Complexo de Cinderela
E então?
Mulheres que não se queixam , m ulheres estóicas e "fortes" perante casam entos que não as nutrem adequadam ente em geral são m ulheres com um grau doentio de dependência. Com o esposas, são incapazes de enfrentar os m aridos, porque, para fazê-lo efetivam ente, teriam que provar seus próprios sentim entos de raiva ou hostilidade, e isso seria por dem ais perigoso. São m ulheres que am am não por um a escolha nascida de um a força íntim a — um a ternura e um a generosidade facilm ente ofertadas porque se sentem inteiras e dignas de estim a. São m ulheres que "am am " porque têm m edo de viver sós.
E então?
A dependência é auto-ativadora. No fim , a m ulher dependente se encontra num a posição de real escravidão. Hum ilhada, só conta com seu "opressor", o hom em de quem depende. A essa altura ela acha difícil, se não im possível, olhar para dentro de si. "Ele é o responsável por eu não ter um a vida própria", consola-se consigo m esm a.
Mareia Goldstein, um a psicoterapeuta de Berkeley, Califórnia, especializou-se em terapia de casais, com a qual os aj uda a elaborar seus relacionam entos am algam ados, sim bióticos. Às vezes seus clientes acabam perm anecendo j untos, capacitados a construir um a vida m ais gratificante e a perm utar m ais am or e m enos ódio entre si. Às vezes term inam por se separar. Entretanto, com o denota a seguinte "história", a dissolução de um relacionam ento que oferece pouco m ais que um a dependência de total fusão entre am bos os parceiros não será necessariam ente devastadora para eles. Ela pode verdadeiram ente constituir um cam inho para a liberdade.
O hom em desta história (vam os cham á-lo de Al) tinha um histórico de entrada em relacionam entos antes de estar realm ente pronto para tal. "Um tipo agressivo-passivo, ele parecia capitular a tudo e m ais tarde ressentir-se disso", contou-m e a terapeuta.
A m ulher, a quem denom inarem os Ly n, era um a pessoa ativa, extrovertida, era professora e adm inistradora escolar.
Durante os quase quatro anos em que esteve envolvida com Al, sua eficiência e autoconfiança esgotaram -se, fazendo-a parecer um a pessoa diferente da que fora "antes de Al", com o notavam seus am igos. Quanto m ais ela se aproxim ava de Al, m ais ele se fechava. Ele reclam ava de ela estar se introm etendo em sua vida; ela recuava novam ente, ferida em sua auto-estim a. Artista frustrado, Al ansiava por um a chance de verificar se realm ente conseguia vencer em arte com ercial. Ly n encoraj ava-o a trabalhar em seu estúdio à noite, e ficava por perto esperando-o, "no caso de ele querer um lanche ou qualquer outra coisa". Al, sentindo a presença dela, sentia-se asfixiado. Al e Ly n tinham verdadeiram ente se tornado "duas figuras cinzentas presas num a repetitiva dança m ortal". A tensão em ocional produzida pela tentativa de conter a raiva e a m ágoa extenuava a am bos. Al estava sem pre brigando para obter algum "espaço" para si m esm o, onde teria a espécie de quietude que lhe perm itiria trabalhar de m odo livre e espontâneo. A verdade, porém , era que intim am ente ele tem ia libertar-se, pois não desej ava experim entar a solidão; assim , externava isso recrim inando Ly n pelo problem a. Ly n, por seu lado, assustava-se com o distanciam ento de Al. A existência dele com o um ser separado — um indivíduo diferente dela — era sentida com o a aniquilação de sua união. "Em casais adultos fundidos", observam Wexler e Steidl, "o parceiro é visto com o sendo o m undo todo, e inteiram ente responsável pelo bem -estar ou a infelicidade do outro. Se por acaso as necessidades de am bos os parceiros se harm onizam , o m undo vai bem . Se, contudo, um dos parceiros não corresponde ao esperado, o relacionam ento vai m al. A m anutenção de um relacionam ento sim biótico requer que am bos os parceiros fiquem precisam ente onde estão. Não há lugar para crescim ento ou m udança num a transação tão rígida. Por fim , um ou outro pode detonar a bom ba exigindo m ais, expressando seu desapontam ento ou sentindo-se am eaçado. De acordo com o relato da terapeuta, isso é o que estava ocorrendo com Ly n e Al. Em bora conscientem ente Ly n sentisse estar sendo razoável e m adura, na realidade estava terrivelm ente perturbada pelo fato de Al passar as noites sozinho em seu estúdio. "Quando a outra pessoa não está presente", Wexler e Steidl explicam , "a relação é sen¬tida com o perdida, e isto é experim entado com o a perda do próprio eu. A verdadeira dependência é interpretada com o união." Com o sair de tal prisão?
