O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 40 de 96

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O Leopardo

Capítulo 40

 

A OFERTA

 

Harry encontrou Kaja na Divisão de Homicídios, na zona vermelha no sexto andar. Ela se animou ao ver Harry no vão da porta.

— Sempre de porta aberta? — perguntou ele.

— Sempre. E você?

— Fechada. Sempre. Mas vejo que você jogou fora a cadeira de visitas. Boa jogada. As pessoas adoram jogar conversa fora.

Ela riu.

— Está fazendo algo empolgante?

— De certa forma — disse ele, ao entrar e encostar-se à parede.

Ela colocou as mãos na beirada da mesa e se empurrou, e a cadeira rolou até o arquivo. Lá abriu uma gaveta, tirou uma carta e estendeu-a para Harry.

— Pensei que ia querer saber disso.

— O que é?

— O Boneco de Neve. O advogado dele fez um requerimento para ele ser transferido de Ullersmo para um hospital comum, por motivos de saúde.

Ele sentou-se no canto da mesa e leu.

— Humm. Esclerodermia. Está progredindo rapidamente. Não rápido demais, espero. Ele não merece.

Ele levantou o olhar e viu que ela estava chocada.

— Minha tia-avó morreu de esclerodermia — comentou ela. — Uma doença terrível.

— E um homem terrível — disse Harry. — Falando nisso, concordo plenamente com aqueles que dizem que a habilidade de perdoar diz algo sobre a qualidade de uma pessoa. Sou da ralé.

— Não quis criticar você.

— Prometo ser melhor na minha próxima vida — emendou Harry, que baixou o olhar e esfregou a nuca. — Se os hindus tiverem razão, provavelmente serei um escaravelho de árvores. Mas vou ser um escaravelho bonzinho.

Ele levantou o olhar e viu que o que Rakel chamava de seu “maldito charme de menino” estava fazendo efeito.

— Escute, Kaja, vim para te fazer uma oferta.

— Ah, é?

— É. — Harry ouviu a formalidade na sua voz. A voz de um homem sem capacidade de perdoar, sem consideração, sem pensar em nada além das próprias metas. E aplicou a técnica de convencer invertida, com a qual tinha êxito com demasiada frequência: — E te aconselho a recusá-la. É que tenho uma tendência a estragar a vida das pessoas com quem me envolvo.

Para sua surpresa, ele viu o rosto dela ficar vermelho escarlate.

— Mas não acho certo fazer isso sem você — continuou ele. — Não agora que estamos tão perto.

— Perto… de quê? — O vermelho havia sumido.

— De prender o culpado. Estou indo agora até o promotor de polícia para pedir um mandado de prisão.

— Ah… claro.

— Claro?

— Quer dizer, prender quem? — Ela puxou a cadeira para perto da mesa. — Acusado de quê?

— Nosso assassino, Kaja.

— Sério? — Ele viu as pupilas dela se dilatarem lentamente, pulsantes. E sabia o que estava acontecendo dentro dela. A sede de sangue antes da caça, antes de abater o animal. A detenção. O que ia constar no seu CV. Como podia resistir?

Harry fez que sim.

— O nome dele é Tony Leike.

A cor voltou ao rosto de Kaja.

— Soa familiar.

— Ele vai se casar com a filha de…

— Claro, é o noivo da filha de Galtung. — Ela franziu a testa. — Quer dizer que você tem provas?

— Indícios. E coincidências. — Ele viu as pupilas dela se contraírem outra vez. — Tenho certeza de que ele é o nosso homem, Kaja.

— Me convença — pediu ela, e ele percebeu a fome. A vontade de engolir tudo cru, de ter um pretexto para tomar a decisão mais louca da sua vida. E ele não tinha nenhuma intenção de protegê-la contra si mesma. Porque precisava dela. Ela era perfeita para a mídia: jovem, inteligente, mulher, ambiciosa. Com rosto e histórico atraentes. Em suma, Kaja tinha tudo o que ele não tinha. Uma Joana d’Arc que o Ministério da Justiça não ousaria queimar na fogueira.

Harry respirou fundo. Então reproduziu sua conversa com Tony Leike. Detalhadamente. Sem estranhar o fato de conseguir relatar o que tinha sido dito palavra por palavra. Seus colegas sempre consideraram essa sua capacidade algo fora de série.

— A cabana de Håvass, Congo e Lyseren — disse Kaja quando ele terminou. — Ele esteve em todos esses lugares.

