreensiva" — leva a criança a duvidar de sua com petência. "Se m am ãe está com m edo de eu não conseguir fazer isso, ela deve saber de algo que não sei", pensa a pequena Deborah. Um derivado de seu im enso tem or pelas filhas é a tendência dos pais (um term o m ais apropriado talvez sej a "com pulsão") a proteger — saltar e pegar o bebê antes que tropece e caia: é preciso garantir que aquela coisinha não se m achuque. Mas se o m enininho se m achuca, isso é considerado parte do processo de m aturação. "Tudo bem , tudo bem , Billy ", a m ãe m urm ura, abraçando-o. "Você logo aprende." Se Debbie, a pequena Deborah, bate a cabeça, é hora de pânico — e culpa. Mam ãe não devia ter desviado os olhos naquele instante. Mam ãe devia ter garantido que nada acontecesse à pequena Debbie. Afinal de contas, a pequena Debbie é apenas "um a m enininha". É nessa altura que os pais com eçam a inculcar nas filhas pequenas a idéia de que, no que concerne a assum ir riscos e à avaliação de sua própria segurança, elas não devem confiar em si m esm as.

E, com o sabem os, a autoconfiança é crucial no desenvolvim ento da independência.

Em geral o m edo se instala em m eninas pequenas devido às atitudes de suas m ães. Mães ansiosas instruem os filhos a evitar com portam entos que as possam deixar — a elas, m ães — ansiosas. Ao ensinar a filhinha a evitar o risco, a m ãe ansiosa inadvertidam ente im pede a criança de aprender com o lidar com o m edo. O único m étodo de que tanto os seres hum anos quanto os anim ais dispõem para aprender a controlar o m edo em novas situações é aproxim ar-se e retirar-se da situação am edrontadora repetidam ente. "A repetida estim ulação da resposta de m edo em doses pequenas e controladas acaba por produzir a extinção dessa resposta", explica Barclay Martin em Anxiety and neurotic disorders (Ansiedade e distúrbios neuróticos).

A m ãe não desej a que Debbie sequer se defronte com a situação causadora de m edo, de sorte que a criança não reúne experiências de m odo a aprender a controlar sua resposta a ele. Crianças sem experiência no m anej o da resposta de m edo são passíveis de se tornarem adultos cuj as vidas serão governadas por ele. Em essência, a pequena Debbie perm anecerá propensa a ter m edo durante todo o prim eiro grau escolar, depois no segundo, na faculdade, até sair para o gélido m undo terrificante dos adultos. Lá, tentará "virar-se, controlando-o". O m edo — e a subj ugação a ele, ou, m elhor dizendo, sua total evitação — por fim se transform ará no determ inante básico da vida de Debbie. Conseqüentem ente, é claro, ela terá grande dificuldade em desenvolver autoconfiança. Vários estudos revelam que m eninas — especialm ente as m ais inteligentes — possuem graves problem as na esfera da auto-confiança. Elas sistem aticam ente subestim am suas próprias capacidades. Quando se lhes pergunta com o acham que se sairão em diferentes tarefas — sej am tarefas novas ou j á experim entadas por elas —, elas oferecem estim ativas m ais baixas do que as dos m eninos, e em geral subestim am tam bém seu desem penho real. Um estudo chegou a revelar que, quanto m ais inteligente é a m enina, m enores são suas expectativas de ter sucesso em tarefas intelectuais. Meninas m enos inteligentes têm expectativas m ais altas sobre si m esm as do que as inteligentes. Um baixo grau de auto-confiança é um a praga entre m uitas m eninas, e leva a um a extensa gam a de problem as inter-relacionados. As m eninas costum am ser altam ente sugestionáveis e tendem a m udar de opinião quanto a seus j ulgam entos perceptivos se alguém discorda delas. Estabelecem para si m esm as padrões m ais baixos do que os m eninos. Se para os m eninos tarefas difíceis representam desafios, as m eninas geralm ente tentam evitá-las. Inclusive em idade pré-escolar, os m eninos dem onstram m aior envolvim ento nas tarefas, m aior autoconfiança e são m ais capazes de obter increm entos em seus QI’s. Por volta dos seis anos, o quadro de probabilidades relativas ao desenvolvim ento intelectual, bem com o à independência, j á se acha configurado. Por essa época j á se podem fazer previsões. A criança de seis anos, cuj o QI provavelm ente crescerá nos anos seguintes, é aquela j á com petitiva, assertiva, independente e dom inadora entre outras crianças, de acordo com Eleanor Maccoby. A criança de seis anos cuj o QI decrescerá nos anos futuros é passiva, tím ida e dependente. "Com base nesta evidência", aponta Maccoby, "as características daquelas cuj os QI’s crescerão não parecem m uito fem ininas." Tudo isso, nas m eninas, é associado a exageradas "necessidades de afiliação", quer dizer, necessidades, acim a de tudo, de participação em relacionam entos. Dado seu sentim ento de incom petência, não é de adm irar que a garotinha fosse plantar-se ao lado do outro m ais próxim o e a ele agarrar-se por toda a vida. Lois Hoffm an descreve abaixo a seqüência desenvolvim entista que faz das m eninas adultos necessitados de excessivo apoio dos outros. Pelo fato de a m enina contar com : a) m enor encoraj am ento para os com portam entos independentes; b) m aior proteção paterna; c) m enos pressão cognitiva e social no sentido de estabelecer um a identidade separada da m ãe; d) m enor conflito na relação m ãe-filha — e o conflito é um dos elem entos essenciais no processo de separação; — por tudo isso ela se envolve m enos na exploração independente do seu am biente. Resulta que ela não desenvolve as habilidades necessárias para m anipular seu am biente, nem a confiança em sua capacidade para fazê-lo. Ela persiste em sua dependência dos adultos para a solução de seus problem as, e, por causa disso, necessita de seus laços afetivos com os adultos.

