O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 85 de 96

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O Leopardo

Capítulo 85

EDVARD M UNCH

 

Foi como se alguém houvesse enfiado um pingente de gelo no crânio de Lene a marteladas. Mesmo assim, ela manteve os olhos cerrados.

— Você… você… a matou? Uma mulher com quem você… transou na montanha?

— Minha libido é mais forte do que a sua, Lene. Quando você não quer fazer o que eu peço, arrumo outras pessoas que façam.

— Mas você… você queria que eu… — O choro pinçava as suas cordas vocais. — Não é natural!

Tony riu.

— Ela não se importou, Lene. Juliana tampouco. Se bem que foi bem-paga.

— Juliana? Do que está falando, Tony? Tony? — Lene tateava na sua frente como um cego.

— Uma puta alemã de Leipzig com quem eu me encontrava regularmente. Ela faz qualquer coisa por dinheiro. Fazia.

Lene sentiu as lágrimas escorrerem pelo rosto. A voz dele estava tão calma; foi isso que fez tudo parecer tão irreal.

— Diz… diz que não é verdade, Tony. Por favor, pare com isso agora.

— Silêncio. Recebi outra carta. Talvez você possa imaginar o choque quando vi que continha uma foto de Adele no meu carro com uma faca no pescoço. A carta tinha sido assinada por alguém chamado Borgny Stem-Myhre. Ela escreveu que queria dinheiro para não me entregar à polícia por causa do assassinato de Adele Vetlesen. Claro, eu sabia que tinha que me livrar dela. Mas eu precisava de um álibi para o horário da morte caso a polícia conseguisse me ligar a Borgny e à tentativa de chantagem. Na verdade, tinha pensado em mandar o pequeno cartão-postal de Adele na minha próxima viagem à África, mas então tive uma ideia melhor ainda. Entrei em contato com Juliana e a mandei para cá, para Goma. Ela viajou usando o nome de Adele, postou o cartão em Kigali, foi a Van Boorst e comprou uma maçã que eu tinha pensado em servir a Borgny. Quando Juliana voltou, a gente se encontrou em Leipzig. Onde deixei que ela fosse a primeira a provar a maçã. — Tony riu. — Ela achou que fosse um novo brinquedo sexual, coitada.

— Você… você a matou também?

— Matei. E depois Borgny. Eu a segui. Ela estava abrindo o portão da casa onde morava quando me aproximei com a faca. Levei-a para o porão, onde eu tinha deixado tudo pronto. Um cadeado. A maçã. Injetei cetamina no pescoço dela. Depois fui para Skien, para uma reunião de investidores onde todas as minhas testemunhas estavam esperando. O álibi. Eu sabia que, enquanto eu brindava com vinho branco, Borgny ia fazer o trabalho por conta própria. É o que todas acabam fazendo. Voltei mais tarde, passei pelo porão, peguei o cadeado, tirei a maçã da boca de Borgny e fui para casa. Para você. Fizemos amor. Você fingiu orgasmo. Está se lembrando?

Lene balançou a cabeça, sem saber o que falar.

— Feche os olhos, já disse.

Ela sentiu os dedos dele passarem por sua testa, fechando suas pálpebras, como um agente funerário faria. Ela ouviu sua voz monótona prosseguir, como que para si mesmo:

— Ele gostava de me bater. Agora consigo entender. A sensação de poder na hora de infligir dor, de ver outra pessoa sucumbir, seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu.

Ela podia sentir o cheiro dele, o cheiro de sexo. Sexo de mulher. Então, a voz dele voltou, bem no seu ouvido.

— Na medida em que eu as matava, algo começou a acontecer. Era como se o sangue delas irrigasse uma semente que esteve ali desde sempre. Comecei a entender o que eu tinha visto no olhar do meu pai aquela vez. O reconhecimento. Porque, do mesmo modo que ele se viu em mim, comecei a ver meu pai quando eu me via no espelho. Eu gostava do poder. E da impotência. Eu gostava do jogo, do risco, do abismo e do topo simultaneamente. Quando você está na montanha com a cabeça numa nuvem, ouvindo o coro dos anjos no paraíso, também precisa ouvir o fogo sibilante do inferno embaixo de você para que isso signifique alguma coisa. Era isso que meu pai sabia. E agora, eu também sei.

Lene viu manchas vermelhas dançarem no interior das pálpebras.

