O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 24 de 96

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O Leopardo

Capítulo 24

STAVANGER

 

– Está fedendo a… — disse Kaja.

— Bosta — disse Harry. — De vaca mesmo. Bem-vinda ao distrito de Jæren.

A luz matinal surgiu entrecortada pelas nuvens que varriam os campos verdes. Detrás de muros de pedras, vacas silenciosamente seguiram o táxi com os olhos. Eles estavam a caminho do aeroporto Sola para o centro de Stavanger.

Harry inclinou-se para a frente no meio dos assentos.

— Podia ir um pouco mais depressa, motorista? — Ele segurou sua carteira de identidade no ar. O motorista abriu um largo sorriso, pisou no acelerador, e entraram na rodovia em alta velocidade.

— Está com medo de chegarmos atrasados? — perguntou Kaja quando Harry se deixou cair no assento.

— Não atendeu ao telefone, não compareceu ao trabalho — disse Harry, sem precisar completar o raciocínio.

Depois de falar com Katrine Bratt na véspera, Harry deu uma olhada no que tinha anotado. Tinha os nomes, números de telefone e endereços de duas pessoas ainda vivas que provavelmente haviam passado a noite numa cabana com as três vítimas assassinadas. Ele havia olhado a hora, calculado que era manhã em Sydney e ligado para Iska Peller. Ela atendera, e se mostrou surpresa quando Harry tinha mencionado a cabana em Håvass. Ela não pôde contar muito sobre a estada na cabana de turistas, pois tinha estado com febre alta e havia ficado no quarto. Talvez por haver esquiado muito tempo com roupas molhadas de suor, talvez porque esquiar de cabana a cabana havia sido demais para alguém inexperiente como ela. Ou apenas porque a gripe ataca aleatoriamente. De qualquer maneira, tinha conseguido, a duras penas, se arrastar até a cabana de Håvass, onde foi mandada para a cama por sua companheira de viagem, Charlotte Lolles. Lá, Iska Peller havia entrado e saído de um sono cheio de sonhos enquanto seu corpo doía, suava e passava frio. O que havia se passado entre os outros na cabana — quem quer que fossem — ela não ficou ciente, uma vez que ela e Charlotte foram as primeiras a chegar. No dia seguinte, ela tinha ficado na cama até os outros irem embora, e ela e Charlotte deixaram o lugar com a ajuda da motoneve de um policial local que Charlotte conseguira localizar. Ele havia levado as duas para a própria casa, oferecendo hospedagem para a noite, já sabendo que o hotel estava lotado. Elas haviam aceitado, porém mais tarde tinham mudado de ideia, pegando um trem para Geilo, onde se hospedaram num hotel. Charlotte não contara a Iska nada de especial sobre a noite na cabana de Håvass. Aparentemente, uma noite sem grandes acontecimentos.

Cinco dias depois da viagem às montanhas, a Srta. Peller voou de Oslo a Sydney, ainda com um pouco de febre, e depois de chegar em casa, manteve contato regular com Charlotte por e-mail, mas não havia percebido nada fora do normal. Até receber a chocante notícia de que a amiga tinha sido encontrada morta atrás de um carro abandonado na beira do lago Dausjøen, perto de uma floresta nos arredores suburbanos de Oslo.

Com jeito, mas sem dar voltas demais, Harry havia explicado a Iska Peller que estavam preocupados com as pessoas que estiveram na cabana naquela noite, e que ele, depois de desligar, ligaria ao chefe da Divisão de Homicídios no distrito policial de Sydney, Neil McCormack, para quem Harry havia trabalhado certa ocasião. McCormack iria interrogá-la mais detalhadamente e — mesmo que a Austrália ficasse muito distante — cuidar para que ela, até segunda ordem, recebesse proteção policial. Iska Peller pareceu aceitar isso com serenidade.

