Complexo de Cinderela
A frenética esposa-mãe-trabalhadora
A m enininha absorve sua definição de fem inilidade a partir da observação das m ulheres a seu redor. Daí em diante, ela "sabe" o que dela é esperado. Se decidir ir contra isso, assinala o psiquiatra Robert Seidenberg, ela estará tom ando um a decisão tão fundam entalm ente perturbadora que se constituirá para ela num a crise m oral. "A m enina pequena que vê a m ãe, tias e avós com pletam ente engaj adas em assuntos dom ésticos e desdenhosas das m ulheres ativas no m undo", ensina o Dr. Seidenberg, "pode acabar sentindo que quaisquer outros papéis para as m ulheres são 'não-naturais e im orais'."
O que será da m ulher que se desviar do m odelo m aterno? Internam ente, a m ulher se sente com o a criança na expectativa de que algo de ruim irá acontecer se der aquele passo em direção à independência — se se apartar da m ãe e seguir o próprio cam inho. Além disso, pergunta-se, onde irá achar gratificação na vida, se rej eitar o cam inho tom ado pela m ãe? A m ulher sem um m odelo de papel adequado vê-se diante de um profundo dilem a psicológico. Ela não quer ser "com o a m ãe". Nem desej a ser "com o o pai". Com o, então, será? Essa confusão de identidade de gênero é a essência do pânico do gênero fem inino.
A frenética esposa-mãe-trabalhadora
Renunciar às próprias am bições — tal qual as m ulheres nos estudos de Horner — constitui um a "solução" ao problem a do pânico do gênero fem inino. Outra é tentar m anter o velho papel dom éstico e, sim ultaneam ente, engaj ar-se num a nova carreira, com todas as suas novas exigências. Os efeitos negativos dessa "solução de papéis m últiplos" — a fadiga, a ansiedade, o ressentim ento por ter que fazer dem ais — são largam ente discutidos entre as m ulheres hoj e. Há livros e artigos de revistas que tratam do assunto. Mas ninguém fala da causa. Por que as m ulheres estão se sobrecarregando freneticam ente de trabalho? A resposta a isso se associa ao nosso conflito inconsciente, que perm anece oculto. "O trabalho tornou-se um lugar onde se deve perm anecer o dia todo e do qual se sai toda noite, a fim de que se possa ir para casa, para o em prego 2: cozinheira, em pregada, governanta e babá."
"Estou todo o tem po tão cansada que cada vez m ais sonho poder trabalhar apenas algum as horas por sem ana, em bora certam ente não queira deixar de ganhar o que ganho agora, trabalhando quarenta horas sem anais."
"Ah, se eu pudesse dispor de um a horinha que fosse no m eio do dia para apenas sentar-m e em casa inteiram ente só, sem ter que atender a m eu filho, m eu m arido, m eu cachorro, m eu gato, m eu chefe — tem po para sim plesm ente sentar-m e, totalm ente sozinha..."
Essas m ulheres respondiam com essas colocações a um a pesquisa conduzida pela Com issão Nacional para o Estudo de Mulheres Trabalhadoras. Nessa pesquisa ressaltava-se com o a m aior queixa aquilo que freqüentem ente é citado com o sendo a "carga dupla" fem inina: o ganha-pão e as lides dom ésticas.
A exaustão é um sintom a prevalente entre as m ulheres de nossos dias. Natalie Gittelson disse que a frase "Estou tão cansada" corria com o um fio interm inável entre os m ilhares de cartas enviadas por leitoras da revista McCall's em resposta a um a sua recente pesquisa. "Naturalm ente, várias m ulheres que trabalham fora valorizam seus cheques de pagam ento", Gittelson escreve, "e m uitas m ais relatam que seus m aridos valorizam -nos ainda m ais do que elas. Mas há um a enorm e fadiga expressa diante das exigências às vezes sobre-hum anas da dupla vida — lar e trabalho — que tantas m ulheres têm que enfrentar. Antes ansiosas por saírem de casa rum o ao "m undo adulto", as m ulheres agora estão com eçando a clam ar por auxílio. O problem a é que realm ente adentraram o m undo adulto, m as sem terem saído de casa por inteiro. "Minhas energias estão tão divididas!", lê-se em um a das cartas enviadas à McCall’s. "Passo dez horas por dia em m eu em prego e, à noite, ainda tenho de lim par e cozinhar. Nos fins de sem ana m eu tem po é consum ido em faxina e dem ais serviços que não foram feitos durante a sem ana. Enche!"
