Complexo de Cinderela
Desfazendo o nó
A ineficácia resultante da tensão interna geralm ente se revela tam bém na form a com que nos relacionam os com as pessoas. Se, por exem plo, um a m ulher desej a afirm ar-se, m as quer igualm ente subordinar-se ao outro, ela acabará agindo de m odo hesitante.
Se ela precisa pedir algum a coisa, m as tam bém sente que deve im por seu desej o sem passividade, poderá soar autoritária.
Se ela desej a ter sexo, m as tam bém tem um desej o íntim o de frustrar o parceiro, terá dificuldade em atingir o orgasm o. Ela pode j ogar a culpa de alguns ou de todos os seus problem as no trabalho excessivo, na falta de sono, na "pouca resistência" ou no que for; contudo, seu estado provavelm ente tem m uito m ais a ver com as contracorrentes de conflito que atuam em seu interior.
Desfazendo o nó
A resolução de um conflito requer m ais do que a sutura das várias fendas e rupturas que dividem um a pessoa. A resolução im plica a procura das causas desencadeantes do conflito, de m odo que a necessidade de cisão caia por terra. Com o fazer isso? Prestando atenção detalhada em si m esm a. Não perm itindo que nada se passe sem um exam e m eticuloso dos m otivos, atitudes e m odos de conceituar as coisas. Ao surgim ento de um fio — algum a pequena atitude inusitada ou algum traço com portam ental percebido e aparentem ente em contraposição com o resto de sua personalidade —, siga-o. Não diga: "Ah, isso é apenas um a pequena inconsistência em m inha m ente; isso não faz parte de m inha identidade". Faz. E, se perseguir e analisar suas inconsistências, terá o cam inho para a raiz básica do conflito subj acente. Você pode vir a notar, por exem plo, que oscila entre extrem os — que, digam os, vacila entre ser severa consigo m esm a e ser auto-indulgente. Você pode vir a reconhecer que hesita entre esnobar os outros e acreditar secretam ente na superioridade deles. Ou que sua necessidade de subestim ar-se prej udica sua capacidade de com petir com êxito, ao passo, que, sim ultaneam ente, sua necessidade de triunfo sobre os outros assum e a intensidade de um a com pulsão. Note especialm ente com o você oscila entre arrogar-se todos os direitos e o sentim ento de que não tem direito a nada no m undo. (Em lugar de ter pena de si m esm a por este últim o sentim ento, suspeite de si m esm a com relação ao prim eiro. Arrogar-se todos os direitos equivale a precisar ter tudo a seu m odo — característica evidente de um a personalidade dependente.) O ponto em questão é o seguinte: "inconsistências" de personalidade não são necessariam ente aberrações irrelevantes; de fato, elas provavelm ente refletem cisões básicas em sua personalidade. Observe-as fria e obj etivam ente, sem censurar-se por ser m enos que perfeita, e elas a conduzirão à percepção de aspectos fundam entais e previam ente não reconhecidos de quem você é. Enfrentando — e aceitando — essas suas partes desconhecidas, você acabará descobrindo um novo "eu" integrado e poderoso.
Em m eu caso, foram estranhas discrepâncias em m inha atitude com relação ao dinheiro que finalm ente revelaram distorções básicas em m eus relacionam entos com outrem . Vou contar com o segui os fios enovelados de m eu problem a quanto ao dinheiro, até chegar ao gigantesco nó que havia anos se vinha em baraçando ao redor de um distúrbio de caráter central: o desej o de ter alguém que fizesse o trabalho pesado por m im ; o desej o de ser salva. Com o descrevi no capítulo I, uns cinco anos depois de m eu casam ento se dissolver (e um ano após eu ter m e j untado a Lowell), descobri, um tanto vexada, que não queria ter nada a ver com dinheiro. No fundo, eu seria perfeitam ente feliz vivendo com um a m esada. Aliás, durante quase dois anos foi exatam ente assim que vivi. Lowell pagava todas as contas; tom ada de um a incôm oda inquietude, eu não ganhava quase nada. Minha conta no banco local estava praticam ente sem pre a zero. (Correspondentem ente, ia a zero m inha auto-estim a.)
O conflito se configurava assim : por um lado, eu achava hum ilhante ter que ir a Lowell e pedir-lhe dinheiro toda vez que precisava m andar os sapatos para o conserto; por outro lado (foi aqui que tive que desem aranhar inúm eros fios do grande nó interno), a situação m ais m e agradava do que desagradava. Muitas brigas foram necessárias até que eu m e dispusesse a ouvir — e aceitar — o que Lowell m e dizia: que eu estava m e acom odando às custas dele, bem com o às m inhas; que existiam outras coisas m ais gratificantes, em term os de realização, que ele poderia estar fazendo com suas energias do que sustentar cinco pessoas. Por fim , não pude m ais ignorar a j ustiça de seus apelos. Entretanto, não era som ente a pressão de Lowell que m e estava colocando em conflito. Quanto m ais eu lhe perm itia carregar a responsabilidade por m eu bem -estar, pior eu m e sentia em relação a m im m esm a. Depois de grande luta interna, experim entando tam bém enorm es quantidades de raiva, afinal arrastei-m e para fora dessa "sarj eta" e com ecei a realizar alguns trabalhos produtivos. O dinheiro com eçou a entrar — m ais, aliás, do que eu ganhava antes. Todavia, o fato de eu ainda alm ej ar ser cuidada m ostrava-se na m aneira com o eu adm inistrava — ou m elhor, não adm inistrava — m eus novos ganhos. Eu sem pre pensara que, se tivesse o bastante, livrar-m e-ia do incôm odo de ter que adm inistrar esses fundos. Essa é um a atitude característica. Ah, se eu tivesse bastante dinheiro, opinava, nunca m ais teria de ficar fazendo continhas'. Nunca teria que controlar as coisas, adm inistrá-las, tom ar consciência delas; nunca teria que reconhecer com o tudo é terrivelm ente real.