— Eu não entendia a extensão do meu ódio até poucos anos depois de ter saído de casa, quando eu estava com uma garota na beira da floresta em frente a um salão de baile. Um rapaz me atacou. Vi o ciúme arder em seus olhos. Vi meu pai vir para cima de mim e da minha mãe com a pá. Cortei fora a língua do rapaz. Eles me prenderam, e fui condenado. E descobri o que a prisão pode fazer a uma pessoa. E entendi por que meu pai nunca havia mencionado seu tempo no cárcere. Nem uma palavra. Minha pena foi curta. Mesmo assim, quase enlouqueci lá dentro. E foi ali, atrás das grades, que entendi o que eu precisava fazer. Tinha que fazer com que ele fosse posto na prisão por ter matado minha mãe. Não matá-lo, mas encarcerá-lo, enterrá-lo vivo. Mas primeiro, eu precisava encontrar a prova, os restos da minha mãe. Por isso construí uma cabana lá no alto da montanha, longe de tudo, para não correr o risco de alguém reconhecer o rapaz que havia desaparecido quando tinha 15 anos. Todo ano eu vasculhava a montanha, acre por acre. Começava quando a maior parte da neve tinha sumido, de preferência à noite, quando não havia mais ninguém andando por ali, vasculhando precipícios e áreas de avalanches. Quando necessário, pernoitava nas cabanas de turistas, onde as pessoas só estavam de passagem. Mas alguém do lugar deve ter me visto. De qualquer maneira, começou a circular rumores do fantasma do filho de Utmo. — Tony deu uma risada.

Lene abriu os olhos, mas Tony nem notou; ele estava estudando um porta-cigarros que havia acabado de tirar do bolso de seu roupão. Lene fechou os olhos depressa.

— Depois do assassinato de Borgny, chegou uma carta assinada “Charlotte”, dizendo que havia sido ela que tinha escrito a mensagem anterior. Vi que fui pego num jogo. Podia ser outro blefe, ou podia ser qualquer pessoa que tivesse estado na cabana de Håvass naquela noite. Por isso, fui até lá dar uma olhada no livro dos hóspedes, mas alguém havia arrancado justamente a página daquela noite. Então, matei Charlotte. E esperei a próxima carta. Que veio. Matei Marit. E em seguida, Elias. Depois disso, tudo ficou quieto. Então li no jornal que estavam pedindo para que as pessoas que tivessem estado na cabana de Håvass na mesma noite que as vítimas se apresentassem. Claro, eu sabia que ninguém imaginava que eu tivesse estado lá, mas também, se eu me apresentasse, podia ficar sabendo pela polícia quem eram os outros hóspedes. Podia descobrir quem estava atrás de mim. Quem restava matar. Por isso, me apresentei diretamente a quem eu supunha saber mais. Aquele investigador, Harry Hole. Tentei arrancar dele informações sobre os outros hóspedes. Não consegui nada. Pior, aquele Mikael Bellman da Kripos veio para me prender. Alguém havia ligado para Elias Skog do meu telefone, ele me disse. E aí a ficha caiu. Não se tratava de dinheiro; alguém estava tentando me pegar; me botar atrás das grades. Quem podia, a sangue-frio, assistir às pessoas serem assassinadas e mesmo assim continuar essa… essa cruzada contra mim? Quem podia me odiar tanto? Daí chegou a última carta. Desta vez, ele não informou sua identidade, escreveu apenas que tinha estado na cabana de Håvass naquela noite, invisível como um fantasma. Disse que eu o conhecia bem até demais. E que estava vindo para me pegar. A ficha caiu. Ele finalmente havia me encontrado. Meu pai.

Tony parou para respirar.

— Ele havia planejado para mim o mesmo que eu havia planejado para ele. Ser enterrado vivo, encarcerado para o resto da vida. Mas como tinha conseguido? Será que havia mantido a cabana de Håvass sob vigilância? Seria por isso que sabia que eu estava vivo? Será que tinha me seguido à distância? Depois do nosso noivado, a imprensa de celebridades começou a publicar fotos minhas, e talvez até meu pai ocasionalmente folheasse uma dessas revistas. Mas ele tinha que estar trabalhando com alguém. Não podia, por exemplo, ter ido a Oslo e arrombado minha casa; Não podia ter tirado a foto de Adele com a faca no pescoço. Ou podia? Descobri que ele havia fugido da fazenda, aquele canalha. O que ele não sabia era que eu já conhecia a área bem melhor do que ele, depois de procurar minha mãe durante todos esses anos. Eu o encontrei na cabana de turistas em Kjeften. Fiquei igual a uma criança de tão feliz. Mas foi um anticlímax.

