O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 77 de 96

Páginas do PDF

O Leopardo

Capítulo 77

IMPRESSÕES DIGITAIS

 

Eram dez e dez da manhã quando o helicóptero aterrissou num espinhaço a oeste das montanhas de Hallingskarvet. Às onze localizaram a cabana.

Estava tão bem escondida na paisagem que, mesmo tendo uma ideia geral do local, não a teriam encontrado se Jens Rath não os tivesse acompanhado. A cabana fora construída em pedra bem no alto a leste, protegida pela montanha, alto demais para ser atingida por avalanches. As pedras foram carregadas para lá dos arredores e cimentadas por entre duas rochas, formando as paredes laterais e do fundo. Não havia nenhum ângulo reto visível. As janelas pareciam frestas de bunker e estavam tão fundas na parede que o sol não era refletido nelas.

— É isso que chamo de uma cabana de verdade — disse Bjørn Holm, tirando seus esquis e imediatamente afundando na neve até os joelhos.

Harry disse a Jens que a partir dali não precisavam mais de seus serviços e que ele devia voltar ao helicóptero e esperar lá com o piloto.

A neve não era tão funda em frente à porta.

— Alguém tirou a neve aqui há pouco tempo — comentou Harry.

A porta tinha uma placa de ferro e um cadeado simples, que cedeu ao pé de cabra de Bjørn sem muita resistência.

Antes de abrir, tiraram as luvas que usavam e puseram luvas de látex e sacos de plástico azul por cima das botas de esqui. E entraram.

— Uau — disse Bjørn baixinho.

A cabana toda consistia em um único cômodo de aproximadamente cinco por três metros e lembrava uma cabine de comandante de navio, com janelas parecendo escotilhas e soluções práticas para otimizar o espaço. O piso, as paredes e o teto haviam sido revestidos com tábuas grossas, não tratadas, que haviam recebido duas camadas de tinta branca para que o pouco de luz que entrava fosse aproveitado. A parede estreita à direita estava ocupada com uma bancada de cozinha com uma pia e um armário por baixo, além de um divã que, pelo visto, também servia de cama. No meio do cômodo havia uma mesa de jantar com uma única cadeira simples manchada de tinta. Diante de uma das janelas encontrava-se uma escrivaninha velha com iniciais e partes de letras de músicas entalhadas na madeira. À esquerda, na parede maior, onde a rocha era aparente, havia um fogão preto. Para aproveitar melhor o calor, o encanamento do fogão circundava a pedra à direita antes de subir verticalmente. A cesta de lenha estava cheia de troncos de bétula e jornais para atiçar o fogo. Nas paredes havia um mapa da região e outro da África.

Bjørn olhou pela janela sobre a escrivaninha.

— E isso que chamo de uma vista de verdade. Cara, dá para ver metade da Noruega daqui.

— Vamos começar — disse Harry. — O piloto nos deu duas horas, há nuvens chegando pelo litoral.

 

Como sempre, Mikael Bellman levantou às seis e correu na esteira no porão para acordar. Ele havia sonhado com Kaja de novo. Estava sentada numa moto, abraçada a um homem que era só capacete e visor. Ela estava sorrindo, feliz, mostrando os dentes pontudos, e acenou quando partiram. Mas não haviam roubado a moto? Não era dele? Ele não sabia ao certo, porque o cabelo dela, que esvoaçava no vento, era tão comprido que cobria a placa da moto.

Depois de correr, Mikael tomou banho antes de subir para o café.

Ele havia se preparado antes de abrir o jornal da manhã que Ulla, como sempre, havia colocado ao lado do seu prato.

Na falta de uma foto de Sigurd Altman, o Cavalheiro, eles haviam publicado a foto de Skai. Ele estava na frente da sua delegacia de braços cruzados, com um boné verde com aba longa, parecendo um maldito caçador de ursos. A manchete: “O CAVALHEIRO FOI PRESO?” E ao lado, em cima da foto de uma motoneve amarela esmigalhada: “OUTRO CORPO ENCONTRADO EM USTAOSET .”

Bellman deu uma olhada no texto à procura da palavra Kripos ou, pior de tudo, seu próprio nome. Nada na primeira página. Ótimo.

Ele abriu as páginas da matéria, e lá estava, com foto e tudo:

O chefe da Kripos, Mikael Bellman, disse num curto comentário que não quer se pronunciar até que o Cavalheiro tenha sido interrogado. E também não tem nada a dizer sobre a detenção do suspeito pela polícia de Ytre Enebakk.

“Em geral, posso dizer que todo o trabalho da polícia é um trabalho de equipe. Na Kripos, não damos tanta importância às pessoas que recebem as honras.”

 

Ele não devia ter dito aquela última parte. Era uma mentira, seria entendido como mentira e fedia de longe à frase de um mau perdedor.

