O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 45 de 96

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O Leopardo

Capítulo 45

INTERROGATÓRIO

 

Mikael Bellman havia sonhado com queda livre de novo. Escalando sozinho em El Chorro, a mão que não tem onde se segurar, a parede rochosa que passa depressa diante de seus olhos, o chão vindo veloz a seu encontro. O despertador que tocou no último momento. Ele limpou a gema de ovo do canto da boca e levantou os olhos para Ulla, que estava atrás dele servindo café. Ela havia aprendido a saber o momento exato em que ele tinha terminado de comer, e era nessa hora, nem um segundo antes, que ele queria seu café, fumegante, servido na xícara azul. E esse era apenas um dos motivos pelos quais ele a apreciava. Outro era que Ulla se mantinha em tão boa forma que ainda atraía olhares nas festas às quais eram convidados com cada vez mais frequência. Afinal, Ulla fora, sem dúvida, a mulher mais bonita de Manglerud quando eles começaram a sair juntos, ele com 18 e ela com 19 anos. O terceiro motivo era que Ulla, sem fazer grande alarde, havia colocado de lado seu próprio sonho de continuar os estudos, para que ele pudesse dar prioridade ao seu trabalho. Mas os três motivos mais importantes estavam sentados em volta da mesa, brigando sobre quem ia ficar com os bonecos de plástico da caixa de cereais e quem ia sentar na frente quando a mãe os levasse de carro para a escola. Duas meninas, um menino. Três motivos perfeitos para valorizar a mulher e a compatibilidade de seus genes com os dele.

— Vai chegar tarde hoje também? — perguntou ela e passou a mão furtivamente pelo cabelo dele. Bellman sabia que ela adorava seu cabelo.

— O interrogatório pode se estender — disse ele. — Vamos começar com o suspeito hoje. — Sabia que durante o dia os jornais iam publicar o que já sabiam: que o preso era Tony Leike. Mas por princípio nunca mencionava confidencialidades em casa. Isso também lhe permitia explicar as horas extras com: “Não posso falar sobre isso, meu bem.”

— Por que não o interrogaram ontem? — perguntou ela enquanto colocava o lanche nas mochilas das crianças.

— Tivemos que reunir mais fatos. E terminar a busca na casa dele.

— Encontraram alguma coisa?

— Não posso ser tão específico, querida — rebateu ele, e mostrou aquele pesaroso olhar sigiloso. Para não ter que revelar o fato de que ela realmente tinha tocado num ponto sensível. Bjørn Holm e os outros peritos técnicos não haviam encontrado nada durante a busca que de imediato pudesse ser ligado aos homicídios. Mas, felizmente, por enquanto isso não tinha a menor importância. — Não faz mal ele ser amaciado numa cela de detenção durante uma noite — disse Bellman. — Isso só vai deixar ele mais receptivo quando a gente começar. E o começo de um interrogatório é sempre a parte mais importante.

— É? — perguntou ela, e ele sabia que a mulher estava se esforçando para parecer interessada.

— Tenho que ir. — Ele se levantou e beijou-a no rosto. Sim, ele realmente se importava com ela. A ideia de ter que desistir dela e dos filhos, o arranjo e a infraestrutura que o possibilitava subir, na carreira e socialmente, era obviamente absurda. Seguir o impulso de seus sentimentos, jogar tudo fora por uma paixão, seja lá qual fosse, era utópico, um sonho sobre o qual ele podia falar e pensar em voz alta, tendo Kaja como ouvinte, naturalmente. Mas em se tratando de sonhar, Mikael Bellman preferia sonhos maiores do que esse.

Ele conferiu os dentes da frente no espelho do corredor e verificou se a gravata de seda estava certa. Com certeza, a imprensa estaria reunida em peso na entrada da polícia.