Descobri que m eu m aior truque era evitar a conferência dos cheques que em itia. Desse m odo, eu nunca ficava sabendo do saldo. Quanto m ais deixava de controlar m eus débitos, m ais com plicava m inha vida. Sem saber com certeza quanto dinheiro possuía em dado m om ento, eu podia continuar a sentir-m e indefesa. Com o poderia avaliar se deveria gastar tanto em um novo par de botas, ou se teria m eios para pagar um seguro de vida? (Ou, se fosse o caso, com prar um seguro de vida?) A única im agem m ental que se m e im punha era a do últim o grande depósito que fizera (com o free-lancer, m eus depósitos eram grandes, se bem que irregulares). Sem levar em conta todos os cheques que pudesse ter em itido desde aquele depósito, eu apenas tinha na cabeça os, digam os, cinco m il dólares originais.
Mas de vez em quando um instinto de sobrevivência m e advertia: "Ei, é hora de prestação de contas". Em geral, chegada a hora em que eu m e forçava a calcular m inha situação financeira, o saldo, fosse qual fosse, funcionava com o um pedacinho de sabão na m ão de um a criança. Recusando-m e a cuidar de m eu pequeno tesouro, recusando-m e a protegê-lo, a colocá-lo num local seguro, a tocá-lo apenas quando necessário, eu invariavelm ente acabava lim itando-m e a ler as irrisórias sobras e perguntar: "Aonde é que foi todo esse dinheiro?" A recusa em lidar com dinheiro funcionava tanto com o um sím bolo do m eu ser indefeso quanto com o sua causa.
Eu nunca m e dava conta de que m eu saldo estava dim inuindo; portanto, m uitas vezes, levava um choque quando ele se esgotava. Por que essa negação crônica e cega? Eu não queria enfrentar o fato de que ia ter que continuar realim entando m eus fundos — incessantem ente — pelo resto da vida. Passados m uitos m eses de dor e confusão, resolvi: "Faça um a conferência constante de seus gastos e vej a com o é que vai se sentir". O que senti foi incom petência. Eu era incapaz de parar de gastar. Estava sem pre perdendo, j am ais ganhando. Nunca conseguiria nivelar entradas e saídas; nunca poderia criar um equilíbrio entre am bas.
Depois de um tem po, com ecei a ver que toda essa história de conferir talões de cheques era um a m etáfora. Não fazer a conferência era um a form a de evitação. Eu gostava de não saber de quanto dinheiro dispunha, pois assim podia persistir em não assum ir responsabilidade algum a pelas conseqüências de m eu com portam ento. Quantas vezes as contas do dentista de m eus filhos eram postas de lado enquanto eu balançava a cabeça, descrente, dizendo: "Mas este m ês sim plesm ente não dá!" Contudo, outros que ganhavam m enos do que eu eram capazes de pagar suas contas. Outras pessoas que eu sabia ganharem m enos tinham assistência m édica e planos de aposentadoria ou seguros — todas as providências chatas, m as realistas adotadas pelos adultos com o fim de proteger seus filhos e dependentes idosos. Continuei evitando essas realidades, crendo, de algum m odo, estar isenta de seus efeitos; acreditando que, se agüentasse o bastante — se pagasse o aluguel, as contas de telefone, e saldasse m eus com prom issos em geral — eventualm ente seria poupada às vicissitudes dessa vida ruim , assustadora e exigente, e seria salva! Manter os talões de cheques atualizados não constitui apenas um a boa política financeira: é um a boa política em ocional. Significa m anter um contato dia a dia, ou até m om ento a m om ento, com a realidade. Significa não deixar um a explosão de raiva irrom per sobre as crianças ou sobre o hom em com quem vivo. Significa não deixar as coisas rolarem quando estou deprim ida, m as parar, sentar-m e e verificar a situação: o que está acontecendo aqui? Vara onde estão indo m inhas energias? De onde está vindo m inha satisfação? A energia que estou despendendo corresponde ao m ontante de satisfação produzida, ou há um desnível? Estou gastando m ais do que recebo? Se é assim , com o posso obter m ais? Questões com o estas são parte de um processo auto-regulador. Tento ser m inha própria conselheira. Aposso-m e da responsabilidade por m inha felicidade ou infelicidade, em vez de transferir essa responsabilidade para outrem . A conferência constante de m inha "conta psíquica" reduz a possibilidade de eu reter um quadro distorcido e irrealista das coisas. Sei quais são m eus "fundos", porém tam bém conheço m inhas lim itações. Tendo delim itado essas realidades, consigo estabelecer obj etivos e prioridades significativos, e viver realisticam ente no presente. A conferência constante de m inhas ações e atitudes im plica m eu engaj am ento concreto na vida, a ativação de m inha m udança e crescim ento, em vez de um a espera de que "algo aconteça" — de que o príncipe encantado apareça. Eu posso efetivam ente tornar-m e esse "príncipe" realizador.