O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 10 de 96

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O Leopardo

Capítulo 10

LEMBRETES

 

Eram três da madrugada quando Harry desistiu da ideia de dormir e se levantou. Ele abriu a torneira da cozinha e colocou um copo embaixo, segurou-o lá até a água transbordar e pingar gelada no seu punho. Seu queixo doía. Ele estudou as duas fotos fixadas sobre a bancada da cozinha.

Uma, com marcas de dobras, mostrou Rakel num vestido azul-claro. Mas não era verão, a folhagem atrás dela tinha cores de outono. Seu cabelo negro caía até os ombros. Seu olhar parecia buscar alguém atrás da lente, o fotógrafo, talvez. Foi ele mesmo que tinha tirado a foto? Estranho não conseguir lembrar.

A outra foto era de Oleg. Tirada com a câmera do celular de Harry em Valle Hovin durante o treino de patinação no verão passado. Na época ainda era um rapaz magricelo, mas se tivesse continuado os treinos, logo teria preenchido sua roupa esportiva vermelha. O que estaria fazendo? Onde estaria? Será que Rakel havia conseguido criar um lar para eles, onde quer que estivessem, onde podiam se sentir mais seguros do que em Oslo? Será que havia pessoas novas em suas vidas? Quando Oleg ficava com sono, ou perdia a concentração, será que ainda chamava Harry de “papai”?

Harry fechou a torneira. Ele sentiu a porta do armário contra os joelhos. Do lado de dentro, Jim Beam sussurrava seu nome.

Ele vestiu uma calça e uma camiseta, foi até a sala e colocou Kind of Blue de Miles Davis para tocar. Era o disco original, onde não haviam compensado o pequeno atraso da gravação do estúdio, de modo que o álbum inteiro era um quase imperceptível deslocamento da realidade.

Harry ouviu por um tempo antes de aumentar o volume para abafar o sussurro da cozinha. Fechou os olhos.

Kripos. Bellman.

Ele nunca tinha ouvido falar nesse nome. Claro, ele podia ligar para Hagen e conseguir mais informações, mas não estava a fim. Porque tinha uma ideia do que se tratava. Melhor deixar quieto.

Harry havia chegado à última música, “Flamenco Sketches”, quando desistiu. Ele se levantou e caminhou da sala até a cozinha. No corredor virou à esquerda, enfiou as botas Doc Martens e saiu.

Encontrou o que procurava debaixo de um saco plástico furado. A frente da pasta estava coberta por algo parecendo sopa de ervilha ressecada. Ao voltar, sentou-se na velha poltrona verde e começou a ler, tremendo de frio.

O nome da primeira mulher era Borgny Stem-Myhre, 33 anos, nascida na cidadezinha de Levanger. Solteira, não tinha filhos, morava no bairro de Sagene em Oslo. Trabalhava como estilista, tinha um grande círculo de amizades, especialmente entre cabeleireiros, fotógrafos e gente da imprensa de moda. Frequentava vários restaurantes da cidade, não apenas os que estavam em alta. Além disso, apreciava a natureza e gostava de fazer caminhadas ou de esquiar de cabana a cabana nas montanhas.

“Você pode sair de Levanger, mas Levanger nunca sai de você”, era o que se concluía a partir de as conversas com os colegas. Harry supôs que o comentário viesse de colegas que haviam tido sucesso em apagar os traços dos vilarejos onde nasceram.

“A gente gostava muito dela. Ela era uma das poucas pessoas genuinamente honestas nesse ramo.”

“É incompreensível, a gente não consegue entender por que alguém poderia querer matá-la.”

“Ela era boazinha demais. E mais cedo ou mais tarde, todos os homens por quem ela se apaixonava se aproveitavam disso. Ela virava um brinquedo para eles. Mirou alto demais — foi basicamente esse o problema.”

Harry observou uma foto dela. Estava na pasta de quando ainda estava viva. Loura, talvez não natural. Aparência comum, nenhuma beleza evidente, mas vestia-se com estilo, uma jaqueta militar e um gorro rastafári. Estilosa e boazinha demais — fazia algum sentido?

Ela havia visitado o restaurante Mono para a festa de lançamento mensal e pré-leitura da revista de moda Sheness. O evento aconteceu das sete às oito, e Borgny dissera a um colega/amigo que ela queria ir para casa se preparar para a sessão de fotos do dia seguinte, para a qual o fotógrafo queria um look “selva encontra punk nos anos 1980”.