Quanto tempo ia poder ficar com Kaja? Ele achou ter notado uma dúvida nela na noite anterior. E certa falta de entusiasmo na cama. Mas também sabia que, enquanto ele estava indo ao topo, como tinha feito até agora, poderia controlá-la. Não porque Kaja fosse uma caça-níquel, com metas claras para o que ele, como comandante geral, podia significar para sua própria carreira. Não se tratava de intelecto, mas pura biologia. As mulheres podiam ser tão modernas quanto quisessem, mas quando se tratava de subordinar-se ao líder da manada, elas se assemelhavam aos macacos. Mas se ela agora tivesse começado mesmo assim a ter dúvidas, por já entender que ele nunca ia renunciar da sua mulher em prol dela, talvez fosse o momento de dar-lhe um estímulo. Afinal, precisava que ela o alimentasse com informações sobre a Divisão de Homicídios por mais algum tempo, até que todos os fios soltos estivessem amarrados, até que o combate estivesse terminado. E a guerra, ganha.

Ele foi até a janela enquanto abotoava o casaco. A casa que haviam herdado dos seus pais ficava em Manglerud, não o melhor bairro da cidade, se você perguntasse aos moradores na zona leste. Mas as pessoas que haviam crescido ali tendiam a ficar; o bairro tinha personalidade. E era seu bairro. Com vista para o resto da cidade. Que em breve também seria dele.

 

— Estão chegando — disse o policial, que estava no vão da porta de uma das novas salas de interrogatório da Kripos.

— Ok — disse Mikael Bellman.

Alguns interrogadores gostavam de pôr o suspeito na sala primeiro, deixar com que esperasse, fazer com que entendesse quem estava no comando. Para depois fazer a entrada em grande estilo e começar com dureza, enquanto o suspeito se tornava cada vez mais defensivo e vulnerável. Bellman preferia já estar sentado, pronto, quando trouxessem o suspeito. Marcar território, mostrar quem era o dono do pedaço. Ele ainda podia fazer o suspeito esperar, folheando e lendo os documentos, sentir o nervosismo do outro aumentar e então — na hora H — levantar os olhos e atacar. Mas esses eram detalhes da técnica de interrogatório. Que ele obviamente estava aberto para discutir com outros chefes de interrogatório competentes. Ele verificou de novo se a luz vermelha de gravação estava ligada. Começar a mexer com partes técnicas depois que o suspeito havia chegado podia estragar toda a marcação preliminar.

Pelo vidro, ele viu Beavis e Kolkka entrarem na sala adjacente. Entre eles estava Tony Leike, que haviam trazido da detenção.

Bellman respirou fundo. Sim, sua pulsação já estava um pouco mais acelerada agora. Um misto de agressividade e nervosismo. Tony Leike havia recusado a oferta da presença de um advogado. A princípio, era uma vantagem óbvia para a Kripos; isso lhes dava maiores chances de sucesso. Mas ao mesmo tempo era um sinal de que Leike achava que tinha pouco a temer. Coitado do babaca. Ele não sabia que Bellman tinha provas de que Leike tinha ligado para Elias Skog logo antes de a vítima ser assassinada.

Bellman baixou o olhar para os documentos e ouviu Leike entrar na sala. Ouviu Beavis fechar a porta atrás dele do modo que lhe havia instruído.

— Sente-se — disse Bellman, sem levantar os olhos.

Ele ouviu Leike fazer como mandou.

Bellman parou num documento qualquer e passou o indicador para a frente e para trás sobre o lábio inferior enquanto contava devagar para si mesmo, começando por “um”. O silêncio vibrava na salinha fechada. Um, dois, três. Ele e seus colegas foram obrigados a participar de um workshop sobre o novo método de interrogatório que teriam que adotar, o chamado método de entrevista investigativa, onde a ideia básica, de acordo com esses caras acadêmicos distantes da realidade, era a franqueza, o diálogo e a confiança. Quatro, cinco, seis. Bellman havia escutado em silêncio — afinal, o modelo tinha sido selecionado pelo mais alto escalão —, mas que tipo de indivíduo é esse que o pessoal imaginava que a Kripos interrogava? Almas frágeis mas receptíveis, que iriam contar tudo o que você queria saber em troca de um ombro para chorar? Eles alegavam que o método que a polícia aplicava até então, o modelo tradicional americano do FBI de nove passos, era desumano e manipulativo, fazia inocentes confessarem atos que não haviam cometido e, por isso, era contraproducente. Sete, oito, nove. Ok, talvez houvesse um e outro franguinho facilmente influenciado em cana, mas que importância tinha contra todos os bandidos de sorriso maroto que iam sair dali, morrendo de rir da “franqueza, diálogo e confiança”?