— Pois é. E já foi condenado por agressão violenta. E ele admitiu que já teve intenção de matar.

— Legal. Mas…

— A parte realmente legal vem agora. Ele fez uma ligação para Elias Skog. Dois dias antes de Skog ser encontrado morto.

Suas pupilas viraram sóis negros.

— Nós o pegamos — disse ela baixinho.

— O “nós” quer dizer o que estou pensando?

— Sim.

Harry suspirou.

— Está a par do risco que corre fazendo parte disso? Mesmo que eu tenha razão a respeito de Leike, não é certo que a detenção e o esclarecimento do caso sejam o suficiente para fazer com que a balança do poder se manifeste a favor de Hagen. Aí vai ser uma desgraça para você.

— E você? — Ela inclinou-se sobre a mesa. Os dentinhos de tubarão brilhavam. — Por que você acha que vale a pena correr o risco?

— Sou um policial arruinado com pouca coisa a perder, Kaja. Para mim, é isso aqui ou nada. Não posso trabalhar com crimes de narcotráfico ou de natureza sexual, e a Kripos nunca irá me fazer uma oferta. Mas para você seria provavelmente uma péssima escolha.

— Como a maioria das minhas escolhas — disse ela, séria.

— Ótimo — respondeu Harry ao se levantar. — Vou procurar o promotor. Não suma.

— Vou estar aqui, Harry.

Harry deu meia-volta e deparou-se com o rosto de um homem que com certeza estava no vão da porta havia algum tempo.

— Licença — falou o homem com um sorriso largo. — Só queria tomar emprestada a senhorita um pouco.

Ele fez um aceno a Kaja com o riso dançando nos olhos.

— Fique à vontade — disse Harry, esboçando um sorriso e seguindo a passos largos pelo corredor.

— Aslak Krongli — começou Kaja. — O que traz um rapaz do interior à cidade grande?

— O de sempre, imagino — disse o delegado de Ustaoset.

— Emoção, luz neon e o zunido da multidão?

Aslak sorriu

— Trabalho. E uma mulher. Posso te convidar para tomar um café?

— Agora não — respondeu Kaja. — Há muita coisa acontecendo, preciso ficar de prontidão. Mas seja meu convidado para um café na cantina. Fica no último andar, pode ir na frente, só preciso fazer uma ligação.

Ele fez um “ok” com a mão e partiu.

Kaja fechou os olhos e deu um longo e trêmulo suspiro.

 

O escritório do promotor de polícia ficava no sexto andar, logo Harry não teve que andar muito. A jovem advogada, provavelmente contratada depois da última vez que Harry passou por lá, olhou-o por cima dos óculos quando ele entrou.

— Estou precisando de um mandado — disse Harry.

— E você é?

— Harry Hole, inspetor.

Ele mostrou a identidade, mesmo tendo notado pela reação meio agitada da moça que ela havia ouvido falar dele. Podia adivinhar o quê e resolveu deixar para lá. Ela, por sua vez, anotou o nome dele no formulário de mandado de busca e apreensão, semicerrando os olhos de forma exagerada, como se o soletrado fosse extremamente complicado.

— Os dois campos?

— Ótimo — disse Harry.

Ela marcou os campos de mandado de busca e de prisão e inclinou-se para trás na cadeira de um modo que Harry apostou ser uma imitação da postura do tipo “você-tem-trinta-segundos-para-me-convencer” que ela havia visto os advogados mais experientes fazer.

Por experiência, Harry sabia que o primeiro argumento seria o mais importante — era aí que o jurista se decidia —, por isso começou dizendo que Leike tinha ligado para Elias Skog dois dias antes do assassinato. Mesmo que Leike na conversa com Harry houvesse alegado não conhecer Skog nem ter conversado com ele na cabana de Håvass. O segundo argumento foi a condenação por agressão violenta que Leike admitiu ser uma tentativa de homicídio, e Harry já estava contando com o mandado assinado. Por isso, adoçou o caso com as coincidências do Congo e do lago Lyseren sem entrar em demasiados pormenores.

Ela tirou os óculos.

— A princípio, concordo com o mandado — afirmou ela. — Mas preciso refletir um pouco.

Harry vociferou por dentro. Um jurista mais experiente teria feito o mandado na hora, mas ela era provavelmente tão nova no posto que não ousava expedir o mandado sem consultar mais alguém. Devia constar “em treinamento” na sua porta, para que ele pudesse ter ido a um dos outros. Agora era tarde demais.