Então, Harry tinha ligado para o segundo número que havia anotado, o telefone de Stavanger. Ele havia tentado quatro vezes, mas ninguém atendeu. Sabia, é claro, que esse fato em si não era necessariamente indício de algo. Nem todas as pessoas dormem com o celular ligado ao seu lado. Mas Kaja Solness fazia isso. Ela atendeu no segundo toque, e quando Harry disse que iam para Stavanger no primeiro voo, e que ela devia encontrá-lo no trem expresso ao aeroporto às seis e cinco, ela apenas disse: “Ok.”

Chegaram ao aeroporto de Oslo às seis e meia, e Harry tentou o número de novo, mas em vão. Uma hora mais tarde aterrissaram no aeroporto de Sola, e Harry ligou de novo, obtendo o mesmo resultado. Ao saírem do terminal para a fila de táxi, Kaja conseguiu falar com o empregador da pessoa que estavam procurando, que contou que ela não tinha comparecido ao trabalho na hora que costumava chegar. Ela repassou a informação a Harry, e ele gentilmente encostou a mão nas suas costas, empurrando-a resoluto para o início da fila do táxi, sob protestos inflamados, que ele respondia com um: “Obrigado, e tenham um dia maravilhoso, pessoal.”

 

Exatamente às oito e dezesseis da manhã chegaram ao endereço, uma casa de madeira branca em Våland. Harry largou Kaja pagar o táxi, desceu e deixou a porta aberta. Ele estudou a fachada, que nada revelou. Inalou o ar úmido e fresco, porém ameno, da região oeste. Ele se preparou. Porque já sabia. Podia estar enganado, é claro, mas já sabia com a mesma certeza de que sabia que Kaja ia dizer “obrigada” na hora de receber o recibo.

— Obrigada. — A porta do carro foi fechada.

O nome estava na campainha entre outros dois ao lado da porta de entrada.

Harry apertou o botão e ouviu o zunido de algum lugar no interior da casa.

Um minuto e três tentativas mais tarde, apertou a campainha de baixo.

A velha senhora que abriu sorriu para eles.

Harry notou que Kaja automaticamente sabia quem deveria falar:

— Olá, sou Kaja Solness, somos da polícia. Ninguém atende no andar de cima, sabe dizer se tem alguém em casa?

— Provavelmente. Mesmo que tenha estado quieto lá o dia todo — disse a senhora. E, ao ver a sobrancelha de Harry se erguer, apressou-se em acrescentar: — Aqui pode se ouvir tudo, e ouvi alguém essa noite. Como sou eu que alugo o apartamento, acho que devo ficar atenta.

— A senhora fica atenta? — perguntou Harry.

— Fico, mas não me meto em… — O rosto da senhora ganhou um rubor intenso. — Não tem nada de errado, tem? Quero dizer, eu nunca tive nenhum problema com…

— Não sabemos — disse Harry.

— Seria melhor verificar — disse Kaja. — Então, se a senhora tiver uma chave… — Harry sabia que Kaja estava pensando em diversas maneiras de concluir a frase, e esperou, curioso para ouvir a continuação. — … podemos ajudar a senhora a verificar que está tudo em ordem.

Kaja Solness era uma mulher esperta. Se a proprietária aceitasse a proposta e eles encontrassem algo, ia constar no relatório que foram convidados a entrar, e que não se tratava de forçar acesso ou fazer uma busca sem mandado.

A senhora hesitou.

— Mas a senhora também pode entrar lá depois de termos ido embora — disse Kaja, sorrindo. — E depois chamar a polícia. Ou a ambulância. Ou…

— Acho melhor que venham comigo — disse a senhora, agora com uma ruga profunda de preocupação na testa. — Esperem, vou pegar as chaves.

O apartamento onde entraram um minuto mais tarde estava limpo, arrumado e quase sem móveis. De imediato, Harry reconheceu o silêncio que se faz tão presente, quase opressivo, em apartamentos vazios na parte da manhã, quando o corre-corre cotidiano só chega de fora como um quase inaudível zunido. Mas havia também um cheiro que ele reconheceu. Cola. Ele viu um par de sapatos, mas nenhuma roupa de frio.