Dez.

Bellman juntou as pontas dos dedos e levantou o olhar.

— Sabemos que você ligou para Elias Skog daqui de Oslo, e que você, dois dias depois, esteve em Stavanger. E que você o matou. Esses são os fatos que temos, mas o que quero saber é por quê? Ou não tinha motivo, Leike?

Era o primeiro dos nove passos do modelo de interrogar dos agentes do FBI Inbau, Reid e Buckley: O confronto, tentar aplicar o efeito de choque, nocauteando com o primeiro golpe, alegando que já sabiam tudo, que não valia a pena negar. Isso visava uma única coisa: a confissão. Neste caso, Bellman combinou o primeiro passo com outra técnica interrogativa: ligar um fato verdadeiro a um ou mais fatos falsos. Neste caso ele associou a data incontestável da ligação telefônica ao fato de Leike ter estado em Stavanger e que ele era o assassino. Ao ouvir as provas para a primeira alegação, Leike ia automaticamente acreditar que eles tivessem provas para as outras. E que esses fatos eram tão simples e irrefutáveis que eles podiam pular direto para o que ainda precisava de uma resposta: por quê?

Bellman viu Leike engolir em seco, viu-o tentar mostrar os dentes de coelho num sorriso, viu a confusão em seus olhos e sabia que já tinham ganhado.

— Não liguei para nenhum Elias Skog — respondeu Leike.

Bellman soltou um suspiro.

— Quer que eu mostre o registro de chamadas da Telenor?

Leike deu de ombros.

— Não liguei. Perdi um celular algum tempo atrás. Talvez alguém tenha usado para ligar para esse Skog?

— Não tente bancar o esperto, Leike. Estamos falando do seu telefone fixo.

— Eu não liguei para ele, estou dizendo.

— Estou ouvindo. De acordo com o registro de endereço, você mora sozinho?

— Sim. Quer dizer…

— Sua noiva dorme lá de vez em quando. E às vezes você levanta antes dela e vai para o trabalho enquanto ela fica no apartamento?

— Acontece. Mas eu fico mais na casa dela.

— Veja só, a filha do armador Galtung tem um refúgio mais bacana do que o seu, Leike?

— Pode ser. Mais aconchegante, pelo menos.

Bellman cruzou os braços e sorriu.

— De qualquer modo, se não foi você quem ligou para Skog da sua casa, deve ter sido ela. Tem cinco segundos para começar a dizer algo sensato, Leike. Em cinco segundos, uma patrulha nas ruas de Oslo receberá uma ordem de ir com as sirenes ligadas ao abrigo aconchegante dela, algemá-la, trazê-la para cá, deixá-la ligar para o pai e contar que você está culpando a filha dele por ter ligado para Skog. De forma que Galtung pode arrumar a pior matilha de advogados ferozes da Noruega para a filha, e aí você arranjou um verdadeiro inimigo. Quatro segundos... três.

Leike deu de ombros de novo.

— Se você achar que isso basta para conseguir um mandado de prisão de uma jovem com uma ficha reluzente de tão limpa, vai em frente. Mas, nesse caso, não acho que serei eu a arranjar um inimigo.

