O Leopardo
Capítulo 75
TRANSPIRAÇÃO
– Que merda é essa?
Eram sete horas, o prédio da Kripos estava acordando, e no vão da porta de Harry estava um furioso Mikael Bellman com uma pasta numa das mãos e o jornal Aftenposten na outra.
— Se você estiver pensando no Aftenposten…
— Estou pensando nisso, sim! — Bellman bateu o jornal na mesa à sua frente.
A manchete cobria a metade da primeira página. O CAVALHEIRO FOI PRESO ESTA NOITE. A imprensa havia descoberto o apelido Cavalheiro no mesmo dia em que eles o batizaram na sala de reuniões Odin. FOI PRESO ESTA NOITE não era de todo correto, foi mais no fim da tarde, mas Skai não teve tempo de mandar o comunicado à imprensa até depois da meia-noite, depois do último noticiário na TV e logo antes dos jornais fecharem. O comunicado tinha sido breve, sem especificar o horário e as circunstâncias, informando apenas que o Cavalheiro, após investigações intensas do delegado, fora preso na frente do salão de baile em Ytre Enebakk.
— O que isso significa? — repetiu Bellman.
— Deve significar que a polícia conseguiu colocar um dos piores assassinos da história da Noruega atrás das grades — disse Harry, tentando inclinar o encosto da cadeira para trás.
— A polícia? — sibilou Bellman. — A delegacia de…. — Ele teve que consultar o jornal. — … Ytre Enebakk?
— Não deve ser tão importante quem soluciona o caso, desde que seja solucionado, não é? — disse Harry, procurando a alavanca na lateral da cadeira. — Como funciona essa coisa?
Bellman deu uns passos para trás e fechou a porta.
— Escute aqui, Hole.
— Não é mais Harry?
— Cala a boca e presta atenção. Eu sei o que houve. Você falou com Hagen e ficou sabendo que não podia deixar a detenção para ele e para a Divisão de Homicídios; seria arriscado demais para ele. Então, como você não podia ganhar em casa, optou pelo empate. Você passou a honra e os pontos para um delegado caipira que não sabe bulhufas sobre investigações de assassinato.
— Eu, chefe? — respondeu Harry, e fingiu olhar para Bellman com mágoa nos olhos azuis. — Um dos corpos foi encontrado no distrito dele, por isso foi natural que seguisse a investigação em nível local. Então, deve ter pegado o fio da meada sobre a história do passado de Tony Leike. Belo trabalho policial, eu diria.
As manchas brancas na testa de Bellman pareciam passar por todas as cores do arco-íris.
— Você sabe como isso fica do ponto de vista do Ministério da Justiça? Eles deixaram a investigação nas minhas mãos; batalhei semana após semana, sem nenhum resultado. E aí chega esse maldito caipira e em questão de dias nos passa a perna na reta final.
— Hum. — Harry puxou a alavanca e o encosto caiu bruscamente para trás. — Não soa bem quando você diz dessa maneira, chefe.
Bellman pôs as palmas das mãos na mesa, inclinou-se para a frente e sibilou, fazendo bolinhas de saliva branca voar em direção a Harry.
— Espero que isso não soe bem, Hole. Essa tarde, o ópio que foi encontrado na sua casa vai para o laboratório para ser identificado. Está acabado, Hole!
— E depois, chefe? — Harry balançou para cima e para baixo, tentando controlar a alavanca.
Bellman franziu a testa.
— O que você quer dizer?
— O que vai responder à imprensa e ao Ministério da Justiça? Quando olharem a data do mandado de busca que vocês usaram, emitido em seu nome? E perguntar como pode ser que, no dia depois de você ter encontrado ópio na casa de um policial, você dá ao mesmo policial um cargo alto no seu próprio grupo de investigação? Alguém poderia alegar que, se a Kripos for administrada dessa maneira, não é de se estranhar que um delegado caipira com uma única cela e uma esposa cozinheira seja melhor em relação a encontrar assassinos.
Bellman ficou boquiaberto, piscando sem parar.
