O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 65 de 96

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O Leopardo

Capítulo 65

 

KADOK

 

O bairro Nydalen era a própria imagem da desindustrialização de Oslo. As fábricas que não foram demolidas — dando lugar a prédios comerciais com design elegante em vidro e aço — tinham sido convertidas em enormes estúdios de TV, restaurantes e grandes ambientes abertos, com tijolos, encanamentos de ventilação e água à mostra.

Os últimos eram frequentemente alugados por agências de publicidade que queriam mostrar que pensavam de modo não tradicional, achando que a criatividade florescia tão bem em ambientes industriais baratos como nos escritórios caros e centrais de seus concorrentes bem-estabelecidos. Mas o valor dos escritórios em Nydalen era pelo menos o mesmo, visto que as agências em geral pensam de maneira tradicional. Isto é, seguem a moda e elevam os preços para o que estiver na moda.

Entretanto os proprietários do lote da fábrica fechada da Kadok não participaram dessa bonança. Quando a fábrica finalmente foi desativada havia 14 anos, após anos de perdas e dumping de PSG na China, os herdeiros do fundador se engalfinharam. E, enquanto brigavam sobre quem ia ficar com o que, a construção, isolada por cercas ao oeste do rio Akerselva, deteriorou-se. Mato e árvores decíduas cresceram livremente, e aos poucos esconderam a fábrica das imediações.

Após levar tudo isso em conta, Harry estranhou o grande cadeado no portão ser tão novo.

— Pode cortar — informou ele ao policial ao seu lado.

As lâminas do enorme alicate passaram pelo metal como se fosse manteiga, e o cadeado foi cortado com a mesma rapidez que Harry levara para conseguir um mandado de busca. O promotor da Kripos parecia ter coisas mais importantes a fazer do que emitir mandados, e Harry mal havia terminado de falar até tê-lo devidamente assinado na mão. E ele tinha pensado consigo mesmo que seria bom se também possuíssem alguns advogados estressados e negligentes na Divisão de Homicídios.

O sol baixo da tarde reluziu nos cacos de vidros quebrados no alto das paredes de tijolo. O lugar era desolado, do tipo que só se encontra em fábricas fechadas, onde tudo que se vê foi construído para uma atividade agitada e eficaz, mas não há mais ninguém ali. Onde o eco de ferro contra ferro, de gritos, palavrões e risos de homens suados abafando as máquinas ainda reverbera silenciosamente entre as paredes, e o vento sopra através das janelas quebradas, pretas de fuligem, fazendo as teias de aranha e as carcaças de insetos mortos tremerem.

Não havia cadeado na grande porta que dava para o galpão da fábrica. Os cinco homens passaram por uma área retangular com acústica de igreja, que dava mais a impressão de uma evacuação do que de fechamento; ferramentas de trabalho ainda estavam espalhadas, um pallete carregado com baldes brancos marcados S 3 estava pronto para ser despachado, um macacão azul jazia largado sobre o encosto de uma cadeira.

Pararam no meio do galpão. Num canto havia uma espécie de quiosque, no formato de um farol, erguido 1 metro acima do piso. A sala do gerente, pensou Harry. No alto das paredes passava uma galeria em volta do galpão todo, que numa ponta levava a um mezanino com salas próprias. Harry supôs que fossem a copa e os escritórios administrativos.

— Por onde começamos? — perguntou Harry.

— No lugar de sempre — respondeu Bjørn Holm e olhou em torno. — No alto do canto esquerdo.

— O que estamos procurando?

— Uma mesa, um banco com PSG azul. A mancha na parte de trás das calças havia sido esfregada um pouco para dentro do bolso de trás, então ela deve ter sentado em algo... Quero dizer, ela não estava deitada.

— Se vocês vão começar aqui embaixo, vou subir com o policial. Vou levar o alicate — avisou Harry.

— Ah, é?

— Para abrir as portas para vocês, os peritos. Prometemos não encher o lugar de sêmen.

— Muito engraçado. Não…

— Toque em nada.