Bellman observou Leike. Será que o subestimou, afinal? Ele era mais difícil de ler agora. De qualquer modo, já haviam terminado o primeiro passo. Sem confissão. Certo, faltavam oito. O segundo do modelo dos nove passos era simpatizar com o suspeito, fazendo seus atos parecerem normais. Mas isso exigia que ele conhecesse o motivo, que tivesse algo para normalizar. O motivo para tirar a vida de todos os hóspedes que por acaso haviam pernoitado ao mesmo tempo numa cabana de turistas não era óbvio, além do óbvio de que boa parte dos motivos dos serial killers se esconde em lugares da mente que a maioria das pessoas nunca visitam. Por isso, ao se preparar, Bellman havia decidido apenas tocar de leve no passo da simpatia, antes de pular diretamente para o passo da motivação: dar ao suspeito um motivo para confessar.

— O que quero frisar, Leike, é que não sou seu inimigo. Sou apenas uma pessoa que quer entender por que você faz o que faz. O que te move. Você é claramente uma pessoa competente e inteligente, isso se vê pelo que conseguiu nos negócios. Fico fascinado por pessoas que se propõem uma meta e vão atrás dela, não importa o que os outros pensem a respeito. Pessoas que se destacam da massa medíocre. Posso até dizer que, nesse ponto, eu me reconheço. Talvez eu te entenda melhor do que você pensa, Tony.

Bellman havia mandado um investigador ligar para um dos companheiros de Leike na bolsa para saber se Leike preferia seu nome pronunciado como “Touni” ou “Toni”. A resposta foi “Toni”. Bellman usou a pronúncia correta ao mesmo tempo que prendeu o olhar de Leike e tentou mantê-lo.

— Agora vou dizer algo que não devia te contar, Tony. E é porque a gente, devido a algumas questões internas, dispõe de pouco tempo para esse caso, por isso queria logo uma confissão. Normalmente, a gente não ofereceria um acordo por uma confissão a um suspeito com provas tão contundentes quanto as do seu caso, mas adiantaria o processo. E em troca dessa confissão, que a gente na verdade nem precisa para que você seja condenado, te ofereço uma significante diminuição da pena. Infelizmente a lei me limita quanto a oferecer uma delação premiada com detalhes concretos, mas que seja dito entre você e eu agora que será sig-ni-fi-ca-ti-va. Tá legal, Tony? É uma promessa. E agora está gravada. — Ele apontou para a luz vermelha na mesa entre eles.

Leike fitou Bellman pensativo durante algum tempo. Depois abriu a boca.

— Os dois policiais que me trouxeram disseram que seu nome é Bellman.

— Pode me chamar de Mikael, Tony.

— Também me disseram que você é um homem bem inteligente. Durão, mas confiável.

— Acho que verá que é esse o caso.

— Você disse significativa, certo?

— Tem a minha palavra. — Bellman sentiu o pulso acelerar.

— Ok — respondeu Leike.

— Ótimo — disse Mikael Bellman de leve e tocou rapidinho o lábio inferior com o polegar e o indicador. — Vamos começar do início?

— Com prazer — rebateu Leike e retirou do bolso de trás um pedaço de papel que Truls e Jussi haviam deixado que ficasse com ele.

“Consegui as datas e os horários com Harry Hole, portanto, não deve demorar. Borgny Stem-Myhre morreu mais ou menos entre às vinte e duas e vinte e três horas do dia 16 de dezembro em Oslo.”

— Correto — disse Bellman e sentiu um júbilo inicial no coração.

— Conferi minha agenda. Naquele momento, eu estava na cidade de Skien na sala Peer Gynt na casa Ibsen, falando sobre meu projeto de coltan. Pode ser confirmado pelo locador e cerca de 120 investidores em potencial que estavam presentes. Suponho que saibam que leva em torno de duas horas de carro para chegar ao local. A próxima vítima foi Charlotte Lolles entre… vamos ver… consta entre as vinte e três e meia-noite do dia três de janeiro. Naquela hora eu estava jantando com alguns pequenos investidores na cidade de Hamar. Duas horas de carro de Oslo. Aliás, fui de trem e tentei encontrar essa passagem, mas, infelizmente, não consegui.

