Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 19 de 60

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Complexo de Cinderela

A ocultação do medo: o estilo contrafóbico

As m ulheres contrafóbicas escolhem certas profissões reforçadoras da auto-im agem ; profissões sobre as quais m uitas m ulheres m ais abertam ente inibidas poderiam afirm ar: "Ah, eu nunca poderia fazer isso; eu teria m edo dem ais disso". O que, naturalm ente, é o ponto crucial da questão. Para essas m ulheres, sentir-se indefesas e assustadas é tão am eaçador que as faz despender todas as suas energias na construção de um a vida — e de um estilo — destinada a pôr todo m undo (inclusive elas) fora do cam inho certo. Podem se tornar pilotos de carros de corrida. Ou atrizes. Ou prostitutas. (Jane Fonda fez o papel de um a personalidade contrafóbica típica em Klute.) Ou, com o Abigail Fletcher, podem ansiar por apanhar crim inosos. Assim com o existem diferentes obj etos fóbicos, tam bém existem diferentes m odos pelos quais um a pessoa basicam ente am edrontada desenvolve um a personalidade contrafóbica. No caso de Abigail, a j actância e o cinism o se desenvolveram para form ar um a concha dura. Ela acreditava em sua auto-im agem forte, exceto quando um nam orado a deixava para desposar e ter filhos com outra. Então Abigail se sentia péssim a e derrotada durante sem anas, talvez m eses, m as por fim punha-se de pé, erguia a cabeça, e sua índole vingativa e recrim inadora retornava redobrada. De vez em quando, só para provar quão infinitam ente dispensáveis eram os hom ens, ela tinha um caso com um a m ulher. Estava tudo lá, essa "durona", afiada com o a ponta de um estilete, na época em que Abigail se tornou m ãe, aos dezoito anos de idade. Isso ocorreu em 1976. Ela engravidou para fugir dos pais — pessoas inseguras que, por m im arem e superprotegerem a bela filha, a tinham levado a sentir-se sufocada e assustada. A fim de negar esses sentim entos incôm odos, ela se tornara um a versão durona da princesa j udia-am ericana. Acreditava com todas as forças que lhe cabiam por direito as m elhores coisas da vida. Tam bém suspeitava — profunda, am argam ente — que nenhum príncipe encantado j am ais chegaria para lhe proporcionar aquelas coisas, que não tinham sido proporcionadas por aquele seu m arido m aconheiro, o hom em com quem se casara aos dezessete anos e que a deixara um ano depois com um a filha.

 

A ocultação do medo: o estilo contrafóbico

 

A história de Abigail lhe dará um vislum bre do que constitui a defesa contrafóbica, um com portam ento pseudo-independente pelo qual a pessoa finge possuir auto-suficiência quando, na verdade, por dentro é tím ida, insegura e tem erosa dem ais de perder a identidade, a ponto de nem ser m ais capaz de se apaixonar.

Apesar de os detalhes desta história serem específicos do caso de Abigail Fletcher (seu nom e é fictício), o estilo pseudo-independente pode ser reconhecido em m uitas m ulheres. É o estilo das pessoas em estado de absoluto terror, com o a m ulher tão inundada por sentim entos de vulnerabilidade (por causa de seu sexo) que quase preferiria ser hom em .

Um anúncio do Globe de dom ingo pedia: "DETETIVE, HOMEM ou MULHER", e fora colocado pelo departam ento de pessoal de um a loj a da área do Quincy Market, no centro de Boston. Esse "DETETIVE" cham ou a atenção de Abigail Fletcher. Ela precisava m uito de um em prego; com um ano cursado na Boston University e sua boa aparência, provavelm ente lhe seria fácil achar em prego com o recepcionista em algum lugar, m as quem queria ficar sorrindo tolam ente o dia todo? De um a ou outra form a, Abigail conseguira até então evitar essa espécie de serviços m onótonos, e não tinha intenção de deixar-se engolir por eles agora. Ultim am ente estivera trabalhando num a distribuidora de film es com o nam orado; o negócio, apesar de ter rendido bastante, fracassara, e ela se viu às voltas com a carência de dinheiro. Ah, m as não era por isso que ia trocar sua inteligência por um a m esa de recepção, de j eito nenhum ! Ela costum ava dizer que tinha um bom nariz e um a boca grande, o que significava — sem rodeios — que gostava de im iscuir-se na vida dos outros, e que era capaz de falar bem e cruam ente, dependendo da ocasião. Abigail gostava de im aginar-se um a detetive do lado da lei e da j ustiça. Costum ava fantasiar estar trabalhando para o Departam ento de Proteção ao Consum idor. Na fantasia, via-se em sua j aqueta de cam urça e seu jeans sofisticados, com os longos cabelos castanhos cortados ao estilo de Farrah Fawcett, enfrentando os açougueiros bostonianos com relação à quantidade de gordura em cada porção de carne vendida. "Desnecessária experiência prévia", dizia o classificado. Tratava-se de um a colocação na equipe de segurança da Towne & Country, um a loj a grande e requintada. Abigail pensou: "É com igo m esm a"; estava na hora de agir. Ela era pequena, m as bastante valente para esse serviço; de quebra, tinha um corpo razoavelm ente bem preparado graças, em parte, às aulas de j iu-j itsu que tom ara algum tem po atrás no porão de um a igrej a budista, e em parte aos genes de sua doce e querida m ãe. "Sim , definitivam ente esse serviço é com igo m esm a." Abigail divertiu-se por ocasião da seleção na Towne & Country. Notou de im ediato que o entrevistador, um tal de Hollis, queria cantá-la. Um a vez encerradas as perguntas essenciais ("Você usa drogas?" "Puxo fum o." "Já roubou algum a coisa de algum em pregador?" "Não." "Algum outro tipo de droga?"