Na pequena cozinha tinha uma grande xícara de chá na bancada da pia, e na prateleira em cima havia latas anunciando o conteúdo de variedades de chá de origem desconhecida para Harry: chá oolong, Anji Bai Cha. Avançaram pelo apartamento. Na parede da sala havia uma foto que Harry reconheceu como K2, uma montanha do Himalaia responsável por muitas mortes.

— Verifique ali — disse Harry, acenando com a cabeça para uma porta com um coração e seguiu em direção a uma porta que ele imaginou ser do quarto. Respirou fundo, girou a maçaneta e abriu a porta.

A cama estava arrumada. O quarto também. Uma janela estava entreaberta, não havia cheiro de cola, o ar estava tão fresco quanto a respiração de uma criança. Harry ouviu a proprietária se posicionar no vão da porta atrás dele.

— Que estranho — disse ela. — Eu os ouvi durante a noite. Mas só ouvi os passos de uma pessoa saindo.

— Eles? — perguntou Harry. — Tem certeza de que havia outras pessoas?

— Tenho. Escutei vozes.

— Quantas pessoas?

— Três, acho.

Harry olhou no guarda-roupas.

— Homens? Mulheres?

— Não dá para ouvir tudo.

Roupas. Um saco de dormir e uma mochila. Mais roupas.

— Por que você acha que eram três?

— Depois de uma pessoa ir embora, ouvi ruídos daqui de cima.

— Que tipo de ruídos?

De novo, a senhora ficou corada.

— Batidas. Como se… bem, você sabe.

— Mas nenhuma voz?

A senhora pensou.

— Não, nenhuma voz.

Harry saiu do quarto. E viu para sua surpresa que Kaja ainda estava no corredor em frente à porta do banheiro. Havia algo com a maneira dela — como se estivesse enfrentando um vento forte.

— Algo de errado?

— Não, nada não — respondeu Kaja rápido, em tom leve. Leve demais.

Harry aproximou-se e ficou ao seu lado.

— O que foi? — perguntou em voz baixa.

— Eu… é que tenho um problema com portas fechadas.

— Ok — disse Harry.

— É só… é uma coisa minha.

Harry fez que sim. E então ouviu o ruído. O ruído de tempo medido, de uma linha que está chegando ao fim, de segundos que vão embora, um repique rápido e intenso de água que não está bem escorrendo, nem bem pingando. Uma torneira no outro lado da porta. E ele sabia que não havia se enganado.

— Espere aqui — disse Harry. Ele abriu a porta.

A primeira coisa que notou foi que o cheiro de cola estava mais forte ali dentro.

A segunda, que no chão havia uma jaqueta, um jeans, uma calcinha, uma camiseta, duas meias pretas, um gorro e um agasalho fino de lã.

A terceira, que água pingava numa linha quase contínua da torneira para dentro da banheira que estava cheia de água, transbordando pelo lado.

A quarta, o que constatou de imediato, foi que a água na banheira estava tingida de vermelho — sangue, pelo que ele pôde ver.

A quinta, que o olhar vidrado acima da boca tapada com fita crepe da pessoa nua e pálida no fundo da banheira estava olhando para o lado. Como se tentasse entrever algo no ponto cego, algo que ele não tinha visto.

A sexta coisa foi que ele não viu sinal de violência, nenhuma ferida externa que pudesse explicar aquele sangue todo.

Harry pigarreou e perguntou-se como seria o modo mais ameno possível de pedir à proprietária que entrasse e identificasse seu locatário.

Mas não precisou; ela já estava na porta.

— MeuDeus! — gemeu. E então, pronunciando cada silaba: — Ah, Meu Deus! — E por fim, num tom queixoso com ênfase ainda mais acentuada: Meu Deus do Céu, Jesus…

— É…?

— É — disse a mulher com a voz chorosa. — É ele. É Elias Skog.