Um farfalho de seda.

— Tive menos prazer em torturá-lo do que eu esperava. Ele nem me reconheceu, o babaca cego. Mas não tinha importância. Eu queria que me visse como ele mesmo nunca havia conseguido ser. Um sucesso. Queria humilhá-lo. Em vez disso, ele me viu como a si mesmo. Um assassino. — Ele suspirou. — E comecei a perceber que ele não havia trabalhado com mais ninguém. E não tinha a capacidade de fazer aquilo tudo sozinho, estava fraco, apavorado e covarde demais. Provoquei a avalanche em Håvass, quase em pânico. Porque agora eu sabia: havia mais alguém. Em algum lugar no escuro havia um caçador invisível e inaudível, cuja respiração estava sincronizada com a minha. Eu tinha que fugir. Sumir do país. Para algum lugar onde não podia ser encontrado. Então, aqui estamos, querida. Às margens de uma selva do tamanho da Europa Ocidental.

Lene estava tremendo descontroladamente.

— Por que está fazendo isso, Tony? Por que está me contando… tudo isso?

Ela sentiu a mão dele em sua bochecha.

— Porque você merece, querida. Porque você se chama Galtung e vai ter um discurso fúnebre bem longo quando morrer. Porque acho correto você saber de tudo sobre mim antes de dar a sua resposta.

— Resposta a quê?

— Se você quer casar comigo.

Tudo girava na mente dela.

— Se eu quero… quero…

— Abra os olhos, Lene.

— Mas eu…

— Abra os olhos, já disse.

Ela fez como ele mandou.

— Esta é para você.

Lene Galtung arfou.

— É de ouro — disse Tony. Um raio de sol cintilou no metal dourado em cima de uma folha de papel na mesinha entre eles. — Quero que a use.

— Usar?

— Depois de assinar nosso contrato matrimonial, claro.

Lene piscou várias vezes. Tentou acordar do pesadelo. A mão com os dedos retorcidos se moveu por cima da mesa, cobrindo a sua. Ela olhou para baixo, para o padrão da seda cor de vinho do seu roupão.

— Eu sei o que está pensando — continuou ele. — Que o dinheiro que você trouxe só vai durar algum tempo, enquanto um casamento me dará certos direitos de herança depois que você morrer. Você quer saber se eu pretendo te matar, não é?

— Pretende?

Tony riu baixinho e apertou sua mão.

— Pretende ficar no meu caminho, Lene?

Ela balançou a cabeça. Seu único desejo havia sido estar sempre presente para cuidar de alguém. Dele. Como em transe, pegou a caneta que ele estendeu para ela. Levou-a até o papel. Lágrimas caíram, manchando sua assinatura. Ele pegou o documento.

— Vai servir — disse ele, soprando o papel, fazendo um gesto de cabeça em direção à mesinha — Agora, vamos ver como fica em você.

— O que quer dizer, Tony? Não é um anel.

— Quero que você abra bem a boca, Lene.

 

Harry piscou. Uma lâmpada solitária acesa pendia do teto. Ele estava de costas num colchão. Nu. Era o mesmo sonho, só que não estava sonhando. Na parede em cima dele havia um prego, onde estava espetada a cabeça de Edvard Munch. Uma cédula norueguesa. Ele abriu a boca e parecia que o maxilar estilhaçado fosse rasgar, mas mesmo assim, a pressão continuou, quase explodindo sua cabeça. Ele não estava sonhando. O efeito da cetamina havia esvanecido, e as dores impediram qualquer sonho. Quanto tempo esteve ali? Quanto tempo até enlouquecer com as dores? Cuidadosamente, virou a cabeça e passou os olhos pelo quarto. Ele ainda estava na casa de Van Boorst, sozinho. Não estava amarrado; ele podia se levantar se quisesse.

Seu olhar seguiu o fio atado à maçaneta da porta e que atravessava o quarto até a parede atrás dele. Com cuidado, virou a cabeça para o outro lado. O fio passava pelo parafuso em formato de “U” na parede logo atrás da sua cabeça. E de lá, até sua boca. A maçã de Leopoldo. Ele estava bem atado. A porta abria para fora, portanto, a primeira pessoa que a abrisse libertaria as agulhas que iriam furar sua cabeça pela boca. E se ele se mexesse demais, também ia soltar as agulhas.

