O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 74 de 96

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O Leopardo

Capítulo 74

BRISTOL CREAM

 

– Prefiro Sigurd.

— Pena que não é tão fácil trocar de nome como de sobrenome — declarou Harry e se inclinou para a frente entre os assentos. — Quando você me contou que tinha trocado o sobrenome comum que termina em -sen, não pensei que o S em Ole S. Hansen podia ser de Sigurd. Mas isso ajudou você, Sigurd? O novo nome fez de você alguém diferente da pessoa que perdeu tudo no cascalho nesse mesmo lugar?

Sigurd deu de ombros.

— A gente foge como pode. Suponho que o novo nome tenha me levado a uma parte do caminho.

— Hum. Verifiquei algumas coisas hoje. Quando você se mudou daqui para Oslo, começou os estudos de enfermagem. Por que não de medicina? Afinal, você só tinha notas altas no colégio.

— Eu queria evitar ter que falar em público — explicou Sigurd e esboçou um sorriso. — Presumi que não teria que fazer isso como enfermeiro.

— Liguei e falei com um fonoaudiólogo hoje e ele me disse que dependendo de que músculos estejam danificados, é possível, pelo menos em teoria, se treinar para falar quase perfeitamente de novo, mesmo faltando metade da língua.

— Os “esses” são difíceis sem a ponta da língua. Foi isso que me entregou?

Harry baixou a janela e acendeu o cigarro. Ele tragou com tanta força que o papel crepitou e estalou.

— Foi uma das coisas. Mas fomos levados na direção errada por algum tempo. O fonoaudiólogo me contou que as pessoas têm uma tendência de associar ceceio com a fala dos gays. Em inglês se chama “gay lisp” e não é ceceio no sentido fonoaudiológico, apenas outra maneira de pronunciar o “esse”. Os gays podem ligar e desligar o ceceio, eles o usam como um código. E o código funciona. O fonoaudiólogo disse que fizeram uma pesquisa linguística numa universidade americana para ver se as pessoas podiam adivinhar a orientação sexual de alguém ouvindo gravações da fala. O resultado foi razoavelmente correto. Mas mostrou que a percepção do gay lisp era tão forte que ocultava outros sinais de fala típicos de heterossexuais. Quando o recepcionista no Hotel Bristol disse que um homem havia perguntado por Iska Peller e que ele falava de modo afeminado, foi vítima do mesmo estereótipo. Foi só quando ele demonstrou como a pessoa havia falado que entendi que ele havia se deixado enganar pelo ceceio.

— Deve ter sido um pouco mais que isso.

— Claro. Bristol. É um bairro em Sydney, Austrália. Vejo que já entendeu a conexão.

— Espere — disse Bjørn. — Eu não entendi.

Harry soprou fumaça pela janela.

— O Boneco de Neve me disse que o assassino queria estar por perto, que ele já havia passado no meu campo visual. Que ele havia tocado em mim. Então, quando uma garrafa de Bristol Cream passou pelo meu campo visual, tudo se encaixou. Me lembrei de ter visto uma etiqueta com o mesmo nome pouco tempo antes e contado algo a uma pessoa. Uma pessoa que tinha se aproximado de mim. E de repente entendi que o meu comentário havia sido interpretado erroneamente. Eu tinha dito que o paradeiro de Iska Peller era Bristol. A pessoa achou que eu me referia ao Hotel Bristol, em Oslo. Eu disse isso a você, Sigurd. No hospital, logo depois da avalanche.

— Você tem uma boa memória.

— Para algumas coisas. Quando tinha começado a suspeitar de você, outras coisas se tornaram óbvias. Como aquilo que você mesmo disse sobre cetamina; que é preciso trabalhar na área de anestesia para conseguir a droga na Noruega. Como um amigo meu disse que a gente deseja o que vê todo dia, o que pode sugerir que quem tem fantasias sexuais de uma mulher vestida de enfermeira talvez trabalhe num hospital. Como o nome do usuário do computador na fábrica Kadok era Nashville, o nome de um filme dirigido por…

— Robert Altman, 1975 — completou Sigurd. — Uma obra-prima bastante subestimada.

— E que a cadeira dobrável no quartel-general evidentemente era do diretor. Do diretor mestre Sigurd Altman.

Sigurd não respondeu.

— Mas eu ainda não sabia qual era o motivo — prosseguiu Harry. — O Boneco de Neve me disse que o assassino era guiado por ódio. E que o ódio foi engendrado por um único acontecimento, algo que havia ocorrido há muito tempo. Possivelmente, eu tinha uma ideia. A língua. O ceceio. Levei uma amiga de Bergen a fazer um levantamento sobre Sigurd Altman. Ela demorou em torno de trinta segundos para encontrar a alteração do seu nome no registro civil e de ligá-lo ao seu antigo nome mencionado na sentença por agressão de Tony Leike.

Um cigarro foi jogado pela janela do Cherokee, deixando um rastro de fagulhas.

— Então, faltou apenas a questão sobre a linha do tempo — continuou Harry. — Checamos as listas de plantão no Hospital Central. Aparentemente, você tem um álibi para dois assassinatos. Estava de plantão quando Marit Olsen e Borgny Stem-Myhre foram mortas. Mas ambas ocorreram em Oslo, e não há ninguém no Hospital Central que tivesse certeza de que você estava lá nos horários em questão. E como você passa de uma ala à outra, não há ninguém que sinta sua falta se não é visto por algumas horas. Se eu não estiver enganado, você vai me contar que passa a maior parte do tempo livre sozinho. E em casa.