"Ly n e Al experim entaram um a separação por três m eses", contou-m e Mareia Goldstein. "Era um a coisa que eu j á tinha feito com outros casais — um a oportunidade de rom per a estrutura, dar-lhes um espaço para respirar e, possivelm ente, um a nova perspectiva de si m esm os. No prim eiro m ês eles vivem separados, m as m onogam icam ente, concentrando-se no desenvolvim ento de suas vidas individuais. No segundo m ês eles podem ser não-m onogâm icos; se desej arem , podem utilizar esse período para experim entar a possibilidade de um outro tipo de relacionam ento. No terceiro m ês, de novo a m onogam ia — um período para que eles possam reavaliar e determ inar o que têm e o que não têm em seu relacionam ento."
Ao térm ino dos três m eses, a terapeuta pediu a Ly n e Al que decidissem independentem ente o que desej avam fazer — se queriam separar-se ou perm anecer j untos.
Na prim eira sessão de Ly n após a separação experim ental, ela apresentou o que sua terapeuta descreve com o "a clássica reação dependente". "Com eçou dizendo que sabia que ia dem orar, m as que realm ente am a Al e sabe que ele realm ente a am a, e m esm o apesar de ele ter estado distante, se ele estivesse disposto a tentar, então ela estaria disposta a tentar — blablablá. Tudo soa m uito razoável e sen¬sato, m as m ascara sua crença de não conseguir ir adiante sem Al." De fato, a essa altura Ly n não tom ara nenhum a decisão; estava agarrando-se desesperadam ente ao "relacionam ento".
Entrem entes, a terapeuta j á vira Al e sabia que ele tinha resolvido separar-se de Ly n. Com o Ly n, com toda a sua dependência do am ante, receberia isso? "Na verdade, sob sua superficial preocupação com Al, m uita coisa acontecera na vida de Ly n", prossegue o retrato de Mareia Goldstein. "Ela arranj ara um em prego m elhor. Tam bém , e isso era m uito im portante, tivera bem m ais contato com am igos durante a separação — am igas e até alguns antigos nam orados. Haviam passeado, feito piqueniques, tido boas conversas. Com o tantas m ulheres dependentes, Ly n havia previam ente se trancado dentro da relação com o am ante. Ela chegara ao ponto de nem m esm o conseguir se relacionar com outras pessoas."
Ly n ainda se sentia profundam ente dependente de Al, m as essa era m ais um a convicção baseada em velhas idéias sobre si m esm a do que na realidade de sua nova vida. "Sabendo que Ly n com eçara a desenvolver um sólido sistem a de auto-sustentação, perguntei-lhe se estava disposta a retom ar o relacionam ento com Al incondicionalm ente. Ela pensou um pouco e disse: 'Não. Se ele continuasse a m e culpar, se continuasse a m e acusar de ser a única razão de ele não conseguir fazer sua arte, se sentisse estar m e fazendo um favor ficando com igo, então não, eu não o aceitaria'.
Quando Ly n com pareceu à sessão seguinte j unto com Al, estava num estado em ocional descrito por Mareia Goldstein com o "coraj osam ente vulnerável". Em essência, ela disse a Al: "Não vou m entir para você; j á passam os por m uita coisa j untos para eu fingir agora". Prosseguiu depois: "Este relacionam ento significa m uito para m im , em parte com o história de vida, em parte devido ao hábito, m as principalm ente porque gosto de você. E se eu pudesse tê-lo querendo m anter a relação, se eu pudesse realm ente ter você, ter você inteiro, e com o com prom isso de que ainda tentaríam os viver cada um a própria vida — se você estivesse disposto a fazer tudo isso, então eu desej aria o relacionam ento. Mas se você hesitar um m ínim o que sej a e não quiser, m uito em bora sej a doloroso, estou realm ente pronta a separar-m e".
"Al disse a Ly n que não poderia fazê-lo", prossegue Marcia, "não poderia lhe dar o que ela desej ava, e os dois se separaram ali m esm o, em m eu consultório. Achei isso lindíssim o. Foi o atestado de quebra da dependência de Ly n." Desde a separação, Ly n tem sido "m ais terna, m ais vulnerável e m ais am orosa para com os am igos", conta a terapeuta. E está se preparando para um a viagem à Europa. "Isso é um a coisa im portante; quando as pessoas realm ente quebram a dependência, fazem -no de m odo positivo. Elas experim entam o lado da liberdade da independência, em vez do lado do isolam ento. Se ainda se sentem dependentes, não im porta o que estej am fazendo, então experim entam o isolam ento, a auto-piedade: 'Estou com pletam ente só no m undo, destinado a nunca m ais ter alguém , nunca m ais ser feliz'. Ly n, ao contrário, diz a si m esm a: 'Não preciso m e preocupar se ele m e am a ou não. Posso ir para a Europa por três m eses; aí, quando voltar, posso arrum ar m inha casa, ou m udar-m e, e progredir em m eu em prego'. Esse é o verdadeiro barôm etro indicativo de um a libertação da de¬pendência: se você não tem essa espécie de energia, essa espécie de confiança, então você ainda não se libertou."