Exibiu um sorriso lastimoso a Bellman, que havia parado de respirar. E mal era possível enxergar os dentes perfeitos de Leike entre seus lábios quando ele finalizou:

— Mas espero que pelo menos algumas das doze testemunhas presentes durante o jantar possam ser consideradas confiáveis.

 

— Então ele disse que havia a possibilidade de ser acusado pelo assassinato de Marit Olsen, porque mesmo que estivesse em casa com a noiva naquela noite, de fato passou duas horas esquiando sozinho nas trilhas iluminadas em Sørkedalen.

Mikael Bellman balançou a cabeça e enfiou as mãos ainda mais fundo nos bolsos do casaco enquanto estudava a pintura A menina doente.

— No horário em que Marit Olsen foi morta? — perguntou Kaja, inclinando um pouco a cabeça ao reparar na boca da moça pálida, provavelmente à beira da morte. Ela costumava se concentrar em uma coisa de cada vez quando os dois se encontravam ali no museu Munch. Podia ser os olhos, outra vez a paisagem no fundo, o sol, ou simplesmente a assinatura de Edvard Munch.

— Ele disse que nem ele nem essa filha de Galtung…

— Lene — disse Kaja.

— Lembrava exatamente a que horas foi, mas que pode ter sido bem tarde; ele costumava sair para esquiar a essa hora para ter as trilhas só para si.

— Então, Tony Leike pode ter estado no Parque de Frogner. Se ele esteve em Sørkedalen, deve ter passado pelo pedágio eletrônico na ida e na volta. Se ele tem um cartão de passagem automático de pedágio, os horários ficam registrados. E aí pode…

Ela havia se virado e emudeceu ao deparar-se com seu olhar frio.

— Mas é óbvio que vocês já devem ter verificado — comentou ela.

— Não foi necessário — disse Mikael. — Ele não tem cartão de passe livre, paga a cada vez que passa por um pedágio. Nesse caso, o carro não é registrado.

Ela fez que sim com a cabeça. O casal continuou até a pintura seguinte, ficando atrás de alguns japoneses que apontavam e gesticulavam ruidosamente. A vantagem de se encontrarem no museu Munch em dias da semana, além de ficar entre a Kripos em Bryn e a Divisão de Homicídios em Grønland, era por ser um desses lugares turísticos em Oslo onde você tinha a certeza de não arriscar cruzar com colegas, vizinhos ou pessoas conhecidas.

— O que Leike disse sobre Elias Skog e Stavanger? — perguntou Kaja.

Mikael balançou a cabeça outra vez.

— Ele disse que provavelmente podia ser acusado disso também. Já que tinha dormido sozinho naquela noite, não tinha um álibi. Então perguntei se ele tinha ido ao trabalho no dia seguinte, e disse que não se lembrava, mas supunha que devia ter chegado às sete como sempre fazia. E que eu podia verificar com a recepcionista dos escritórios compartilhados se eu achasse importante. Foi o que fiz, e fiquei sabendo que Leike havia reservado uma sala de reuniões para às nove e quinze. Ao conversar com alguns investidores do seu escritório, dois deles confirmaram que estiveram na reunião com Leike. Se ele saiu do apartamento de Elias Skog às três de madrugada, precisaria ter pegado um avião para conseguir chegar a tempo. E seu nome não está registrado em nenhuma lista de voo.

— Não quer dizer grande coisa, ele pode ter viajado com nome e identidade falsos. E temos ainda a ligação para Skog. Qual foi a explicação dele?

— Ele nem tentou explicar, só negou — bufou Bellman. — O que é que as pessoas acham tanta graça em A dança da vida? Nem tem rostos de verdade. Parecem uns zumbis.

Kaja estudou as pessoas dançando na pintura.

— Talvez sejam mesmo — refletiu ela.

— Zumbis? — Bellman soltou um riso curto. — Acha mesmo?

— Pessoas que andam por aí, que dançam, mas sentindo-se mortas por dentro, enterradas, em decomposição. Com certeza.

— Teoria interessante, Solness.