Mas pouco importava. Porque, se aquilo que Johan Krohn havia lhe contado por telefone no dia anterior fosse verdade, Bellman tinha uma oportunidade de ouro para consertar tudo. Mais do que isso. De ele mesmo receber as honras. Sabia que o preço que Krohn exigiria seria alto, porém também sabia que não era ele quem teria que pagar. Mas aquele maldito caçador de ursos. E Harry Hole e a Divisão de Homicídios.

Um guarda da prisão segurou a porta de visitantes, e Mikael Bellman deixou Johan Krohn entrar primeiro. Krohn havia insistido que, por ser uma conversa e não um interrogatório formal, encontrariam-se num local que fosse o mais neutro possível. Já que estava fora de questão tirar o Cavalheiro da prisão distrital de Oslo, Krohn e Bellman concordaram em usar uma das salas de visita, normalmente usada para encontros particulares entre o preso e a família. Sem câmera, sem microfone, apenas uma sala sem janelas onde fora feito um esforço mínimo de alegrar o ambiente, com toalha de crochê na mesa e uma tapeçaria na parede. Os namorados e cônjuges tinham permissão para se encontrar ali, e as molas do sofá manchado de sêmen estavam tão gastas que Bellman podia ver Krohn afundar no tecido ao se sentar.

Sigurd Altman estava sentado numa cadeira na ponta da mesa. Bellman se sentou na outra cadeira, de modo que ele e Altman ficaram na mesma altura. O rosto de Altman aparentava magreza, tinha olhos fundos e uma boca marcante com dentes protuberantes, o que fez Bellman pensar em fotos de judeus macilentos em Auschwitz. E no monstro de Alien.

— Conversas como essa não seguem procedimentos regulares — disse Bellman. — Por isso, insisto que não sejam feitas anotações e que o que for dito aqui não passe dessas paredes.

— Ao mesmo tempo, temos que ter uma garantia de que as condições para uma confissão sejam cumpridas pelo promotor de justiça — rebateu Krohn.

— Tem a minha palavra — respondeu Bellman.

— E agradeço humildemente por isso. O que mais tem a oferecer?

— Mais? — Bellman esboçou um sorriso. — Do que mais gostaria? Um acordo por escrito e assinado? — Maldito advogado babaca e arrogante.

— De preferência — rebateu Krohn, passando uma folha de papel por cima da mesa.

Bellman olhou para o papel. Ele leu por alto, seu olhar saltando de frase em frase.

— Obviamente, não será mostrado a ninguém sem necessidade — disse Krohn. — E o documento será devolvido a você quando as condições forem cumpridas. E isso… — Ele estendeu uma caneta para Bellman — … é uma S.T. Dupont, a melhor caneta-tinteiro que existe.

Bellman pegou a caneta e colocou-a na mesa ao seu lado.

— Se a história for boa o bastante, eu assino.

 

— Se isso aqui é para ser a cena de um crime, a pessoa fez uma bela limpeza.

Bjørn Holm colocou as mãos na cintura e olhou ao redor do cômodo. Eles haviam procurado em todo canto, em gavetas e armários, usando a lanterna em busca de vestígios de sangue e coletando impressões digitais. O laptop estava sobre a mesa, conectado a um scanner de impressões digitais do tamanho de uma caixa de fósforos, semelhante àquele que atualmente era usado em alguns aeroportos para identificar os passageiros. Até agora, todas as impressões eram de uma única pessoa envolvida no caso: Tony Leike.

— Continue — disse Harry, que estava de joelhos por baixo da pia, desatarraxando os canos de plástico. — Está aqui em algum lugar.

— O quê?

— Não sei. Alguma coisa.

— Se é para continuar, precisamos esquentar o lugar.

— Então acenda o fogão.

Bjørn Holm ficou de cócoras ao lado dele, abriu a portinha e começou a rasgar e amassar páginas de jornal do cesto de lenha.

— O que você ofereceu a Skai para ele entrar no seu jogo? Ele está arriscando muito caso a verdade venha à tona.

— Ele não está arriscando nada — retrucou Harry. — Ele não tem dito uma única palavra que não seja verdadeira, é só olhar seus depoimentos. Foi a mídia que chegou à conclusão errada. E não há nenhuma instrução da polícia sobre quem pode e quem não pode prender algum suspeito. Não precisei oferecer nada pela ajuda dele. Ele disse que desgosta menos de mim do que de Bellman, e foi motivo suficiente.

— Foi só isso?

— Bem, ele me contou sobre sua filha, Mia. As coisas não têm dado muito certo para ela. Nesses casos, os pais procuram um motivo, algo concreto para culpar. E Skai acha que aquela noite em frente ao salão de baile marcou Mia para o resto da vida. As fofocas dizem que Mia e Ole haviam sido namorados, e que Ole não a pegou em flagrante apenas dando beijinhos inocentes na floresta. Para Skai, Ole e Tony são os culpados pelos problemas da filha.

Bjørn balançou a cabeça.

— Vítimas, vítimas, estão em todo o canto.

Harry se aproximou de Bjørn e estendeu a mão. Na palma havia pedacinhos de algo que parecia fio de arame cortado de alguma cerca.