Sigurd Altman deu de ombros.

— Provavelmente.

— É isso aí então — concluiu Harry e bateu as mãos.

— Espera um pouco — ordenou Altman. — O que você me contou é apenas ficção. Você não tem uma única prova concreta.

— Ah, esqueci — rebateu Harry. — Se lembra das fotos que mostrei a você hoje cedo? Que pedi para olhar e que achou que eram grudentas?

— O que têm as fotos?

— Pegar naquele tipo de foto deixa excelentes impressões digitais. As suas eram idênticas àquelas que encontramos na casa de Tony Leike.

A expressão no rosto de Sigurd Altman se alterou lentamente conforme a ficha foi caindo.

— Você só me mostrou… para que eu pegasse nelas? — Altman fitou Harry por alguns segundos, petrificado. Então pôs o rosto nas mãos. E um som subiu por entre os dedos. Risos.

— Você pensou em praticamente tudo — prosseguiu Harry. — Por que não pensou que seria bom ter algo que pudesse parecer um álibi?

— Não me ocorreu que eu precisaria. — Altman riu. — Você teria descoberto tudo de qualquer maneira, não é, Harry?

Os olhos por trás dos óculos estavam úmidos, mas não arrasados. Resignados. Harry tinha visto isso antes. O alívio de ser pego. De finalmente poder contar.

— Provavelmente — disse Harry. — Quero dizer, oficialmente não descobri nada. Foi aquele homem no carro ali. Por isso ele que vai te prender.

Sigurd tirou os óculos e secou as lágrimas de riso.

— Então você mentiu quando disse que precisava de mim para dar uma olhada na cetamina?

— Foi, mas não menti quando disse que você ia fazer parte da história criminal da Noruega.

Harry acenou para Bjørn, que piscou os faróis.

Um homem saltou do Cherokee.

— Um velho conhecido seu — disse Harry. — Pelo menos a filha dele era.

O homem andou na direção deles, levemente calvo, erguendo as calças pelo cinto. Como um velho policial.

— Só uma última questão — acrescentou Harry. — O Boneco de Neve disse que o assassino ia chegar a mim de modo despercebido, enquanto eu estivesse fraco. Talvez. Como você fez isso?

Sigurd colocou os óculos de volta no rosto.

— Todos os pacientes que são internados precisam indicar uma pessoa próxima. Seu pai deve ter dado o seu nome, porque na lanchonete uma das enfermeiras mencionou que o pai do policial que tinha prendido o Boneco de Neve, Harry Hole, o próprio, estava na sua ala. Presumi que alguém com o seu renome estivesse na frente do caso. Naquele momento, eu trabalhava em alas diferentes, mas pedi ao meu chefe para usar seu pai num projeto de anestesia que estava escrevendo, falei que ele se enquadrava perfeitamente no meu grupo de teste. Pensei que, se eu encontrasse você por intermédio dele, podia ter uma ideia de como andava o caso.

— Podia estar por perto, você quer dizer. Seguir o processo do caso e confirmar sua superioridade.

— Quando você finalmente apareceu, eu tive que tomar cuidado para não perguntar diretamente sobre a investigação. — Sigurd Altman respirou fundo. — Eu não queria levantar suspeitas. Precisava ter paciência, esperar até ganhar sua confiança.

— E conseguiu.

Sigurd Altman afirmou com um lento movimento da cabeça.

— Obrigado, gosto de acreditar que sou uma pessoa confiável. Além do mais, eu chamava a sala na fábrica Kadok de “sala de recortes”. Quando vocês a arrombaram, perdi a cabeça. Era o meu lar. Fiquei tão furioso que quase desconectei seu pai do respirador, Harry. Mas não fiz. Gostaria que soubesse.

Harry não respondeu.

— Só uma dúvida — disse Sigurd. — Como descobriram a cabana de turistas fechada?

Harry deu de ombros.

— Por acaso. Eu e um colega tivemos que passar a noite lá. Parecia que alguém havia acabado de sair do lugar. E tinha alguma coisa grudada ao fogão. Pedaços de bacon, pensei. Levei algum tempo para fazer a conexão ao braço despontando por baixo da motoneve. Parecia salsicha grelhada. O delegado foi à cabana, retirou os pedaços e mandou para uma análise de DNA. Teremos o resultado em poucos dias. Tony tinha alguns pertences pessoais lá. Por exemplo, encontrei uma foto de família numa gaveta. Tony quando menino. Você não arrumou o lugar direito, Sigurd.

O policial havia parado ao lado da janela do motorista e Bjørn desceu o vidro. Ele se abaixou e olhou por cima de Bjørn para Sigurd Altman.

— Oi, Ole — cumprimentou Skai. — Estou te detendo pelo assassinato de um monte de pessoas de quem eu devia ler os nomes para você agora, mas vamos tratar de uma coisa de cada vez. Antes de eu dar a volta para abrir a porta, quero que coloque as mãos em cima do painel onde eu possa vê-las. Vou colocar algemas e você vai me acompanhar a uma cela nova e limpa. Minha mulher fez bolinhos de carne com purê de batatas. Pelo que me lembro, você gostava disso. Tudo bem para você, Ole?