Eles pensaram que ela iria ao ponto de táxi mais próximo, mas nenhum taxista nas proximidades naquele horário (listas computadorizadas da Norgestaxi e Oslotaxi estavam anexadas) reconheceu a foto de Borgny Stem-Myhre ou fez corridas até o bairro de Sagene. Em suma, ninguém a tinha visto depois que ela deixou o restaurante Mono. Até que dois pedreiros poloneses a caminho do trabalho repararam que o cadeado da porta de ferro do abrigo antiaéreo havia sido violado, e a entraram. Borgny estava deitada no meio do chão numa posição retorcida, completamente vestida.

Harry estudou a foto. A mesma jaqueta militar. O rosto parecia ter sido maquiado com base branca. O flash lançou sombras marcantes contra a parede do porão. Sessão de fotos. Estiloso.

O patologista constatou que Borgny Stem-Myhre morreu em algum momento entre as dez e onze horas da noite. Acharam vestígios de uma substância chamada cetamina no sangue, um anestésico forte que age rapidamente, mesmo aplicado com injeção intramuscular. Mas a causa direta da morte foi afogamento, provocado por sangue de feridas na boca. E aqui começou a parte mais inquietante. O patologista encontrou vinte e quatro furos na boca, simetricamente distribuídos e da mesma profundidade de sete centímetros — contando os que não penetraram o rosto. Mas os investigadores não faziam ideia de que arma ou instrumento tinha sido usado. Nunca tinham visto uma coisa dessas. Não havia absolutamente nenhuma prova técnica; nenhuma impressão digital, nenhum DNA, nem sequer pegadas de sapatos ou botas, já que o chão de cimento havia sido limpo no dia anterior para colocarem cabos de aquecimento e revestimento de piso. No relatório de Kim Erik Lokker, um patologista que devia ter sido contratado depois da época de Harry, havia a foto de duas pedrinhas preto-acinzentadas encontradas no chão e que não faziam parte do cascalho em torno da cena do crime. Lokker assinalou que pedregulhos tendiam a se prender em botas com solas grossas, e caíam ao andar em piso mais firme, como o de cimento. Mas essas pedrinhas eram tão incomuns que, se por acaso surgissem outras mais tarde na investigação, num atalho de cascalho, por exemplo, talvez pudessem encontrar uma pista. O relatório teve uma emenda após ser escrito e datado: foram encontrados pequenos traços de ferro e coltan em dois dentes molares.

Harry já podia antever a continuação. Ele continuou folheando.

O nome da outra mulher era Charlotte Lolles. Pai francês, mãe norueguesa. Residente em Lambertseter, Oslo. Vinte e nove anos. Advogada formada. Morava sozinha, mas tinha namorado: um Erik Fokkestad que logo foi descartado como suspeito. Ele estava num seminário de geologia no parque nacional de Yellowstone em Wyoming, nos Estados Unidos. Charlotte ia acompanhá-lo, mas acabou dando prioridade a uma grande disputa imobiliária na qual estava trabalhando.

Os colegas a tinham visto pela última vez no escritório na noite de terça-feira por volta das nove. Aparentemente, ela nunca chegou em casa. Sua pasta executiva foi encontrada ao lado do corpo atrás do carro abandonado em Maridalen. Ambas as partes envolvidas na disputa imobiliária foram eliminadas do caso. Constava no relatório de necropsia que havia resquícios de pintura e ferrugem por baixo das unhas de Charlotte Lolles, o que coincidiu com o relatório da cena do crime que descrevia arranhões em volta da fechadura da tampa do porta-malas do carro, como se ela tivesse tentado abri-la. Um exame mais detalhado da fechadura mostrou que tinha sido forçada aberta pelo menos uma vez. Seria pouco provável que Charlotte Lolles tivesse feito isso. Harry visualizou a garota atada a algo dentro do porta-malas, e imaginou que foi por isso que ela havia tentado escapar. Algo que o assassino tinha retirado depois. Mas o quê? E como? E por quê?

O protocolo das interrogações de uma colega do escritório de advocacia incluiu uma citação: “Charlotte era uma pessoa ambiciosa, ela sempre trabalhava até tarde. Se era eficiente, não sei. Sempre gentil, mas não tão extrovertida quanto seus sorrisos e sua aparência mediterrânea podiam sugerir. Um tanto retraída, diria. Ela nunca falava sobre o namorado, por exemplo. Mas meus chefes gostavam muito dela.”