Harry e o policial, que ele chamava de “policial” pelo simples motivo de ter esquecido seu nome dois segundos depois de ouvi-lo, subiram por uma escada em caracol, fazendo cantar os degraus de ferro. As portas que encontraram estavam destrancadas, e, como Harry havia imaginado, eram escritórios dos quais os móveis foram removidos. Um vestiário com fileiras de armários de ferro. Um grande chuveiro comunitário. Mas nenhuma mancha azul.

— O que você acha que é aquilo? — perguntou Harry, no meio da copa. Ele apontou para uma porta estreita com cadeado ao fundo.

— A despensa — respondeu o policial, já de saída.

— Espere!

Harry foi até a porta. Arranhou com a unha a fechadura aparentemente enferrujada. Era ferrugem de verdade. Ele virou o cadeado e olhou para o cilindro. Não tinha ferrugem.

— Pode cortar — avisou Harry.

O outro fez como foi mandado, e Harry abriu a porta.

O policial estalou a língua.

— Só uma porta secreta — disse Harry.

Não havia despensa nem era uma sala, mas outra porta. Equipada com algo que parecia uma sólida fechadura.

O policial deitou o alicate no chão.

Harry passou os olhos pelo local e logo encontrou o que procurava. Um grande extintor de incêndio vermelho, bastante chamativo, preso no meio da parede da copa. Não foi Øystein que uma vez havia dito algo a respeito? Que o material que produziam onde seu pai trabalhava era tão inflamável que foram instruídos a fumar perto do rio. Para onde deviam jogar as pontas dos cigarros.

Ele retirou o extintor da parede e o levou até a porta. Deu dois passos para trás, correu para a frente, mirou e jogou o cilindro metálico na porta, como um aríete.

A porta rachou em torno da fechadura, mas continuou presa ao batente.

Harry repetiu o ataque. Lascas de madeira voaram para todo lado.

— O que diabos está acontecendo? — Ouviu Bjørn gritar lá de baixo.

Na terceira tentativa, a porta soltou um ruído resignado e abriu. Ambos olharam para um vazio escuro como breu.

— Posso usar sua lanterna? — Harry pediu ao policial ao largar o extintor e enxugar o suor. — Obrigado. Espere aqui.

Harry entrou na sala. Havia cheiro de amoníaco. Passou a luz da lanterna pelas paredes. A sala — que imaginou ter 9 metros quadrados — não tinha janelas. O facho de luz passou sobre uma cadeira preta dobrável, uma mesa com uma lâmpada e um monitor de computador da Dell. O teclado estava relativamente pouco gasto. A mesa estava arrumada, feita de madeira clara, sem manchas azuis. No cesto de lixo havia tiras de papel, como se alguém houvesse recortado fotos. E um exemplar do Dagbladet, do qual de fato algo tinha sido recortado da primeira página. Harry leu a manchete em cima do quadrado vazio e sabia que estavam no lugar certo. Chegaram. Esse era o lugar.

 

— MORTO EM AVALANCHE —

 

Instintivamente, Harry direcionou a luz para cima, para a parede sobre a mesa, passando por algumas manchas azuis. E lá estavam.

Todos.

Marit Olsen, Charlotte Lolles, Borgny Stem-Myhre, Adele Vetlesen, Elias Skog, Jussi Kolkka. E Tony Leike.

Harry se concentrou em respirar pelo diafragma. Em absorver a informação aos poucos. As fotos eram recortes de jornais ou foram impressas em folhas de papel, provavelmente de notícias da internet. Exceto a foto de Adele. Seu coração batia tão forte quanto um bumbo enquanto enviar mandar mais sangue a seu cérebro. A foto era em papel fotográfico e tão granulada que Harry supôs ter sido tirada com uma teleobjetiva e depois aumentada. Mostrava uma janela lateral de um carro, o perfil de Adele no banco da frente, de onde o plástico não tinha sido removido, e havia algo sobressaindo de seu pescoço. Uma faca grande com um cabo amarelo brilhante. Harry forçou seu olhar a ir adiante. Por baixo das fotos havia uma fileira de cartas, também impressas de um computador. Harry passou os olhos sobre o texto inicial de uma:

 

É MUITO SIMPLES. EU SEI QUEM VOCÊ MATOU.