"Nããão." "Tem dívidas grandes?" "Claro, quatrocentos dólares no cheque especial."), ele reclam ou da equipe inadequada que tinha e explicou o program a de treinam ento oferecido pela loj a.

"Você foi aceita", disse-lhe o Sr. Hollis ao telefone no dia seguinte. "Bem -vinda ao corpo de segurança da Towne & Country."

Abigail teve de conter um a gargalhada ao descobrir que um dos suj eitos com quem teria treinam ento era o m edroso do Mário, um de seus ex-colegas do curso de j iu-j itsu. Um bebezão chorão, ela o classificara m entalm ente. Quando lutavam j untos e ela tentava chutá-lo, ele instintivam ente dobrava os j oelhos para proteger os testículos e acabava sem pre levando o chute nas canelas. Ela o cham ava de "Esconde-Ovos".

Não escapou a Abigail a diferença entre ela e os treinandos do sexo m asculino: só eles recebiam aulas de cara tê e técnicas de "vem -com igo". ("Vem -com igo" é o golpe pelo qual se torce o braço do ladrão por trás das costas, de tal m odo que ele possa ser levado para a sala da segurança sem criar problem as.) Im ediatam ente Abigail dirigiu-se a Hollis: "Quando é que eu vou com eçar a ter essas aulas?" Ele se lim itou a um falso sorriso paternal e m alicioso e disse: "Assim que você fizer sua prim eira detenção". "Merda", pensou Abigail. "Eu j á sou faixa verde, coisa que o babaca do Esconde-Ovos nem sonha conseguir."

Abigail passou a ir trabalhar de jeans e tênis. A atm osfera de cilada e ação rápida deliciou-a desde o início. Foi ensinada a "extinguir", que significava seguir suspeitos tão de perto que se acabava por fazê-los sair da loj a, am edrontados, antes que pudessem pegar qualquer coisa. Ela aprendeu a "forçar a devolução", isto é, tentar forçar alguém que parece ter pegado algo a "disfarçar" e j ogar a m ercadoria num a m esa ou em outro lugar qualquer e ir em bora. Abigail era um a aprendiz viva. Assim ilou depressa todas as dicas e truques, as seções da loj a m ais passíveis de serem roubadas, as posições dos espelhos e sistem as de alarm a ocultos. No com eço ela passou bastante tem po rastej ando pelos soalhos carpetados das espaçosas cabinas de prova. Essa era a parte do serviço de que m ais gostava, bem com o a que m ais produzia resultados. Carregava consigo um a caixinha de pílulas cheia de alfinetes e, quando lhe dava na veneta, m etia-se num a cabina vazia e fechava as cortinas com os alfinetes, com o propósito de espionar em paz. Em seguida deitava-se no chão e olhava pela abertura do cano de ventilação, tentando enxergar o m ais possível. Era divertido ver as m ulheres fazendo poses, suspirando de orgulho e elim inando gases. Às vezes via um a delas arrancar as etiquetas dos artigos e colocar coisas na bolsa, na sacola de com pras ou dentro da calcinha ou m eia-calça. "Metedoras" — assim eram cham adas aquelas que utilizavam esse terceiro m étodo, e em geral eram profissionais.

As profissionais podiam ser extrem am ente assustadoras. Costum avam ser grandalhonas e negras (com binação que, desde seus tem pos de colegial no lado sul da cidade, o South Side, sem pre aterrorizara Abigail), e especialista em desnortearem os outros. Um dia um a dessas, com um corpanzil enorm e, percebeu que Abigail a seguia, virou-se, aproxim ou-se quase a ponto de tocá-la e disse, num m urm úrio rouquenho com bafo alcoólico: "Se quiser aprender a seguir a gente, faça isso bem de perto, esqueça os espelhos". "Tá querendo ensinar o padre-nosso pro vigário, dona?", retrucou Abigail, m as seus j oelhos trem iam com o geléia.

