O Leopardo
Capítulo 7
A FORCA
– Mas estou com medo, Rasmus — disse Marit Olsen. — Muito medo!
— Eu sei — respondeu Rasmus Olsen com aquela voz baixinha e agradável que tinha acompanhado e tranquilizado sua mulher durante vinte e cinco anos, com eleições políticas, exames para tirar a carteira de motorista, ataques de raiva e uma e outra crise de pânico.
“É natural que esteja — emendou ele e pôs o braço em volta dela. — Você trabalha duro, tem muitas coisas na cabeça. Não sobra espaço para a mente excluir esse tipo de pensamento.”
— Esse tipo de pensamento? — disse ela, se virando no sofá para olhar para ele. Há muito ela já tinha perdido o interesse pelo DVD que estavam vendo: Simplesmente amor. — Esse tipo de pensamento, esse tipo de tolice, é isso que quer dizer?
— Não é importante o que eu penso — comentou ele enquanto tateava com as pontas dos dedos. — O importante é…
— … o que você pensa. — Ela imitou a voz dele. — Meu Deus, Rasmus, você precisa parar de assistir ao programa do Dr. Phil.
Ele soltou um riso suave como seda.
— Só estou dizendo que, como representante parlamentar, você pode pedir um guarda-costas para te acompanhar se você se sentir ameaçada. Mas é isso o que você quer?
— Hummm — ronronou ela quando seus dedos começaram a massagear o ponto exato onde ele sabia que ela adorava ser tocada. — O que quer dizer com “o que você quer”?
— Pense bem. O que acha que vai acontecer?
Marit Olsen pensou. Fechou os olhos e sentiu os dedos dele massageando e trazendo calma e harmonia para seu corpo. Ela havia conhecido Rasmus quando trabalhava no Serviço Norueguês de Emprego em Alta, no extremo norte da Noruega. Ela tinha sido eleita representante do NTL, um sindicato de funcionários públicos, e eles a haviam mandado para um workshop de treinamento no Centro de Conferências de Sørmarka. Lá, um homem magro, com vivazes olhos azuis por baixo de entradas que rapidamente aumentavam, aproximou-se dela na primeira noite. A sua maneira de falar a fez lembrar dos cristãos no clube dos jovens em Alta, loucos para salvar almas. Só que ele falava de política. Ele trabalhava no secretariado do Partido Socialista, onde ajudava os parlamentares com assuntos práticos do escritório, viagens e imprensa, e vez ou outra até escrevia um discurso para eles.
Rasmus pagou uma cerveja para ela, convidou-a para dançar, e depois de quatro músicas românticas cada vez mais lentas, os corpos cada vez mais juntinhos, ele havia perguntado se ela queria acompanhá-lo. Não para seu quarto, mas para seu partido.
Quando ela voltou para casa em Alta, passou a frequentar as reuniões do partido e, de noite, ela e Rasmus conversavam longamente por telefone sobre o que haviam feito e pensado naquele dia. Claro, Marit nunca disse em voz alta que ela às vezes pensava que aquele era o melhor tempo que passaram juntos, quando havia dois mil quilômetros entre eles. Então, o comitê de nomeação havia ligado para colocá-la numa lista e, vupt, já estava eleita para a Assembleia Municipal. Dois anos mais tarde, foi nomeada vice-presidente do Partido Socialista em Alta, no ano seguinte estava no conselho distrital, quando recebeu outra ligação, desta vez do comitê de nomeação ao Parlamento.
E agora tinha um escritório minúsculo no Parlamento, um parceiro que a ajudava com os discursos e a perspectiva de subir na carreira, se tudo corresse de acordo com o plano. E se ela evitasse deslizes.
— Vão colocar um policial para me vigiar — comentou ela. — E a imprensa vai querer saber por que um membro do Parlamento de quem ninguém ouviu falar fica andando por aí com a droga de um guarda-costas à custa dos contribuintes. E quando descobrirem o motivo, que ela suspeitou que alguém a estivesse seguindo no parque, vão escrever que, com essa justificativa, todas as mulheres de Oslo deveriam pedir proteção policial subsidiada pelo estado. Não quero um guarda-costas. Deixe para lá.
Rasmus riu em silêncio e, usando os dedos, massageou para conseguir sua própria aprovação.
O vento assobiava entre as árvores desfolhadas no Parque de Frogner. Um pato com a cabeça afundada na plumagem flutuava na superfície negra da água. Folhas secas grudavam nos azulejos das piscinas vazias de Frogner. O lugar parecia abandonado para todo o sempre, um mundo perdido. Na piscina funda, o vento produzia uma turbulência que cantava um monótono lamento embaixo do trampolim de 10 metros de altura, que se destacou como uma forca contra o céu noturno.