— Aí! — Harry se inclinou para trás com um sorriso contente e o encosto preso. E semicerrou os olhos contra o golpe de ar da batida da porta.
O sol havia passado sobre o pico da montanha quando Krongli parou a motoneve, desceu e foi até Roy Stille, que estava ao lado de um bastão de esqui enfiado na neve.
— Então?
— Acho que o encontramos — anunciou Stille. — Esse deve ser o bastão que aquele Hole usou para marcar o local.
O policial prestes a se aposentar nunca teve a ambição de uma carreira ascendente, mas o farto cabelo grisalho, o olhar firme e a voz calma faziam com que, quando falava, as pessoas sempre achassem que era ele, e não Krongli, quem era o delegado.
— É? — perguntou Krongli.
Ele seguiu Stille até a beira do precipício, que apontou. E lá embaixo, ele viu a motoneve. Ajustou os binóculos. Focou no braço à mostra e chamuscado. Murmurou meio alto.
— Ah, merda. Finalmente. Ou as duas coisas.
Os clientes do café da manhã começaram a sair do Stopp Pressen quando Bent Nordbø ouviu um pigarro, levantou os olhos do New York Times, tirou os óculos, semicerrou os olhos e formou o mais próximo que ele jamais conseguiu chegar de um sorriso.
— Gunnar.
— Bent.
O cumprimento, mencionando o nome um do outro, era algo que os acompanhou da maçonaria, e sempre fazia Gunnar Hagen pensar em formigas se cruzando e trocando cheiros. O chefe da divisão se sentou, mas não tirou o casaco.
— Você disse ao telefone que tinha encontrado algo.
— Um dos meus jornalistas descobriu isso. — Nordbø empurrou um envelope pardo sobre a mesa. — Parece que Mikael Bellman protegeu sua mulher num caso de narcóticos. O caso é velho, portanto, juridicamente escapa, mas da imprensa…
— … nunca se escapa — completou Hagen e pegou o envelope.
— Acho que pode considerar Mikael Bellman fora do jogo.
— Pelo menos pode se chegar a um equilíbrio de terror. Ele tem coisas contra mim também. Também não tenho mais certeza se vou precisar disso; ele acabou de ser humilhado pelo delegado de Ytre Enebakk.
— Li sobre isso. E o Ministério da Justiça também leu, não é?
— Lá no alto leem os jornais e ficam com o ouvido no chão. Mas, obrigado, mesmo assim.
— Não há de quê, a gente pode contar um com o outro.
— Quem sabe, talvez possa precisar disso um dia.
Gunnar Hagen pegou o envelope e o enfiou no bolso interno do casaco.
Ele não obteve resposta, uma vez que Bent Nordbø já havia retornado à sua leitura do artigo sobre um jovem senador americano, negro, com o nome de Barack Obama, que o autor do artigo com seriedade alegou que podia um dia vir a ser o presidente dos Estados Unidos.
Quando Krongli alcançou o fundo, ele gritou para os outros que havia chegado e se soltou da corda de escalar.
A motoneve era da marca Arctic Cat e estava com os esquis para cima. Ele se arrastou por 3 metros até os destroços e lembrou instintivamente de tomar cuidado onde pisava e tocava. Como se estivesse numa cena de crime. Ele se agachou. Um braço despontava por baixo da motoneve. Ele tocou o veículo. Balançava em cima de duas pedras. Ele respirou fundo e virou a motoneve de lado.
O corpo estava de costas. O primeiro pensamento de Krongli foi de que provavelmente era um homem. A cabeça e o rosto tinham sido esmagados entre a motoneve e as rochas, e o resultado parecia com os restos de um festival de frutos do mar. Não precisou tocar no corpo destroçado para saber que estava gelatinoso, como um pedaço de carne macia com as pernas removidas, ou que o torso tinha sido achatado, quadris e joelhos, pulverizados. Krongli mal teria conseguido reconhecer o corpo se não fosse pela camisa de flanela vermelha. E o único dente podre e amarelado que restou da arcada inferior.