O Leopardo
Capítulo 15
L UZ E STROBOSCÓPICA
Stine olhou para o rapaz que havia acabado de falar com ela. Tinha barba, cabelo loiro e usava gorro. Dentro de casa. E não era um gorro para se usar dentro de casa, mas um grosso, para manter as orelhas aquecidas. Um gorro de snowboard? Mas, olhando melhor para ele, não era um rapaz, mas um homem. Acima dos 30. Pelo menos tinha rugas brancas na pele bronzeada.
— E então? — gritou ela por sobre a música que trovejava pelo sistema de som no Krabbe. O restaurante recém-inaugurado havia alardeado ser o novo point para os músicos, cineastas e escritores de vanguarda de Stavanger, que de fato eram numerosos naquela cidade de petróleo, em geral mais propensa para se fazer negócios e dinheiro. Porém ainda era cedo demais para saber se o pessoal havia decidido se Krabbe merecia sua aprovação ou não. Assim como Stine ainda não havia decidido se aquele rapaz, homem, merecia a sua.
— Eu só acho que você devia me deixar contar — disse ele, mostrando um sorriso confiante, olhando para ela com um par de olhos que pareciam de um azul claro demais. Mas talvez fosse a luz ali dentro? Luz estroboscópica? Será que aquilo era bacana? O tempo diria.
Ele girou o copo de cerveja na mão e encostou-se no bar de modo que ela precisava se inclinar para a frente se quisesse ouvir o que ele dizia, mas ela não caiu no truque. Ele vestia uma jaqueta de duvet bem grossa, mas mesmo assim não havia um pingo de suor no seu rosto por baixo daquele gorro ridículo. Ou será que aquilo era bacana?
— Poucas pessoas que cruzaram o delta da Birmânia de moto voltaram com vida o suficiente para contar a história — comentou ele.
Com vida o suficiente. Um contador de histórias, então. De certa forma gostava. Ele a lembrava de alguém. Um herói de ação americano de um filme antigo ou de um seriado dos anos 1980.
— Prometi a mim mesmo que, se eu conseguisse voltar a Stavanger, eu ia sair, comprar um chope e abordar a garota mais linda que eu encontrasse, e dizer exatamente o que estou dizendo agora. — Ele abriu os braços, deixando aparecer um largo sorriso cheio de dentes brancos. — Acho que você é a garota do templo.
— Como é?
— Rudyard Kipling, linda. Você é a garota que está esperando pelo soldado inglês no templo azul de Moulmein. O que diz? Quer me acompanhar caminhando descalça no mármore em Shwedagon? Comer carne de cobra em Bago? Dormir ao som da prece muçulmana em Yangon e acordar ao som da prece budista em Mandalay?
Ele respirou fundo, e ela se inclinou para a frente:
— Então, sou a garota mais linda aqui dentro?
Ele olhou ao redor.
— Não, mas você tem os maiores peitos. Você é linda, mas a concorrência é dura demais para você ser a mais bela. Vamos embora?
Ela riu e fez que não. Não sabia se ele era engraçado ou maluco.
— Estou com uma amiga. Tente o truque com outras.
— Elias.
— Como é?
— Você estava querendo saber meu nome. Caso a gente se encontre de novo. E meu nome é Elias. Skog. Vai se esquecer do sobrenome, mas vai se lembrar de Elias. E nós nos veremos de novo. Bem antes que você imagine, aliás.
Ela inclinou a cabeça.
— É mesmo?
Ele inclinou a cabeça, imitando-a:
— É.
Em seguida esvaziou o copo, colocou-o no bar, riu para ela e foi embora.
— Que cara era aquele?
Era a Mathilde.
— Não sei — respondeu Stine. — Era bacana. Mas esquisito. Seu dialeto era da região leste.
— Esquisito?
— Havia algo estranho com os olhos dele. E os dentes. Aqui tem luz estroboscópica?
— Luz estroboscópica?
Stine riu.
— É, aquela luz tipo de pasta de dente e cama de bronzeamento artificial, de uma cor azulada. Que deixa você com cara de zumbi.
Mathilde fez que não.
— Você está precisando de um drinque. Vem.
Ao seguir sua amiga, Stine virou-se para a entrada. Ela pensou ter visto um rosto contra o vidro, mas não havia ninguém.