"Sexo é um grande problem a para nós", escreveu outra m ulher, falando de si e do m arido. "Trabalho o dia inteiro para depois chegar a um a casa suj a, com roupas para serem lavadas e o j antar por fazer. Estou sem pre cansada." Um a terceira esposa escreveu: "Eu sou conveniente para ele. Sou fonte do m uito necessitado segundo salário no orçam ento, cuido de seus filhos, da casa, e constituo um a bela peça de propriedade. Mas sinto-m e tão pressionada pelas contas e por ter que trabalhar! No início eu o queria, m as agora tenho sem pre a sensação de estar em falta com as crianças".
Ao fim da década de 50 e princípio da de 60, com entava-se que as m ulheres russas eram bestas de carga. Toda aquela proclam ada igualdade, suspeitávam os, apenas ocultava vidas absurdam ente desum anas. A conceituação de bem -aventurança da esposa russa era trabalhar o dia inteiro com o gari e, em casa, à noite, cozinhar e lavar. Lem bro-m e de ter visto m ulheres am ericanas rindo-se disso. Naquela época, éram os m ais anti-russos do que pró-m ulheres, e tínham os a im pressão de que as russas estavam sendo covardem ente enganadas. Agora, vinte anos m ais tarde, cá estam os nós, fazendo exatam ente a m esm a coisa. As m ulheres am ericanas são as novas bestas de carga — trabalhando acim a de suas forças, fatigadas e em ocionalm ente subnutridas. A m aior parte das m ulheres casadas que trabalham fora, na Am érica, despendem de oitenta a cem horas de trabalho por sem ana, incluindo as tarefas dom ésticas. Nossa econom ia, sob o peso da inflação, não m ais perm ite aos m aridos perceberem o suficiente para sustentar suas fam ílias; por conseguinte, eles estim ulam as esposas a, tam bém elas, procurarem o "pão nosso de cada dia". Entretanto, para a m aioria dos hom ens, o lar continua a ser o refúgio onde possam descansar e ser servidos. "Poucos m aridos se dispõem a assum ir parte do trabalho dom éstico", relata o sem anário The Wall Street Journal, concluindo um a série de artigos sobre os feitos e as tribulações da "nova m ulher trabalhadora". No outono de 1980, três grandes agências de publicidade anunciaram os resultados de estudos que haviam efetuado para verificar com o "a nova m ulher" estava afetando "o m arido am ericano". Batten, Barten, Durstine e Osborne afirm aram cruam ente: "O hom em de hoj e desej a que sua m ulher trabalhe em dois em pregos: um fora, outro dentro do lar... A m aioria (deles) não se m ostra disposta a retirar do encargo das esposas as responsabilidades pelo tradicional papel dom éstico".
Dentre os hom ens entrevistados pela BBDO, m ais de setenta e cinco por cento disseram que suas esposas eram responsáveis pela cozinha; setenta e oito por cento achavam que cabia às esposas a lim peza dos banheiros. Barbara Michael, vice-presidente da Doy le Dane Bernbach, conclui no relatório daquela agência: "Aos olhos do m arido típico, a m aior desvantagem em ter um a esposa que trabalha fora é o efeito não sobre os filhos, m as sobre ele m esm o; o m arido dessa m ulher precisa dedicar m ais tem po às tarefas dom ésticas de que não gosta. E, excetuando-se cortar a gram a e consertar pequenas coisas, ele em geral não gosta nem um pouco dessas tarefas".
Com base em entrevistas realizadas com m il hom ens, a firm a Cunningham e Walsh concluiu: "O fato de agora as m ulheres ocuparem posições profissionais não causou grande im pacto sobre o papel tradicional dos m aridos dentro do lar". Esse tipo de pesquisa pode ser útil para publicitários, porém certam ente não diz nada às m ulheres que elas j á não conheçam . Nunca encontrei um a m ulher cuj o m arido ou com panheiro divida um a parte igual do trabalho dom éstico com ela. Independentem ente de ela trabalhar em regim e integral ou ter filhos, ou ganhar m ais que o m arido, no tocante ao cuidado da casa e dos filhos a m ulher sem pre faz m ais. E queixa-se continuam ente de não conseguir "convencê-lo" a fazer isto ou aquilo.
Por que as m ulheres são tão incrivelm ente ineficazes? Assim que com eçam os a exam inar essa questão ressalta o fato de que o problem a tem tanto raízes nas necessidades fem ininas quanto nas m asculinas. Um a pesquisa conduzida em todo o país há apenas dois anos perguntou a m ulheres com em pregos fora do lar o que consideravam m ais gratificante em term os pessoais: o trabalho dom éstico ou o em prego. "O de casa!", foi a sonora resposta.