Ela detestava quando ele a chamava pelo sobrenome, o que ele tendia a fazer quando estava com raiva ou achava que estava na hora de lembrá-la da superioridade intelectual dele. O que ela havia permitido, uma vez que parecia tão importante para ele. E talvez fosse fato. Não era isso um dos motivos que a fez cair de quatro por ele, sua evidente inteligência? Agora não se lembrava mais disso com muita clareza.

— Preciso voltar ao trabalho — comentou ela.

— Para fazer o quê? — perguntou Mikael e olhou para o segurança que estava bocejando atrás da corda no fundo da sala. — Contar clipes e esperar sua divisão acabar? Está sabendo que você me deu um problemão com esse Leike?

— Eu?

— Abaixe o tom, querida. Foi você que ligou dando a dica sobre o que Harry havia descoberto sobre Leike. Que ele estava prestes a prendê-lo. Confiei em você. Confiei tanto que prendi Leike com base nas suas dicas, e depois praticamente contei à imprensa que o caso estava solucionado. E agora essa merda toda explodiu na cara da gente. O cara tem um álibi incontestável para pelo menos dois dos assassinatos, querida, vamos ter que soltá-lo ainda hoje. Certamente, o sogro Galtung já deve estar pensando em processos e advogados do inferno, e o ministro da Justiça vai querer saber como essa falha de merda foi acontecer. E a cabeça que está na forca neste momento não é a sua, de Hole ou de Hagen, mas a minha, Solness. Entendeu? Apenas a minha. E temos que fazer algo a respeito. Você precisa fazer algo.

— E o que seria?

— Não muito, só uma coisinha, depois a gente acerta o resto. Quero que saia com Harry. Esta noite.

— Sair? Eu?

— Ele gosta de você.

— De onde tirou essa ideia?

— Não te contei que vi vocês fumando no terraço?

Kaja empalideceu.

— Você chegou tarde, mas não disse nada de ter visto a gente.

— Vocês estavam tão absortos um no outro que nem notaram que eu estava chegando, por isso parei e fiquei olhando para vocês. Ele gosta de você, querida. Agora quero que você o leve para algum lugar, só por umas duas horas.

— Por quê?

Mikael Bellman sorriu.

— Ele fica demais em casa. Hagen nunca devia ter dado folga a ele, pessoas como Hole não aguentam. E a gente não quer que ele morra de tanto beber lá em Oppsal, não é? Leve ele para jantar em algum lugar. Cinema. Um chope. E tome cuidado. Não sei se ele é esperto ou só paranoico, mas ele olhou atento para meu carro quando saiu da sua casa. Ok?

Kaja não respondeu. O sorriso de Mikael era do tipo com o qual podia ficar sonhando nos longos períodos em que ele não estava presente, quando o trabalho e os deveres familiares o impediam de encontrá-la. Então, por que o mesmo sorriso agora a deixava com náuseas?

— Você… você não está pensando em…

— Estou pensando em fazer o que preciso fazer — disse Mikael e olhou para o relógio.

— E isso é?

Ele deu de ombros

— O que você acha? Trocar a cabeça na forca, claro.

— Não me peça isso, Mikael.

— Mas não estou te pedindo, querida. Estou mandando.

Sua voz era quase inaudível:

— E se… se eu dissesse não?

— Nesse caso, não vou acabar apenas com Hole, mas com você também.

A luz do teto iluminou os pequenos pigmentos do rosto dele. Tão lindo, pensou ela. Alguém devia pintá-lo.

 

***

 

As marionetes estão dançando conforme a música agora. Harry Hole descobriu que eu liguei para Elias Skog. Gosto dele. Acho que poderíamos ter sido amigos se a gente tivesse se conhecido na infância ou na juventude. Temos algumas coisas em comum. Como a inteligência. Ele é o único dos investigadores que parece capaz de olhar por trás do véu que oculta as coisas. Claro, isso também quer dizer que vou precisar tomar cuidado com ele. Estou ansioso para ver a continuação. Alegre como uma criança.