Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 20 de 60

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Complexo de Cinderela

A reação feminina

Tais tem ores têm raízes num a profunda solidão infantil. A necessidade de am or não preenchida na infância pode fom entar um desej o passivo e potencialm ente destrutivo de entregar-se a qualquer um . Os pais de Abigail lhe tinham proporcionado todos os cuidados de que eram capazes, porém ela j am ais se sentira apoiada com o carecia. E nunca sentira que seus pais se im portassem verdadeiram ente com ela; se assim fosse, eles não teriam alim entado sua necessidade de crescim ento?

Era dessa m aneira que Abigail protegia sua necessidade íntim a e inconfessável. Contudo, ela tam bém nutria desej os agressivos de libertar-se dessa necessidade — de libertar-se dos homens, cuj a força tanto invej ava e de que tanto precisava — j ogava essa agressividade sobre os hom ens no em prego. Desdenhava o sr. Hollis, Esconde-Ovos, e qualquer outro que não lhe despertasse interesse rom ântico. Seu real pavor dos hom ens em geral era expresso em linguagem "m asculina" — em todo o seu com portam ento, aliás. Seria bom ser forte (com o os hom ens), segura (com o os hom ens), não facilm ente explorável. Não vulnerável e insegura. Com o as m ulheres.

 

A reação feminina

 

O m edo há m uito vem sendo considerado um com ponente natural da fem inilidade. Ter m edo de ratos, do escuro, de ficar só — são tem ores considerados norm ais em m ulheres, m as não em hom ens. Finalmente os psicólogos e cientistas sociais começaram a sustentar que a fobia, ou medo irracional, não é mais "normal" ou sadia nas mulheres do que nos homens. E no entanto ela aparece m ais freqüentem ente entre as m ulheres. Perplexa pelo núm ero de pacientes fóbicas que procuram seu consultório em Nova York, Alexandra Sy m onds diz que, se por um lado dão a im pressão de tem erem ser controladas por outrem , na realidade essas m ulheres receiam é tom ar o controle de suas vidas nas próprias m ãos. Tem em dar um cunho e um a direção pessoais à vida. Tem em o m ovim ento, a descoberta, a m udança — qualquer coisa incom um e desconhecida. E o que m ais as debilita é seu m edo da agressividade norm al e da assertividade.2

As m ulheres experim entam m uito m ais m edo do que deveriam . Com o ele cam inha lado a lado com a dependência, faz-se essencial um a boa análise do que constitui a reação fóbica. As m ulheres perdem m uita coisa sim plesm ente com a finalidade de evitar e reduzir o m edo. Vivian Gold, um a psicóloga que clinica em San Francisco, conta ser procurada por pessoas do sexo fem inino com todo tipo im aginável de tem ores. "Elas têm fobia de sair, fobia de envolvim entos interpessoais, fobia de tom ar iniciativas em seus relacionam entos — fobia em relação a toda espécie de coisas."

A intensidade do m edo que assalta as pacientes da Dra. Gold nem sem pre transparece de im ediato, o que se deve a dois fatores. O prim eiro deles é o fato de considerar-se apropriado certo grau de m edo e evitação nas m ulheres; o segundo, a dor inerente ao m anej o do m edo e da evitação. "Em geral eles não aparecem durante o prim eiro ano de tratam ento", diz ela. "No com eço, as pacientes preferem falar de problem as em seus casam entos, ou da tom ada de decisões quanto à carreira. Som ente bem m ais tarde é que vem à luz seu pavor da solidão. Algum as nem conseguem passar um a noite sozinhas."

"A fobia de m uitas m ulheres tem raízes no fato de elas terem tido pais super-protetores", diz Ruth Moulton, "pais que atem orizavam as filhas proj etando sobre elas suas próprias ansiedades. Pais que diziam às filhas que não deviam sair com hom ens desconhecidos, que deviam voltar para casa cedo, que, se não tom assem cuidado, seriam estupradas." (É óbvio que existem m otivos concretos pelos quais se deve ensinar as m eninas a serem cautelosas; todavia, os efeitos patológicos de todos os avisos e am eaças feitos na infância indicam que um a educação de m assa com vistas à auto-defesa seria um instrum ento m ais construtivo do que fom entar a crença de que a j ovem tem que estar constantem ente em guarda se quiser sobreviver.)