"Fico perplexo", disse o editor-chefe de um a grande editora, tentando com preender as atitudes contraditórias expressas pela esposa. "Poucos dias atrás, a m ãe dela veio j antar conosco. Nós três preparam os a com ida j untos. Após o j antar, pus o avental e com ecei a lavar os pratos, quando as duas voaram para o m eu lado com o siam esas, dizendo: 'Não, não, não faça isso. Nós lavarem os a louça'. 'Tudo bem ', disse eu. 'Eu posso fazer isso.' "É estranho", prosseguiu o hom em . "De algum m odo m inha disposição em lavar os pratos após j á ter aj udado a fazer a com ida encontrou por parte das m ulheres um a reação que indicava que eu estava indo além do que m e com petia. Elas ficaram m uito nervosas. Não queriam que eu fizesse m ais do que m e cabia. Parece-m e que não lhes ocorreu que, lavando a louça naquela noite, elas tam bém iriam além do que lhes cabia."
Acontece que a esposa desse hom em é um a m ulher de negócios bem -sucedida e m uito bem -paga. Ela e as am igas passam m uito tem po discutindo a constante inj ustiça da posição da m ulher no m undo. Ela professa o anseio por um a divisão j usta de trabalho tanto a nível profissional quanto dom éstico; aparentem ente, contudo, quando as circunstâncias a convidam a abandonar os velhos papéis dom ésticos, ela se vê invadida pela ansiedade. Refletindo, o hom em prossegue: "Era com o se, lavando os pratos, eu estivesse roubando algo dela. Quer dizer, delas". Ele sorri ao fazer a retificação, lem brando-se do que provavelm ente era o aspecto m ais pertinente de todo o episódio: o fato de que a m ãe da esposa estava presente na situação. (Quando a m ãe entra em cena, grande parte das m ulheres se vêem tropeçando desaj eitadam ente em suas recém -surgidas liberdades.) O fardo dom éstico nada tem a ver com a quantidade de dinheiro percebida. "ROMANCISTA PASSA ROUPA EM MEIO A UMA TORRENTE DE OFERTAS MILIONÁRIAS" podia ter sido a m anchete dos j ornais publicados no dia 18 de setem bro de 1979. A escritora era Judith Krantz, cuj o prim eiro rom ance, Luxúria, fora enorm e sucesso de vendagem e cuj o segundo rom ance, Princesa Margarida, estava sendo oferecido em leilão a diversas editoras. O que Judith Krantz estava fazendo lá na Califórnia no dia em que se avolum avam as propostas dos editores de Nova York, com petindo com som as fantásticas pelos direitos do livro?
"Meu m arido e eu chegam os da Europa ontem ", disse ela a um repórter. "Por isso, desde as sete da m anhã até agora, estive passando roupa." Passando roupa! Essa foi a "grande notícia" de prim eira página do j ornal The New York Tim es, num a reportagem que revelava que os direitos do rom ance de Krantz acabaram sendo vendidos por três m ilhões e duzentos m il dólares — um m ilhão de dólares a m ais do que qualquer outro rom ance na história da editoração. Naturalm ente a Sra. Krantz teve que rir de si m esm a ao afirm ar que passar roupa era "um a terapia contra a ansiedade da espera". Nos anos 60, a lim peza de privadas era tem a de m uitas conversas entre diversas m ulheres. "Não im porta quanto ele aj ude dentro de casa, há um a coisa que ele j am ais fará", com entavam as esposas em relação aos m aridos, m eneando solenem ente as cabeças. "É com o se ele nem tom asse conhecim ento da existência da privada. Lim pá-la é obrigação da m ulher." Hoj e o desafio que se im põe às m ulheres não é com o levar o m arido a fazer m ais, m as com o ganhar o m esm o que ele sem abandonar todos os pequenos rituais dom ésticos que as convencem de ainda serem "fem ininas". "Aj udei-o a desenvolver um a incapacidade para as m ais sim ples tarefas dom ésticas", confessa Cy nthia Sears, um a form anda de Bry n Mawr que por fim se separou do m arido e atualm ente vive com as duas filhas em Los Angeles. Escrevendo sobre suas experiências num livro cham ado Working it out (Um a elaboração), Cy nthia descreve um estilo de vida fam iliar reconhecível por nós todas. "Quando com entava com m eus am igos — com certo orgulho disfarçado por um a m áscara de exasperação — que ele nunca havia trocado um a fralda, nunca se levantara à noite por um a das m eninas estar doente, nunca lhes dera de com er, eu não via que m inha 'tolerância' tinha na verdade sufocado nele um real senso de participação na criação de nossas filhas. A única coisa que eu conseguia enxergar era o benefício im ediato de evitar qualquer crítica ou queixa." Aos trinta e um anos de idade", diz Cy nthia, "com ecei a fazer terapia. Nessa época o ressentim ento que se aloj ava em m im expres¬sava-se com o um a sensação física — um aperto no peito e o sangue latej ando".