Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 2 de 60

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Complexo de Cinderela

O Colapso da Ambição

Aconteceu quando eu tinha trinta e cinco anos. Um a série de eventos levou-m e à conscientização de sentim entos j am ais reconhecidos antes, sentim entos de incom petência tão am eaçadores à m inha segurança que eu faria qualquer coisa para, através de m anipulação, conseguir que alguém tocasse o barco quando as coisas pioraram . Isto é, quando as exigências da vida com eçaram a assum ir um a corporeidade real, conseqüencial e m adura, diversa das incursões de um a m enina precoce por um m undo de j ogos ilusórios. Descasada havia anos, com três crianças pequenas a sustentar sozinha, eu estava para adentrar um período de crescim ento notável. Estranham ente, a dor do processo foi redobrada pelo fato de eu estar apaixonada.

 

O Colapso da Ambição

 

Em 1975, deixei Nova York e o que fora um a solitária luta de quatro anos para sustentar a m im e às crianças, e m udam o-nos para um a pequena com unidade rural no vale do Hudson, cento e cinqüenta quilôm etros ao norte de Manhattan. Eu conhecera um hom em que parecia ser um com panheiro perfeito: estável, inteligente e incrivelm ente engraçado. Tínham os alugado um a casa grande e aconchegante, com j ardins e árvores frutíferas. Em m inha nova euforia, acreditei que tanto poderia ganhar a vida escrevendo na aldeia de Rhinebeck quanto na m etrópole de Manhattan. O que eu não havia previsto — o que eu não pudera prever — era o espantoso colapso de ambição que eclodiriaassim que eu estivesse novamente vivendo com um homem.

Sem qualquer decisão consciente ou reconhecim ento do fato, m inha vida m udou radicalm ente. Até então, todos os dias eu passava horas a fio escrevendo, desenvolvendo um a carreira iniciada dez anos antes. Em Rhinebeck, m eu tem po parecia ser consum ido em tarefas dom ésticas — e que felicidade eu auferia delas! Após anos de j antares à base de enlatados, pois estava sem pre ocupada dem ais para cozinhar, voltei a instalar-m e na cozinha. Seis m eses depois eu engordara cinco quilos. "Isso é saudável", pensava eu, estranham ente satisfeita com a m udança. "Estam os todos bem m ais à vontade." Com ecei a usar cam isas xadrez e m acacões largos. Estava sem pre ocupada com pequenas coisas: trocando a terra de um a j ardineira, acendendo a lareira, olhando pela j anela. O tem po parecia voar. Os lindos dias de outono transform aram -se em inverno e, encapotada e com botas, passei a cortar lenha. Dorm ia bem , sem sonhar, em bora achasse difícil levantar-m e de m anhã. Não havia nada que m e com pelisse a crescer.

Minha nova fuga para o lar deveria ter sido m ais desconcertante do que foi — um sinal. Afinal de contas, eu era capaz de m e sustentar; de fato, eu o vinha fazendo havia quatro anos. Ah, m as tinham sido quatro anos de sufoco; quatro anos em que, dia após dia, eu m e sentia encostada contra um a parede. O pai das crianças estava doente dem ais para poder aj udar financeiram ente, de m odo que eu m e acostum ara a pagar todas as contas. Mas vivera assustada praticam ente todo o tem po, com m edo da alta do custo de vida, com m edo do locatário, com m edo de não conseguir perm anecer lá e m anter-nos vivos m ês após m ês, ano após ano. O fato de duvidar de m inha com petência não m e parecia estranho nem incom um . Pois a m aioria das "m ães solteiras" se sentiam assim , não? Portanto, a m udança para o cam po naquele inesquecível outono teve o sabor de m oratória daquilo que eu concebia um tanto vagam ente com o "m inha luta". A sorte m e devolvera a um a outra espécie de lugar, um espaço interno não diverso daquele habitado por m im quando criança — um universo de tortas de cerej a, colchas de retalhos e vestidos de verão recendendo a ferro de passar. Agora eu tinha um vasto terreno, flores, um a grande casa com vários côm odos, poltronas confortáveis, recantos aconchegantes. Sentindo-m e segura pela prim eira vez em anos, dediquei-m e a preparar o tranqüilo dom icílio segundo as "lem branças encobridoras" dos aspectos m ais positivos de m inha infância. Construí um ninho, forrando-o com o m elhor algodão e a m ais m acia lã que pude encontrar. À noite eu preparava grandes refeições e dispunha-as com orgulho sobre a alva toalha de um a verdadeira sala de j antar. Durante o dia lavava e passava, revolvia a terra e adubava-a. Depois do j antar, querendo sentir-m e útil, datilografava os m anuscritos de Lowell para ele. Interessante que, apesar de ser escritora profissional há dez anos, tinha a sensação de que a coisa certa para m im era secretariar o trabalho de outrem . Aquilo era o... correto (agora sei que isso significava "confortável" e "seguro"). Isso durou m eses. Lowell escrevia, dava telefonem as e conduzia seus negócios de sua grande escrivaninha em frente à lareira. Eu preenchia m eu tem po aplicando papel de parede no quarto de m inha filha. De vez em quando eu m e sentava à m inha m esa e tentava produzir algum a coisa, folheando papéis e esforçando-m e por concentrar a atenção e organizar os pensam entos. Acabava sentindo-m e frustrada, pois parecia-m e ter perdido a inspiração, e replicava m entalm ente: "Mais dia, m enos dia isso tudo m uda". É óbvio que isso era falso. Sem que eu m e apercebesse disso a nível consciente, m inha auto-im agem havia se m odificado radicalm ente. Idem quanto às m inhas expectativas com relação a Lowell. Em m inha cabeça, ele se tornara o provedor. E eu? Eu estava descansando daqueles anos de luta — levada a cabo m eio contra m inha vontade — pela responsabilidade de m inha vida. Que m ulher liberada poderia im aginar um a coisa dessas? No m om ento em que a oportunidade de encostar-m e em alguém se apresentou, parei de m over-m e para a frente. Chegara a um beco sem saída. Não decidia m ais nada, não ia a lugar algum , nem m esm o para ver am igos. Naqueles seis m eses fui incapaz de entregar um só trabalho na data m arcada, quanto m ais batalhar por novos contratos com editores. Sem nem um adeus, eu m e refugiara no papel tradicional da m ulher: o de aj udante. Secretária. Copista. Datilografa dos sonhos de outrem .