A vida da m ulher fóbica tende a ser levada em círculos concêntricos cada vez m enores. Aos poucos, am igos e atividades são abandonados. Aquela que nos tem pos de escola adorava esportes transform a-se num a m atrona totalm ente sedentária. Esquiar é m uito arriscado. ("Pode-se quebrar a perna", diz ela consigo m esm a, acreditando estar sendo sensata.) Até o tênis fica fora, pois certas j ogadas podem ser agressivas dem ais. Viaj ar pode se tornar um problem a. Os aviões são um perigo. "Os pilotos costum am estar em briagados", diz ela, acenando com os m ais recentes dados estatísticos de acidentes aéreos. Qualquer um com a cabeça no lugar teria m edo de voar. (É claro que não ocorre à m ulher fóbica que voar é um sím bolo de separação do príncipe encantado, sej a ele quem for, com quem ela conta para cuidar dela.) Às vezes a reação fóbica força as m ulheres a evitarem atividades aparentem ente inócuas, tão inócuas que m ais se adivinharia que o m edo estava no fundo do problem a. Muitas das m ulheres com quem conversei contaram que pararam de ler depois de terem tido filhos. "Sim plesm ente não dava m ais tem po", era a explicação usual. "Depois tornou-se um a espécie de hábito. Meu m arido passava o tem po todo lendo, m as eu não; m eus filhos cresceram , saíram de casa, e, sei lá por que, nunca m ais retom ei o hábito da leitura. Em lugar disso, tricô e televisão." Essas m ulheres evitavam ler porque a leitura é um a viagem — um a viagem para longe de casa e do m arido, um viaj ar só. Ler era um a das diversas atividades "abandonadas", m as experim entadas pelas fóbicas com o tendo m eram ente desaparecido de suas vidas. Algo que acabou sem ser questionado. As form as m enos agudas de fobia são bem m ais com uns — e tam bém m ais dificilm ente identificáveis com o irracionais. Exem plo delas é o m odo com o as m ulheres se refugiam no lar. É fácil usar a alternativa dom éstica com o proteção contra as vicissitudes de um m undo que nos assusta. "Gente dem ais m e inquieta", diz a escritora Anne Flem ing, j ustificando por que prefere ficar em casa. "A idéia de estar num a redação de j ornal cheia de m áquinas de escrever tinindo m e intim ida. Não quero sentir o m edo dos outros tentando sobreviver num circo profissional. E certam ente não quero que ninguém vej a o meu m edo." Um a m ulher que conheci e que se sustentou até os trinta e três anos, idade com que se casou (e abandonou o em prego com o se tivesse recebido um seguro de vida inextinguível), agora está pensando em voltar a trabalhar e construir um a nova carreira. Está igualm ente considerando deixar o m arido — idéia que vem acalentando há anos, m as que aparentem ente a aterrorizava. Ela m e disse o seguinte: "À noite fico deitada na cam a, olhando para o teto. E aí m e assalta um tem or de que ele vá se abrir e m e aspirar, engolindo-m e". A sim ples idéia de voltar a viver por sua conta a apavora. Andando pela rua, ela às vezes tem a sensação de que os edifícios vão tom bar sobre ela. Ao passo que o casam ento parece provocar o surgim ento da fobia em algum as m ulheres, o divórcio efetua o m esm o em outras. "Descobri que tinha um núm ero enorm e de pacientes que passaram a isolar-se e m ostrar-se atem orizadas após um divórcio pedido por elas", disse-m e Ruth Moulton, que prossegue dizendo que essas m ulheres sofrem de "um a necessidade com pulsiva de ter um hom em ". De fato, todas as suas pacientes que apresentavam fobias com partilhavam a m esm a ilusão: "Se ao menos houvesse um homem em casa — mesmo que dormindo, bêbado ou doente —, seria melhor do que estar só".