O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 9 de 96

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O Leopardo

Capítulo 9

O MERGULHO

 

Eram quinze para as onze da noite. Fazia 9°C, e Marit Olsen lembrou que a previsão do tempo havia anunciado temperatura ainda mais amena para o dia seguinte. No Parque de Frogner não se avistava vivalma. Algo naquelas piscinas enormes a fez pensar em navios embarcados, aldeias de pescadores abandonadas com o vento assobiando pelas paredes das casas e parques de diversão fora de temporada. Memórias fragmentadas da infância. Como os pescadores afogados que assombravam Tronholmen, surgindo do mar de madrugada, com algas no cabelo e peixinhos na boca e nas narinas. Fantasmas sem respiração, mas que vez ou outra soltavam gritos roucos e frios de gaivota. Os mortos, com seus membros inchados se agarrando a galhos e sendo arrancados com um ruído rascante, sem que isso detivesse o avanço deles à casa solitária em Tronholmen. Justo onde moravam seus avós. Onde ela estava deitada no quarto de criança, tremendo. Marit Olsen respirou fundo. E continuou respirando.

Lá embaixo não estava ventando, mas ali no alto da plataforma de mergulho, dez metros acima, dava para sentir o ar se mover. Marit sentiu a própria pulsação nas têmporas, na garganta, no ventre, em cada membro; o sangue fluía, revigorante. Era maravilhoso viver. Estar viva. Ela nem ficou tão ofegante depois de subir todos os degraus da plataforma de mergulho, havia apenas sentido o coração, aquele músculo fiel, bater loucamente. Ela olhou para a piscina vazia embaixo, que a luz da lua iluminava com um brilho azulado, quase artificial. Mais longe, no final da piscina, ela podia ver o grande relógio. Os ponteiros haviam parado às cinco e dez. O tempo havia parado. Ela podia ouvir a cidade, ver as luzes dos carros na Kirkeveien. Tão perto. E tão longe. Longe demais para que alguém a ouvisse.

Ela estava respirando. Mas estava morta mesmo assim. Em volta do pescoço tinha uma corda, grossa como uma sirga, e podia ouvir os ruídos das gaivotas, os fantasmas aos quais ela logo se juntaria. Mas ela não estava pensando na morte. Pensava na vida, e na sua enorme vontade de viver. Em todas as coisas grandes e pequenas que gostaria de ter feito. Ela teria viajado a países onde nunca havia estado, teria visto seus sobrinhos e suas sobrinhas crescerem, teria testemunhado o mundo entrar nos eixos.

Havia sido uma faca; a lâmina tinha brilhado na luz da rua e encostado em seu pescoço. Dizem que o medo dá forças. Mas no seu caso, o medo roubou toda sua força, toda sua capacidade de agir. A ideia de a lâmina abrir seu corpo a deixou trêmula e desamparada. Tanto é que, quando recebeu a ordem de subir a cerca, ela não conseguiu, caiu como um saco de feijão, as lágrimas escorrendo pelo rosto. Porque ela já sabia o que ia acontecer. Faria qualquer coisa para que ele não a ferisse e sabia que não haveria como evitar. Porque ela queria tanto viver mais um pouco. Mais alguns anos, mais alguns minutos, era a mesma racionalidade cega e irracional que governava todos.

Ela tinha começado a explicar que não conseguia subir, havia esquecido a ordem para ficar calada. A faca tinha se contorcido como uma cobra, cortando sua boca e esmagando os dentes, antes de ser retirada. O sangue jorrou no mesmo instante. A voz sussurrou algo por trás da máscara e a empurrou em direção à escuridão ao longo da cerca. Até um lugar atrás dos arbustos onde ele a forçou por um rombo na cerca até o outro lado.

Marit Olsen engoliu o sangue que continuava enchendo sua boca e olhou para as arquibancadas abaixo, também banhadas pelo brilho azul da lua. Estavam tão vazias, como numa sala de tribunal, sem audiência e júri, apenas um juiz. Uma execução sem a multidão, apenas o carrasco. Uma última aparência pública aonde ninguém achou que valia a pena comparecer. Ocorreu a Marit Olsen que tanto na morte como na vida faltou-lhe encanto. E agora, nem conseguia falar.

— Pule.

Ela viu como o parque era bonito, mesmo agora no inverno. Marit gostaria que o relógio no final da piscina funcionasse, para que visse os segundos de vida que ela estava roubando.

— Pule — repetiu a voz. Ele devia ter retirado a máscara, porque a voz estava diferente; ela o reconhecia agora. Ela virou a cabeça e olhou, chocada. Sentiu um pé nas costas. Ela gritou. O chão sumiu por baixo dos pés; por um momento surpreendente ficou sem peso. Mas a gravidade a puxava para baixo; seu corpo acelerou, e ela percebeu que a porcelana azul e branca da piscina corria ao seu encontro, para quebrá-la em pedacinhos.

 

A corda em volta do pescoço de Marit Olsen se apertou quando ela estava 3 metros acima do fundo da piscina. Era de um tipo antigo, feita de fibra de tília e olmo, e não tinha nenhuma elasticidade. O corpo volumoso de Marit Olsen não se deixou frear significativamente; desprendeu-se da cabeça e acertou o fundo da piscina com um baque abafado. A cabeça e o pescoço ficaram na corda. Não havia muito sangue. Assim, a cabeça se inclinou para a frente, soltou-se da corda, caiu em cima da jaqueta de corrida azul de Marit Olsen e rolou pelos ladrilhos da piscina com um ruído surdo.

Então, a piscina voltou ao silêncio.