— É urgente — disse Harry.

— Por quê?

Nessa ela o pegou. Harry fez um movimento no ar com a mão do tipo que quer dizer tudo, mas que não diz nada.

— Vou tomar uma decisão logo depois do almoço… — Ela fez uma performance de olhar para o formulário. — ... Hole. Vou deixar o mandado no seu escaninho caso seja aprovado.

Harry cerrou os dentes para frear algum comentário impetuoso. Porque sabia que ela estava fazendo a coisa certa. Estava claramente compensando pelo fato de ser jovem, inexperiente e uma mulher num meio dominado por homens. Mas ela estava aparentemente determinada em se fazer respeitar; na primeira oportunidade deu a entender que a técnica do rolo compressor não funcionava com ela. Bem feito. Ele ficou com vontade de arrancar seus óculos e quebrá-los.

— Você poderia me ligar no interfone assim que tomar uma decisão? — perguntou. — No momento, minha sala fica bem longe dos escaninhos.

— Está bem — respondeu ela, misericordiosa.

 

Harry estava no corredor subterrâneo, a uns 50 metros da sua sala, quando ouviu a porta se abrir. Uma pessoa saiu, trancou a porta depressa, virou-se e começou a andar rápido em direção a Harry. E parou ao avistá-lo.

— Te assustei, Bjørn? — perguntou Harry, baixinho.

A distância entre eles ainda era de uns 20 metros, mas as paredes lançavam o som em direção a Bjørn Holm.

— Um pouco — respondeu, ajeitando o colorido gorro rastafári que cobria o cabelo ruivo.

— É seu jeito sorrateiro.

— Humm. E você?

— O que tem eu?

— O que está fazendo aqui? Pensei que tivesse bastante trabalho a fazer na Kripos. Soube que já tem um ótimo emprego novo.

Harry parou 2 metros longe de Holm, que parecia visivelmente confuso.

— Nem tão ótimo assim — respondeu Holm. — Não posso trabalhar com o que eu mais quero.

— Que seria?

— Perícia técnica. Você me conhece.

— Será?

— Hein? — Holm franziu a testa. — Coordenação de planejamento tático e técnico, o que você acha que é? Dar recados, convocar reuniões, mandar relatórios.

— É uma promoção — disse Harry. — O começo de alguma coisa legal, não acha?

Holm bufou.

— Sabe o que acho? Acho que Bellman me colocou lá para me manter longe dos acontecimentos, para garantir que eu não fique por dentro de nada. Porque ele suspeita de que, se eu conseguisse alguma informação, talvez ele não a tivesse antes de você.

— Mas aí ele se engana — disse Harry e se postou bem na frente do perito criminal.

Bjørn Holm piscou duas vezes.

— Qual é, Harry?

— Pois sou eu que pergunto isso. — Harry ouviu a raiva tornar sua voz rígida e metálica. — Que porra você estava fazendo na sala, Bjørn? Sua tralha já foi tirada de lá.

— O que eu estava fazendo? — disse Bjørn. — Fui pegar isso aqui. — Ele levantou a mão direita, que segurava um livro. — Você disse que ia deixá-lo na recepção, lembra?

A biografia de Hank Williams.

Harry se sentiu corar de vergonha.

— Humm.

— Humm — imitou Bjørn.

— Eu tinha levado quando tiramos as coisas — disse Harry. — Mas a gente deu meia-volta no corredor e mudou de volta. Depois esqueci.

— Ok. Posso ir agora?

Harry deu um passo para o lado, e ouviu Bjørn pisar pelo corredor, praguejando.

Ele destrancou a porta e entrou na sala.

Deixou-se cair na cadeira.

Deu uma olhada ao redor.

O bloco de anotações. Ele o folheou. Não havia anotado nada da conversa, nada que pudesse revelar Tony Leike como suspeito. Harry abriu as gavetas da mesa para procurar indícios de que alguém os tivesse revistado. Tudo parecia intocado. Será que Harry havia se enganado? Podia ter esperança de que Holm não estivesse vazando informações para Mikael Bellman?

Harry olhou o relógio. Torceu para que a advogada almoçasse depressa. Ele tocou uma tecla qualquer no computador e a tela ganhou vida. Ainda mostrava a última página da sua busca no Google. No campo de busca, um nome reluzia diante de seu olhar: Tony Leike.