Complexo de Cinderela
Confusão em Atlanta
Esse m ito é particularm ente prevalecente entre m ulheres da classe m édia. Com lentes cor-de-rosa nos olhos, continuam a procurar em pregos com o que num a espécie de experim ento, com o que de brincadeira. Languidam ente, acom odam -se em em pregos de tem po parcial, em pregos destinados a "alargar seus horizontes" ou a perm itir-lhes "sair de casa e conhecer gente". Destacam -se certas donas-de-casa da classe m édia alta que absolutam ente não sabem o que fazer com as oportunidades que se abrem à sua frente, e aleatoriam ente "decidem " cultivar sua beleza e seu conforto o m áxim o possível, pois o futuro — por m ais interessante que possa parecer — m ais as atem oriza do que fascina. Tive ocasião de conhecer um grupo de donas-de-casa assim num j antar em Atlanta, Geórgia.
Eram m ulheres esguias e elegantes, de seus trinta e poucos anos. Atraentes e vivazes, tinham por m aridos hom ens bem -sucedidos: corretores do m ercado de ações, um burocrata do governo estadual, um professor de psicologia de um a universidade local. Um a das m ulheres, a quem cham arei Paley, ainda correspondia à im agem das j oviais rebeldes sulistas da Secessão. Outra, Helen, im igrara recentem ente para o sul, vinda de Cam bridge. Ly nann sem pre vivera em Atlanta, e assim era feliz. Essas m ulheres diziam sentir certo grau de frustração em suas vidas — os filhos j á estavam na universidade, ou prestes a ingressar nela. Mostravam -se, contudo, letárgicas quando vinha à baila o assunto trabalho. Falavam sobre seus desej os de obter em pregos "fáceis": em pregos de poucas horas de trabalho e que pagassem bem . Os j ogos de bridge j á as tinham enfastiado, diziam (em bora ainda freqüentassem o clube). Até então, Paley era a única dentre elas que chegara a conseguir um em prego. "Trabalho num pequeno restaurante naturalista no fim da rua de m inha casa", contou. "São poucas horas por sem ana, m as com as gorj etas acabo ganhando por hora m ais do que m eu m arido!"
As outras riram . Dinheiro nunca fora problem a para Paley. Ela vinha de um a pequena cidade da Geórgia onde todos se conheciam e todos eram ricos. Agora vivia em Atlanta com a m esm a disposição "intrépida" de seus tem pos de faculdade na velha Universidade do Estado da Geórgia. Após o j antar, o tom da conversa pareceu m udar. As m ulheres deixaram os hom ens sentados na sala de j antar com m obília tipicam ente sulista e reuniram -se em um canto da sala de estar, onde passaram a falar sobre a aridez de suas vidas. Constrangidas, faziam piadas sobre com o tudo o que discutiam girava em torno de "detergentes, cera para o chão e gom a para os colarinhos das cam isas dos m aridos". Não havia diferença algum a entre essas m ulheres e as descobertas por Betty Friedan vinte anos antes em seu estudo com as form andas do Sm ith College que desesperavam com a vida levada nos subúrbios requintados do nordeste do país. Só que não estávam os em 1960, m as em 1980. E aquelas m ulheres ainda não estavam enlouquecendo de frustração. No m ínim o levavam vidas confortáveis dem ais: alm oços no clube de cam po, carros m odernos, inúm eras festas. Apenas um resíduo de seus dias de faculdade recordava-lhes terem tido um dia um a diferente visão de si m esm as, terem se sentido livres, terem "curtido a vida" e se im aginado fazendo coisas. A com odidade de suas vidas de casadas dificultava-lhes "com eçar de baixo". "Trabalhar para alguém não é com igo", com entou Ly nann, acrescentando que o m aior proveito que tirara de trabalhar fora o reconhecim ento de que não desej ava em pregar-se com o subordinada. "Quero algum a coisa a nível de gerência. Quero ser eu a dar as ordens." (Ao que as dem ais riram novam ente.) E ela consideraria a hipótese de fazer pós-graduação a fim de realizar seu sonho? Bem , não, nem tanto. Estava interessada num "cursinho" de que ouvira falar e que lhe proporcionaria "certos instrum entos e form as de m e apresentar de m odo a parecer sabida". (Mais risadas.)
Paley não era cega quanto à estrutura social em que estavam entrincheiradas. "Para m uitas m ulheres de Atlanta, a questão de honra é ainda quanto o m arido ganha e quanto ele pode oferecer a ela", disse. "O que conta é: que tipo de carro ele lhe dá? Você tem em pregada ou babá? Vocês têm dinheiro para viaj ar?" Ainda pairava o problem a da aridez e do tédio. O que faziam para preencher as horas vazias em que não estavam fazendo com pras ou levando os filhos ao colégio? Liam rom ances. Em tom de gozação (para m ascarar o em baraço geral), com eçaram a classificar os autores dos rom ances m ais vendidos na época por seu m érito literário. Todas m ergulharam no j ogo. "Quanto tem po vocês realm ente passam lendo?", perguntei. Paley — de cabelo tingido de ruivo e frisado, unhas im pecavelm ente m anicuradas — respondeu: "Leio sem parar. Passo diversas horas por dia lendo. Fico tão absorta que nem percebo quando m inha filhinha entra na sala. Às vezes ela chora e nem a ouço".
Essas são as representantes das m ulheres "bem -cuidadas": j ovens, atraentes, "felizes" — e seguras. Presum em que a dependência financeira é um direito seu por serem m ulheres. Em troca, devotam -se à casa, orgulham -se de sua habilidade em lim par, organizar, receber e criar filhos. Mas no íntim o, sem se darem conta, têm que se reportar à "agenda" auto-estabelecida: evitar, quase ritualisticam ente, qualquer reconhecim ento da esterilidade de suas vidas. Não pensam sobre o que aconteceria se seus casam entos se desfizessem . É claro que o divórcio existe. Ele é tão com um à sua volta! E, pensam elas, as m ulheres vítim as dele m ostram -se m uito coraj osas no m odo com que tentam reunir os cacos de suas vidas. Mas, para m ulheres que se resguardam dentro de um papel definido, o divórcio está longe de ser realidade. O divórcio é para as outras, para m ulheres que são... bem , não tão afortunadas... ... Com o o câncer. Ou a m orte.