Harry enfiou o polegar e o indicador em cada lado da boca. Sentiu as hastes circulares. Tentou em vão enfiar um dedo por baixo de uma delas. Teve um acesso de tosse e quase desmaiou quando tentou respirar. Percebeu que a carne em volta da faringe havia inchada por causa das hastes e ele corria o risco de sufocar. O fio para a maçaneta. O dedo decepado. Era um acaso, ou será que Tony Leike sabia sobre o Boneco de Neve? E queria superá-lo?

Harry chutou a parede e tensionou as cordas vocais, mas a bola metálica sufocou seu grito. Ele desistiu. Encostou-se à parede, preparou-se para as dores e tentou fechar a boca à força. Havia lido em algum lugar que a mordida de uma pessoa não era muito mais fraca do que a da baleia branca. Mesmo assim, sua musculatura maxilar mal conseguiu pressionar as hastes da bola para baixo antes da boca novamente se forçar a abrir. Parecia haver uma pulsação, um coração de ferro vivo em sua boca. Ele tocou o fio que pendia da maçã. Todo seu instinto gritava para puxá-lo, para arrancá-la. Mas ele havia assistido a uma demonstração do que aconteceria, havia visto fotos das cenas de crime. Se ele não tivesse visto…

E nesse instante, Harry sacou. Não apenas de que maneira ele mesmo morreria, mas como outros haviam morrido. E por que tinha sido feito daquele modo. Sentiu um desejo absurdo de rir. Era tão diabolicamente simples. Tão diabolicamente simples que só um diabo podia ter inventado uma coisa dessas.

O álibi de Tony Leike. Ele não tinha um cúmplice. Quer dizer, as próprias vítimas haviam sido suas cúmplices. Quando Borgny e Charlotte recuperaram a consciência depois de serem dopadas, não faziam ideia do que tinham na boca. Borgny estava trancada num porão. Charlotte estava do lado de fora, mas o fio ia da sua boca até o porta-malas do carro destroçado à sua frente, e independente do quanto lutava, arranhava e puxava a porta do porta-malas, ele continuou trancado. Nenhuma das duas teve chance de escapar de onde estavam, e quando as dores se tornaram fortes demais, fizeram o previsível. Puxaram o fio. Será que faziam ideia do que ia acontecer? Será que as dores fizeram a suspeita ceder à esperança, a esperança de que puxar o fio faria com que as hastes da misteriosa bola se retraíssem? E enquanto as mulheres aos poucos passavam pela agonia da dúvida e das conjecturas antes do ato inevitável, Tony Leike estava bem longe, num jantar com clientes ou numa palestra, bem seguro de que suas vítimas iam fazer a última parte do serviço por si mesmas. Dando a ele o melhor álibi possível para o horário da morte. Rigorosamente falando, nem foi ele quem as matou.

Harry girou a cabeça para ver o raio de movimento de que dispunha sem tensionar o fio de aço.

Tinha que fazer alguma coisa. Qualquer coisa. Ele gemeu, achou que o fio havia se retraído; parou de respirar, olhou para a porta. Esperou que se abrisse, que…

Nada aconteceu.

Ele tentou se lembrar da demonstração da maçã de Van Boorst, o tamanho da parte de fora das hastes quando não havia resistência. Se ele pudesse abrir a boca só mais um pouquinho, se os seus maxilares pudessem só…

Harry fechou os olhos. Ocorreu-lhe de repente como a ideia parecia estranhamente normal e óbvia, e quão pouca resistência ele sentia a ela. Aliás, bem pelo contrário — sentiu alívio. Alívio por infligir a si mesmo ainda mais dor, se necessário, ao arriscar a própria vida numa tentativa de sobrevivência. Era lógico, simples, o vão negro da dúvida reprimido por uma ideia clara e insana. Harry se virou de bruços com a cabeça encostada no parafuso em U para deixar o fio um pouco frouxo. Depois, se ergueu com cuidado até ficar de joelhos. Passou a mão no maxilar. Encontrou o ponto. O ponto para onde tudo convergia: a dor, a junta do maxilar, o nó, a mixórdia de nervos e músculos que apenas por pouco mantinha seu maxilar no lugar depois do incidente em Hong Kong. Assim, ele não ia conseguir bater em si mesmo com força suficiente; precisava de peso corporal por trás. Ele testou o prego com o indicador. Saía em torno de quatro centímetros da parede. Um prego normal com uma cabeça grande e larga. Quebraria tudo que entrasse em seu caminho se fosse com força suficiente. Harry mirou, encostou o maxilar à cabeça do prego para testar, levantou-se para calcular em que ângulo ele teria que cair. Até que profundidade o prego precisava entrar. E até que ponto ele não podia entrar. A nuca, os nervos, a paralisia. Calculou. Não de modo frio e calmo. Contudo, calculou. Forçou-se a isso. A cabeça do prego não era como o topo de um T; estava inclinada em direção à base de modo a não necessariamente rasgar tudo na hora de sair. Por fim, tentou detectar se havia se esquecido de alguma coisa. Até entender que era uma tentativa do cérebro de adiar as coisas.