Com o podem os ver, os problem as da dependência exces¬siva seguem as m eninas até a idade adulta. E, no entanto, dificilm ente as m ulheres se conscientizam de terem tido um a infância dom inada por restrições e super-proteção. Sua auto-percepção não lhes fala de um a infância onde seus esforços pela independência foram reprim idos — e, quando assaltadas por problem as relativos à dependência na vida adulta, elas se espantam . As que fazem psicoterapia acabam rem em orando as estranhas proscrições dos pais, as quais se revestiam de caráter tão am eaçador: os avisos, os estritos horários para chegar em casa, as súplicas para não se "cansarem " — pobres borboletas frágeis, cuj as asas podem deixar de sustentá-las a qualquer m om ento. Ruth Moulton diz que os m aiores problem as psicológicos de várias de suas pacientes originam -se da "inibição (iniciada bem cedo) de toda e qualquer asserção e, às vezes, de toda a atividade física, considerada ou perigosa ou não-fem inina". Duas das pacientes da Dra. Moulton haviam sido literalm ente am arradas às cam as, à noite, quando pequenas. Diz ela que as histórias da infância de suas pacientes revelam diversos desses exem plos de "excessivas restrições e super-proteção". Todas as histórias desem bocam no fato de que, quando crianças, essas m ulheres foram levadas a se sentirem fracas — incapazes de usarem seus corpos, incapazes de se defenderem física e verbalm ente. Produz-se o que Moulton cham a "síndrom e da boa m enina". Crescidas, essas m ulheres agem de m odo a continuarem a sentir-se seguras. Elas agora se auto-restringem .

A prova com portam ental m ais concludente no treinam ento das m eninas é a aj uda excessiva — a tendência dos pais de correrem para auxiliar as filhas quando elas não precisam realm ente disso, ou quando estão aprendendo a recuperar o equilíbrio após terem cam baleado (processo fundam ental para o desenvolvim ento da confiança e da auto-estim a). Elas acabam não tendo chance de se reerguer. São apanhadas no colo, e recolocadas no chão, seus vestidos são rearranj ados, lem brando bonecas a que se dá corda para efetuarem os m ínim os (e m ais estudados) gestos.

Por que a aj uda excessiva é tão destrutiva? "A perícia e o poder requerem a capacidade de tolerar frustrações", explica Lois Hoffm an. "Se o pai ou a m ãe respondem depressa dem ais com um auxílio, a criança não desenvolverá tal tolerância."