— Estava embaixo do cano de sucção. Tem ideia do que se trata?

Bjørn pegou os pedacinhos e os estudou.

— Cara! — exclamou Harry. — O que é isso?

— O quê?

— O jornal. Olha, é da coletiva de imprensa quando montamos a armadilha de Iska Peller.

Bjørn Holm olhou para a foto de Bellman, que ficou visível quando ele havia rasgado a primeira página.

— Pior que é…

— Aquele jornal só tem alguns dias. Alguém esteve aqui recentemente.

— Pior que é.

— Talvez tenha impressões digitais na primeira pá… — Harry olhou para dentro do fogão, onde a primeira página tinha acabado de pegar fogo.

— Lamento — disse Bjørn. — Mas posso checar as outras páginas.

— Ok. Na verdade, estou intrigado com aquela lenha.

— É?

— Não há uma árvore em um raio de quilômetros. Cheque o jornal, eu vou dar uma volta lá fora.

 

Mikael Bellman olhou para Sigurd Altman. Ele não gostou do seu olhar frio. Não gostou do corpo ossudo, a arcada dentária que fazia pressão contra os lábios, os movimentos desarmoniosos ou seu ceceio desajeitado. Mas ele não precisava gostar de Sigurd Altman para considerá-lo seu salvador e benfeitor. A cada palavra dita por ele, Bellman estava um passo mais próximo da vitória.

— Suponho que tenha lido o relatório de Harry Hole, apresentando o desenrolar dos eventos — disse Altman.

— Quer dizer o relatório do delegado Skai? — perguntou Bellman. — A apresentação de Skai?

Altman esboçou um sorriso.

— Como quiser. A história que Harry contou foi espantosamente correta. O problema é que só contém uma única prova concreta. Minhas impressões digitais na casa de Tony Leike. Bem, digamos que eu fui até lá, fiz uma visita a ele. E que conversamos sobre os bons e velhos tempos.

Bellman deu de ombros.

— E você acha que um júri vai acreditar nisso?

— Gosto de pensar em mim como alguém que inspira confiança. Mas… — Os lábios de Altman subiram, deixando a gengiva à mostra. — Agora não vou mais ter que encarar um júri, não é?

 

Harry encontrou a lenha empilhada sob uma lona verde, embaixo de uma rocha saliente da montanha. Um machado estava enfiado num cepo, e ao lado havia uma faca. Harry olhou em torno e chutou a neve. Não havia muita coisa interessante ali. Sua bota bateu em algo. Um saco de plástico branco, vazio. Ele se agachou. Tinha uma etiqueta com a especificação do produto. Dez metros de gaze. O que aquilo estava fazendo ali?

Harry inclinou a cabeça e olhou por um tempo para o cepo. Olhou para a lâmina preta enfiada na madeira. Para a faca. Para o cabo. Amarelo, liso. O que uma faca fazia num cepo? Podia ter muitos motivos, claro, mas…

Ele pôs a mão esquerda no cepo, de modo que o coto do dedo do meio ficou apontando para cima e os outros dedos ficaram pressionados para baixo.

Harry soltou a faca devagar, segurando-a com dois dedos no alto do cabo. Estava tão afiada quanto uma lâmina de barbear. E tinha traços do que ele sempre procurava na sua profissão. Então correu como um alce de pernas compridas na neve funda.

Bjørn desviou os olhos do laptop quando Harry irrompeu na cabana.

— Só mais Tony Leike — suspirou.

— Tem sangue na lâmina da faca — disse Harry ofegante. — Procure impressões no cabo.

Bjørn pegou a faca com cuidado. Pulverizou pó preto na madeira amarela envernizada, e soprou com cuidado.

— Só tem um par de impressões aqui, mas em compensação é lindo — concluiu ele. — Talvez tenha células epiteliais também.

— Beleza! — disse Harry.

— Qual é a história?

— O sujeito que deixou a impressão digital cortou o dedo de Tony Leike.

— Ah, é? O que te faz…

— Tem sangue no cepo. E ele estava com gaze de prontidão para estancar a ferida. E eu tenho a sensação de ter visto aquela faca antes. Numa foto granulada de Adele Vetlesen.

Bjørn Holm assobiou baixinho, pressionou a folha transparente contra o cabo para o pó grudar. Depois colocou a folha no scanner.

— Sigurd Altman, talvez você consiga um bom advogado para arrumar uma desculpa para as impressões digitais na mesa de Leike — murmurou Harry enquanto Bjørn apertava o botão “buscar” e os dois seguiram a linha azul que se moveu aos trancos e barrancos para a direita na barra. — Mas não a impressão nessa faca.

Pronto...

Um par idêntico encontrado.

Bjørn Holm apertou “mostrar”.

Harry olhou para o nome que apareceu.

— Ainda acha que é a impressão digital da pessoa que cortou fora o dedo de Tony? — perguntou Bjørn Holm.