Harry respirou fundo.

Seu corpo não queria obedecer. Protestou, resistiu. Não queria abaixar a cabeça.

— Idiota! — Ele tentou gritar, mas só saiu um sussurro. Ele sentiu uma lágrima quente escorrer pela face.

Chega de chorar, pensou ele. Está na hora de morrer um pouco.

Então, forçou a cabeça para baixo.

O prego o recebeu com um suspiro profundo.

 

Kaja tateou à procura do celular. Os Carpenters haviam acabado de gritar um Stop! a três vozes e Karen Carpenter havia respondido Oh, yes, wait a minute. O alerta de SMS.

No lado de fora do carro, a noite havia chegado com brutal rapidez. Ela tinha enviado três mensagens a Harry dizendo o que havia acontecido e que ela estava estacionada na rua da casa onde Lene Galtung havia entrado, esperando por instruções dele e por um sinal de vida.

 

Bom trabalho. Venha me buscar na rua ao sul da igreja. Fácil de encontrar, é a única casa de tijolos. Entre sem bater, a porta está aberta. Harry.

 

Estava em norueguês. Ela passou o endereço ao motorista, que assentiu, bocejou e ligou o motor.

Kaja respondeu a mensagem em norueguês, “A caminho”, ao passarem pelas ruas iluminadas ao norte. O vulcão clareou o céu noturno como uma lâmpada incandescente, ofuscando as estrelas e deixando tudo com um vago brilho vermelho-sangue.

Quinze minutos depois, eles estavam numa rua que mais parecia uma escura cratera feita por uma bomba. Algumas lâmpadas de parafina pendiam na frente de uma loja. Ou havia tido outro corte de luz ou aquela vizinhança não tinha energia elétrica.

O motorista parou e apontou. Van Boorst. De fato, ali estava, uma casinha de tijolos. Kaja olhou ao redor. Mais adiante na rua viu dois Range Rovers. Dois ciclomotores berrantes passaram com as luzes oscilando. Música africana retumbante vinha de uma boate. Aqui e ali, ela vislumbrou a brasa de cigarros e olhos brancos.

— Espere aqui — disse Kaja em inglês, empurrando o cabelo por baixo do boné e ignorando os gritos de alerta do motorista quando abriu a porta e desceu do carro.

Ela andou depressa até a casa. Não tinha nenhum preconceito ingênuo das chances que uma mulher branca tinha numa cidade como Goma depois do cair da noite, mas naquele momento a escuridão era sua melhor amiga.

Kaja viu a porta com pedras de lava nos dois lados e sabia que tinha que se apressar. Sentiu o medo chegar; teria que se antecipar. Quase tropeçou, mas continuou com passos rápidos, respirando pela boca aberta. Então chegou. Colocou os dedos na maçaneta. Mesmo que a temperatura tivesse baixado com surpreendente rapidez depois do pôr do sol, o suor escorria no meio das costas e no peito. Ela se forçou a pressionar a maçaneta para baixo. Parou para escutar. Silêncio sinistro. O mesmo silêncio de quando…

As lágrimas pareciam virar uma mistura viscosa de cimento na sua garganta.

— Vamos — sussurrou ela. — Agora não.

Ela fechou os olhos. Concentrou-se na respiração. Esvaziou a mente de todo pensamento. Agora ia conseguir. Os pensamentos se dissiparam. Deletar, deletar. Assim. Só restava um último pequeno pensamento, depois podia abrir a porta.

 

Harry acordou sentindo alguma coisa puxar o canto da boca. Abriu os olhos. Estava escuro. Devia ter desmaiado. Daí percebeu o fio da bola que ainda estava na sua boca ser puxado. Seu coração disparou, acelerou, ficou martelando. Ele empurrou a boca para perto do prego, absolutamente ciente de que nada disso ajudaria se alguém abrisse a porta.