"A independência é resultante do aprendizado de que se pode realizar coisas por si m esm o, de que se pode contar com as próprias capacidades e confiar no próprio j ulgam ento", escreve Judith Bardwick em seu livro The psy chology of wom en (Psicologia fem inina). As m eninas são sistem aticam ente reforçadas na noção de que só podem realizar coisas com a aj uda de outrem . No fim interiorizam a idéia de que não estão à altura de sobrepuj ar os desafios da vida por sua própria conta. Certas "doenças" de fundo dependente afetam apenas pessoas do sexo fem inino. Um a delas é a anorexia nervosa, a bizarra síndrom e da m orte por inanição, doença na qual adolescentes do sexo fem inino se recusam a com er até a m orte, num a tentativa tristem ente paradoxal de alcançar algum controle de suas vidas. Anualm ente, um a em cada cem adolescentes se entrega a um desses regim es anoréxicos debilitantes. Aproxim adam ente dez por cento delas acabam se m atando por falta de alim entação.

"Meninas com personalidades conform istas sentem -se obrigadas a fazer algo que requeira um alto grau de independência a fim de serem respeitadas e reconhecidas. Quando tudo o m ais falha, a única independência que sentem ter é a que reside no controle de seus corpos", disse a Dra. Hilde Bruch, um a autoridade nessa m oléstia.

A m aioria dos casos de anorexia nervosa é representada por j ovens do sexo fem inino — raram ente do m asculino — entre os doze e os vinte e um anos de idade, com educação esm erada, alto nível de m otivação e provindas de lares com situação financeira confortável. Segundo a Dra. Bruch, seu tratam ento pode ser bastante longo e trabalhoso. "A convicção de ser inadequada e não ter valor com o pessoa está tão profundam ente assentada, tão fortem ente enraizada, que (a j ovem anoréxica) se retrai por trás da m áscara de superioridade sem pre que experim enta a m enor dúvida acerca de si m esm a ou se defronta com alguém que dela discorde. Ela precisa ter certeza de que é um indivíduo de valor antes de poder ser curada".

Outras vítim as da dependência neurótica são as esposas espancadas. O fato de tão freqüentem ente serem financeiram ente dependentes dos hom ens que as espancam configura a arm adilha estagnante. Mas é a dependência em ocional que tranca a fechadura da arm adilha. “Muitas m ulheres são vítim as de um a espécie de pânico frente à idéia de sobreviverem de outra m aneira que não dependendo dos m aridos", disse Kenneth McFarlane, do extinto Departam ento de Saúde, Educação e Bem -Estar. "A vida inteira ensinaram -lhes que isso é im possível. É um processo de condicionam ento. Em situações nas quais não detêm nenhum controle sobre seu am biente, os anim ais com eçam a desistir de lutar. Novos estudos indicam que o m esm o se dá com os seres hum anos. Passe um dado período num a situação sobre a qual sente não ter qualquer controle, e você sim plesm ente parará de reagir. Esse fenôm eno foi denom inado por Martin Seligm an de desam paro aprendido. Diane Follingstad, da University of South Carolina, passou a em pregar alguns dos princípios de Seligm an a respeito do desam paro aprendido num program a de tratam ento que ela elaborou para esposas espancadas. Follingstad ensina essas m ulheres a desaprender, num período relativam ente curto de tem po, aquilo que seus pais e a sociedade levaram anos para inculcar nelas. As m ulheres sentem não terem controle sobre nada, pois os fatos de suas vidas são causados pelo acaso, pelo azar, pelo destino. Não percebem que se trata de 'Se eu fizer X, obterei Y', diz a Dra. Follingstad. Tendo sido "m odelada" para acreditar que não tem m eios de dom inar a situação, a esposa espancada continua sendo espancada. Som ente após com eçar a desem baraçar-se de sua crença em seu desam paro é que ela pode rom per o ciclo vicioso de dependência e seu efeito brutal sobre ela. O conceito do desam paro aprendido atraiu a atenção de m uitos psicólogos, que se puseram a procurar sinais dele ao longo do processo desenvolvim entista. Carol Jacklin, do Departam ento de Psicologia de Stanford, m e falou da existência de novos estudos que assinalam que o desam paro está sendo ensinado à nossas filhas por suas professoras de prim ário. "As professoras elogiam os m eninos por seu trabalho escolar e censuram -nos por seu m au com portam ento — barulho e coisas desse tipo. E às m eninas tocam os cum prim entos por seu trabalho não escolar — com o estão lim pas e arrum adinhas, com o são bem -disciplinadas e daí por diante."