VOCÊ NÃO SABE QUEM EU SOU, MAS SABE O QUE QUERO. DINHEIRO. SE VOCÊ NÃO PAGAR, OS POLICIAIS VÃO VIR. SIMPLES, NÃO É?

O texto continuava, mas o final da carta chamou sua atenção. Não havia nome, nenhuma assinatura. O policial estava à porta. Harry ouviu sua mão tatear a parede enquanto murmurava:

— Deve haver um interruptor aqui em algum lugar.

Harry iluminou o teto azul, para quatro grandes tubos fluorescentes.

— Tem que ter — disse Harry e direcionou a lanterna para a parede, sobre várias manchas azuis, antes de a faixa de luz parar numa folha de papel à direita das fotos. Uma incipiente espécie de alarme tinha começado a disparar em sua mente. A folha estava rasgada na lateral e continha linhas e colunas onde havia anotações à mão. Mas com caligrafias diferentes.

— Aqui está — indicou o policial.

Por algum motivo, Harry pensou de repente na lâmpada da mesa. E no teto azul. E no cheiro de amoníaco. E entendeu no mesmo instante que o alarme em sua mente não era por causa da folha.

— Não… — começou Harry.

Tarde demais.

Tecnicamente, não era uma explosão, mas — como constaria no relatório que o chefe dos bombeiros assinaria no dia seguinte — um incêndio explosivo causado por uma faísca elétrica de fios acoplados a uma lata com gás amoníaco, que por sua vez incendiou o PSG pintado no teto inteiro e chapinhado na parede.

Harry arfou quando o oxigênio na sala foi sugado pelas labaredas, sentindo ao mesmo tempo um calor intenso na cabeça. Ele caiu automaticamente de joelhos e passou as mãos pelo cabelo para saber se estava queimando. Quando ergueu os olhos, as chamas vinham das paredes. Ele queria respirar, mas conseguiu resistir ao reflexo. Levantou-se e ficou em pé. A porta estava a apenas 2 metros dele, mas tinha que levar… Harry esticou a mão em direção à folha de papel. Para a folha perdida do livro de hóspedes da cabana de Håvass.

— Afaste-se! — O policial estava no vão da porta com o extintor por baixo do braço e a mangueira na mão. Como em câmera lenta, Harry observou o jato esguichar. Viu o jato marrom-dourado sair da mangueira e atingir a parede. O marrom devia ser branco; o líquido devia ser espuma. E Harry entendera, antes de olhar para as labaredas que se levantavam, berrando para ele de onde o líquido caía; antes de sentir a fisgada doce do cheiro de gasolina nas narinas; antes de ver as chamas seguindo o jato da gasolina até o policial que estava no vão da porta, com a alavanca ainda pressionada, em choque. Harry sabia por que o extintor de incêndio estava no meio da parede da copa, exposto, impossível de não ser visto, vermelho e novo, gritando para ser usado.

O ombro de Harry acertou o policial na altura da cintura, dobrando-o sobre o inspetor furioso, jogando-o para trás com Harry sobre si.

Fizeram algumas cadeiras voarem pelo espaço ao derraparem por baixo da mesa. O policial, já sem ar, gesticulava e apontava enquanto abria e fechava a boca como um peixe. Harry se virou. Envolto em chamas, o extintor vermelho ribombou e rolou em sua direção. A mangueira cuspia borracha derretida. Harry se levantou, agarrou o policial e o arrastou atrás de si até a porta, enquanto um cronômetro atemporal ressoava em sua cabeça. Ele empurrou o policial cambaleante porta afora, para a galeria, e o empurrou para o chão ao seu lado quando veio aquilo que o chefe dos bombeiros iria descrever no relatório como uma explosão, que estourou todas as janelas e incendiou a copa inteira.

 

A sala de recortes está em chamas. Está no noticiário. Você deve servir e proteger, Harry Hole, não demolir e destruir. Vai ter que pagar uma compensação. Senão, vou tirar algo importante de você. Em questão de segundos. Não faz ideia de como será fácil.