Após duas sem anas de treinam ento, Abigail fez sua prim eira "detenção". A experiência foi chocante para ela. A m ulher que flagrou não era nem negra nem porto-riquenha, com o Abigail im aginara, nem estava vestida com farrapos. Era sim plesm ente a Sra. Hansen, baixinha e pequena, com um coque grisalho bem preso à nuca e um olhar de puro pânico.

Nervosa, Abigail teve que levar a sra. Hansen à sala do sr. Hollis. Todos os volum es das sacolas de com pras da m ulher foram espalhados sobre a grande escrivaninha de m ogno. A sra. Hansen não carregava drogas consigo. Quanto a arm as, o que tinha era apenas um porta-agulhas e alguns carretéis de linha, do tipo que m ulheres m eticulosas costum am levar consigo para o caso de perderem um botão da roupa na rua. O porta-agulhas e os carretéis foram confiscados. Encerrada a revista, Abigail (que inusitadam ente se identificara com a m ulher) experim entou um a queda abrupta em sua taxa de adrenalina. A cena toda era por dem ais deprim ente. Desem penhou o resto do trabalho autom aticam ente. Parte de seu dever era acom panhar a m ulher até o elevador e conduzi-la ao andar térreo. A sra. Hansen agarrava-se às suas sacolas, com a cabeça baixa. Abigail seguiu com ela através da seção de perucas, luvas e lingerie, depois cruzaram a seção de perfum aria, onde se fazia sentir fortem ente o odor de patchuli, até alcançarem a porta de entrada. Lá, sem olhar para trás, a sra. Hansen deixou Abigail e, com o um anim al assustado, rapidam ente fugiu por entre a m ultidão na Market Street.

Sentindo-se culpada e com o coração apertado, com o sem pre, Abigail tentou recuperar sua frieza. Ridículo deprim ir-se com aquilo. Era um emprego, nada m ais. Afinal de contas, se não precisava, por que aquela louca estava roubando? Abigail sabia o que faria. Assim que chegasse a casa, tom aria um bom banho quente de banheira. Depois poria a m enina na cam a, colocaria um disco dos Rolling Stones na vitrola e enrolaria uns baseados. Por estranho que pareça, no dia seguinte Abigail foi bem sucedida de novo — duplam ente, aliás: pegou dois rapazes negros, um de quinze e um de dezesseis anos. Dessa vez realizou seu trabalho eficientem ente, sem rem orsos. Estava "à toda". Forte, invulnerável, sentia-se com o num a "viagem " de intensas proporções. Controlar a própria vida era fácil se assim se resolvesse, pensou. O trabalho não apresentava com plicações. Sua vida am orosa estava tam bém "num a boa". Os hom ens acorriam para ela com o abelhas para o m el. Em poucos anos abriria sua própria firm a de segurança e daria o fora do South Side. Só havia um a falha em seu plano. O que Abigail não sabia — o que ela não podia prever — era que nunca seria capaz de apaixonar-se profunda e irrevogavelm ente. A m enos que acontecesse algo que penetrasse seu núcleo tão bem oculto. Ela teve inúm eros nam orados, hom ens que, de início, eram atraídos por seu charm e e autoconfiança, m as posteriorm ente eram repelidos pela viscosidade com que se agarrava a eles. Mal com eçava a sair com um hom em e j á estava lhe oferecendo "um a com idinha caseira", bem com o desfilando suas novas roupas íntim as. Devia estar tudo bem , o hom em pensava consigo m esm o. Mas não estava. Aquela Abigail oscilava de um extrem o a outro. Era perceptível que estava tecendo um a teia para enredá-lo. Era boa de cam a; porém , de um m odo indefinível, ficava claro que não estava presente. Um a doida m etida a durona. Um a narcisista. Mais ou m enos com o um a puta.

A característica surpreendente da personalidade contra-fóbica é sua eficácia no tocante à defesa. Mulheres contra-fóbicas raram ente experim entam o m edo, de m aneira que não têm idéia do grau em que ele dom ina suas vidas. A fobia nas m ulheres pode ser associada a um tem or de abandonar a repressão sexual e ao sentim ento de desam paro e vulnerabilidade. Esse tem or por vezes se expressa através de fantasias de prostituição e dom inação. Abigail gostava de visualizar-se com o um a "rainha do sexo", um a m ulher do tipo "am e-os e deixe-os", a quem nunca faltavam belos presentes e nam orados charm osos, m as que j am ais se "am arrava". Essa fantasia era um com plexo acobertam ento de um a terrível e profunda solidão — um a solidão provinda de sua incapacidade de soltar-se e entregar-se a outro ser hum ano. A entrega era dem asiadam ente am eaçadora. Provocava-lhe a sensação de poder perder as fronteiras de sua própria personalidade.