Harry imaginou a colega contando a Charlotte uma revelação íntima atrás da outra sobre o próprio namorado, sem receber nada além de um sorriso em troca. Sua mente investigativa estava no piloto automático: talvez Charlotte estivesse se esquivando de fazer parte de uma amizade inconveniente, talvez tivesse algo a esconder. Talvez…

Ele observou as fotos. Traços não muito delicados, mas atraentes. Olhos escuros, pareciam os de… droga! Ele fechou os olhos. Voltou a abri-los. Folheou até o relatório do patologista. Passou os olhos pelo documento.

Teve que conferir o nome de Charlotte no início do documento para se assegurar de que não estava lendo o relatório de Borgny outra vez. Anestésico. Vinte e quatro feridas na boca. Afogamento. Nenhuma outra violência externa, nenhum sinal de abuso sexual. A única diferença foi a hora da morte, entre as onze e meia-noite. Mas esse relatório também tinha uma emenda sobre traços de ferro e coltan nos dentes da vítima. Provavelmente porque a Perícia Técnica mais tarde havia entendido que o fato podia ser importante, já que havia sido encontrado nas duas vítimas. Coltan. O Exterminador do Futuro não era feito desse material?

Harry já estava bem acordado e percebeu que tinha sentado na ponta da cadeira. Ele se sentiu agitado, empolgado. E nauseado. Como quando tomava o primeiro drinque, aquele que fazia o estômago virar, aquele que seu corpo desesperadamente recusava. E logo iria pedir por mais. Mais e mais. Até destruí-lo e a todas as pessoas em torno dele. Como estava acontecendo. Harry levantou-se tão bruscamente que ficou tonto, pegou a pasta e, sabendo que era grossa demais, conseguiu mesmo assim rasgá-la ao meio. Juntou os pedacinhos de papel e levou-os de volta à lixeira. Ele soltou os pedacinhos pela beirada e ergueu os sacos para que os documentos caíssem até o fundo. Torceu para que o caminhão de lixo passasse no dia seguinte ou logo depois.

Harry voltou para casa e sentou-se na poltrona.

Quando a noite começou a ganhar um matiz cinzento, ele ouviu os primeiros sons de uma cidade a acordar. Mas, sobre o zumbido da hora do rush matinal de Pilestredet, também podia ouvir uma sirene distante e aguda de um carro de polícia atravessar as frequências. Podia ser qualquer coisa. Ele ouviu outra sirene. Qualquer coisa. E mais uma. Não era qualquer coisa, não.

O telefone fixo começou a tocar.

Harry tirou o telefone do gancho.

— Aqui é Hagen. Acabamos de receber a informa…

Harry desligou.

Tocou de novo. Harry olhou pela janela. Ele não tinha ligado para Søs, sua irmã. Por que não? Por que não queria se mostrar para sua irmã caçula — sua admiradora mais entusiasmada, mais incondicional? Ela que tinha o que a própria chamava de “um toque de Síndrome de Down” e que mesmo assim se arranjava na vida infinitamente melhor do que ele. A irmã era a única pessoa que ele não podia se permitir decepcionar.

O telefone parou de tocar. E recomeçou.

Harry agarrou o fone.

— Não, chefe. A resposta é não, eu não quero esse emprego.

Por um segundo ficou quieto no outro lado. Depois uma voz desconhecida disse:

— Aqui é Oslo Energia. Sr. Hole?

Harry praguejou para si mesmo.

— Sim?

— O senhor não pagou as faturas que enviamos, nem respondeu aos avisos de desligamento. Estou ligando para avisar que vamos cortar o fornecimento de energia ao seu apartamento na rua Sofie, 5, a partir da meia-noite de hoje.

Harry não respondeu.

— Será religado assim que recebermos o pagamento do valor devido.

— E o valor é de?

— Com juros, taxa de cobrança e desligamento são 14.463 coroas.

Silêncio.

— Alô?

— Estou aqui. No momento não tenho tanto dinheiro.

— O valor devido irá para cobrança judicial. Enquanto isso, esperamos que a temperatura não fique abaixo de zero grau. Não é?

— É — constatou Harry e desligou.

As sirenes lá fora aumentavam e baixavam.

Harry foi se deitar. Ele ficou de olhos fechados por quinze minutos até desistir; vestiu-se de novo e saiu para pegar o bonde para o hospital.