Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 30 de 60

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Complexo de Cinderela

A oposição de obstáculos à filha adolescente

É nesse ponto que as m eninas se defrontam com o que certam ente se afigura o problem a central da fem inilidade em nossa cultura: o conflito entre dependência e independência. Qual o m eio-term o ideal entre am bas? O que é "certo"? O que é "apropriado"? Um a m enina extrem am ente dependente, sem opinião própria e sem "personalidade", é considerada boboca e chata, m as um a m enina extrem am ente independente tam bém não é um bom negócio. Pode até ter vários am igos, m as, nos assuntos rom ânticos, eles se retraem . Nenhum a garota que cresceu em nossa sociedade precisa ser avisada disso: ela o sabe. E, portanto, passa a m odificar suas prioridades. Na adolescência, sua tarefa desenvolvim ental básica torna-se conseguir relacionam entos "bem -sucedidos" com os outros. De acordo com seu aprendizado na infância, ela prossegue dependendo das reações dos outros com o sua fonte básica de auto-estim a. Perto do final do curso colegial ou então na faculdade, diversas j ovens repentinam ente m andam seus valores individuais às favas, rej eitando o fator realização pessoal em favor de um a alarm ante corrida à aceitação social. A conseqüência é evidente: um a interrupção abrupta na tarefa de desenvolver m eios individuais de obter o desej ado e fazer-se autônom a. Devido ao enquadram ento que lhes reserva a sociedade, as m ulheres deixam de experim entar a necessidade de desenvolver a autonom ia, até que algum a crise posterior faça ruir sua com placência, m ostrando-lhes quão tristem ente indefesas e frágeis elas se perm itiram ser.

 

A oposição de obstáculos à filha adolescente

 

Dentre os fatores determ inantes da vida da adolescente, um dos m ais significativos é a fam ília específica a que ela pertence. Ali, entre as quatro paredes da sala de estar de m am ãe e papai, ela será encoraj ada a rom per com o enquadram ento e tornar-se um indivíduo único, ou aprenderá a m ontar o j ogo da segurança.

Exam inando as histórias da infância das pacientes que se tornaram profissionais bem -sucedidas, Ruth Moulton percebeu certas tendências fundam entais na form a com o cresceram . Em geral o pai aparece com o agente repressor dos atos independentes da filha, e a m ãe se cala. Das conflitantes expectativas dos pais em erge a m ulher inteligente, ávida por realizações e em geral desem penhando atividades abaixo do nível de seu potencial.

Prim eiram ente, tom em os a m ãe do tipo "indefinido". Ela própria há m uito tem po restringiu seu desenvolvim ento, assum indo um a posição de inferioridade perante o m arido. Sua postura subm issa recobre-a com o que um a filha descreve com o "um ar de insignificância e efem eridade". Um núm ero espantoso de m ulheres a quem entrevistei concluiu, quase se desculpando: "Não sei dizer m uito sobre m inha m ãe. Há nela algo de vago que m e im possibilita um a definição concreta". Um a m ulher que está fazendo pós-graduação em psicologia e em terapia, após consideráveis progressos na dissolução de sua dependência, ainda se vê às voltas com a aparente falta de substância com que sua m ãe se lhe afigura. "É estranho, considerando que ela ainda vive e que nos vem os com relativa freqüência. Sim plesm ente não consigo um a visão clara do que ela é — ou daquilo em que consiste nosso relacionam ento. Acho que nunca consegui isso." Outra m ulher descreveu o "vazio" experim entado durante seu crescim ento, a lacuna em seu relacionam ento consigo própria enquanto entidade fem inina. "Meu pai era a pessoa que dirigia m inha vida. Agora que tenho filhos, m uitas vezes olho para trás e m e pergunto: Onde é que m inha m ãe estava naquela época? Por que ela deixou m eu pai dom inar tudo? Será que ela não se im portava, ou era sim plesm ente um a pessoa fraca?

"Meu pai era o centro", conta um a pintora do Missouri que sem pre fracassa quando se com prom ete a apresentar seus quadros em exposições. "Minha m ãe era definida por ele. Se ela se com portava bem , ele lhe dava am or, presentes e cuidava dela — ela era um a rainha. Ele realm ente cuidava dela. Ela se com portava bem ; ela era um a ótim a dona-de-casa. E ele cum ulava-a de presentes o tem po todo."

"Ela era inteligente?", perguntei.

"Não sei", a m ulher respondeu. "Penso que deve ter sido, em algum a época anterior de sua vida. Mas ela parou de pensar." Um a das razões pelas quais a m ãe persiste sendo um a figura obscura é o fato de ter sido intim idada pela personalidade vivaz e poderosa do m arido. A m ediadora — um a espécie de m eia pessoa que escolhe a segurança de participar com o um dos elem entos de propriedade do m arido — assim se protege dos aspectos m ais abrasivos da vida no m undo. Grandes lutas, a disputa aberta pelo poder — estas não eram características do relacionam ento da m enina com a m ãe indefinida. Pode até ter existido algum tipo de calm a estagnada, um a aura de paz (falsa, pois m ascarava o paralisante paradoxo nuclear: "Mam ãe sem pre estava presente — ah, sem pre, eternam ente presente. Mas ao m esm o tem po ela não estava presente!"). Sem consciência disso, a m enina produto de um a fam ília assim cresce desligando-se cada vez m ais do que os psicólogos rotulariam com o seu "núcleo fem inino".

"Sentia-m e culpada todo o tem po", foi o que m e contou um a executiva de um a agência de publicidade nova-y orkina. "Eu vivia com culpa por j am ais m e sentir fem inina. Meu pai m e encoraj ava a levantar o nariz, a usar sapatos de salto alto e m e dar ares de 'dam a', m as eu não queria parecer um a dam a. Tinha algo a ver com o fato de m inha m ãe ser um a 'dam a', e acontece que ela não passava de um a apaziguadora. Mam ãe não exige nada; ela não questiona nada; não quer saber de nada."