Uma faixa de luz surgiu na parede acima dele. O sangue cintilou. Ele levou os dedos para dentro da boca, colocou-os em cima dos dentes no maxilar inferior e pressionou. A dor fez tudo escurecer por um segundo, mas ele sentiu o maxilar ceder. Estava deslocado! Enquanto pressionava o maxilar para baixo com uma das mãos, pegou a maçã com a outra e a puxou.

Ele ouviu ruídos na frente da porta. Caralho, caralho, caralho! Ele ainda não tinha conseguido fazer a maçã passar pelos dentes. Forçou ainda mais o maxilar. O som de osso e tecido quebrando e rasgando ressoou como se estivesse vindo dos seus ouvidos. Talvez pudesse puxar o maxilar para baixo num lado até poder tirar a maçã de lado, mas a bochecha estava atrapalhando. Ele podia ver a maçaneta da porta se mexer. Não daria tempo. Nenhum tempo. O tempo tinha acabado aqui.

 

O último pequeno pensamento. A mensagem em norueguês. Gaten. Kirken. A rua. A igreja. O dialeto de Harry não era assim. Gata. Kirka. Era assim que ele falava. Kaja abriu os olhos. O que ele tinha dito na varanda quando conversaram sobre o título do livro de Fante? Ele nunca mandava mensagens de texto. Porque não queria perder sua alma, porque preferia não deixar pistas quando fosse desaparecer. Ela nunca havia recebido uma única mensagem de texto dele. Até agora. Ele podia ter ligado. Algo estava errado; isso não era sua mente querendo achar desculpas para não abrir a porta. Era uma armadilha.

Com cuidado, Kaja soltou a maçaneta. Sentiu uma leve corrente de ar quente na nuca. Como se alguém estivesse respirando por cima dela. Desconsiderou o “como se” e se virou.

Eram dois. Seus rostos se mesclavam com a escuridão.

— Procurando alguém, senhorita? — perguntou um deles em inglês.

A sensação de déjà-vu surgiu antes de responder.

— Porta errada, só isso.

No mesmo instante ouviu o motor de um carro ligar. Ela se virou e viu os faróis traseiros do seu táxi se afastar.

— Não se preocupe, senhorita — disse a voz. — Nós pagamos a ele.

Ela se virou outra vez e olhou para baixo. Para a pistola apontada para ela.

— Vamos.

Kaja considerou as alternativas. Não demorou muito. Não havia nenhuma.

Ela andou na frente deles em direção aos dois Range Rovers. A porta traseira de um se abriu de repente quando eles se aproximaram. Ela entrou. Cheirava a colônia pós-barba com um leve toque de pimenta e couro novo. A porta se fechou atrás dela. Ele sorriu. Os dentes eram brancos e grandes, e a voz, suave, alegre.

— Olá, Kaja.

Tony Leike vestia um uniforme de combate amarelo-acinzentado. Na mão segurava um celular vermelho. O celular de Harry.

— Você foi instruída a entrar. O que te deteve?

Ela deu de ombros.

— Fascinante — disse ele, inclinando a cabeça.

— O quê?

— Você não parece ter nem um pouco de medo.

— Por que deveria?

— Porque vai morrer daqui a pouco. Será que ainda não entendeu?

A garganta de Kaja se contraiu. Mesmo que parte de seu cérebro estivesse gritando que se tratava de uma ameaça vazia, que ela era policial, que ele nunca ia correr o risco, não conseguiu abafar a outra voz, aquela que dizia que Tony Leike estava bem na sua frente e que sabia exatamente como estava a situação. Que ela e Harry eram dois idiotas kamikazes que estavam muito longe de casa, sem autorização, sem apoio, sem um plano B. Sem chance.

Leike apertou um botão e a janela desceu.

— Acaba com ele e traga-o aqui — ordenou ele em inglês aos dois homens e subiu de novo a janela. — Acho que teria dado um toque de classe se você tivesse aberto aquela porta. Acho que devemos a Harry uma morte poética. Mas agora teremos que optar por um adeus poético. — Ele inclinou-se para a frente e olhou para o céu. — Linda cor vermelha, não acha? — Ela já podia perceber no rosto dele. Ouvir. E sua própria voz, aquela que dizia a verdade, confirmou. Ela realmente iria morrer.