O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 48 de 96

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O Leopardo

Capítulo 48

H IPÓTESE

 

O chefe da Divisão de Homicídios no distrito sul de Sydney, Neil McCormack, passou a mão pelo cabelo ralo enquanto estudava a mulher de óculos do outro lado da mesa de interrogatório. Ela havia ido direto da editora em que trabalhava. Vestia um conjunto simples e amarrotado, mas Iska Peller tinha algo que o fez supor que era caro, não um mero adorno para impressionar almas simples como ele. Porém o endereço residencial indicava que ela não era exatamente rica. Bristol não era o bairro mais chique de Sydney. Parecia adulta e sensata. Definitivamente não do tipo que gosta de dramatizar, exagerar, querer chamar a atenção. Além do mais, foram eles que pediram para Iska Peller comparecer; não ela que procurou a polícia de Sydney. Ele olhou para o relógio. McCormack havia combinado com o filho que iam velejar à tarde; encontrariam-se em Watson Bay, onde o barco estava atracado. Por isso queria acabar logo. E tudo ia muito bem até a última informação.

— Srta. Peller — disse McCormack, inclinando-se para trás e dobrando as mãos sobre sua avantajada barriga —, por que não contou a ninguém sobre isso antes?

Iska Peller deu de ombros.

— Por que deveria? Ninguém me perguntou, e também não vejo por que possa ter qualquer relevância para a morte de Charlotte. Estou contando isso agora só porque você está me perguntando tão especificamente. Pensei que estivessem interessados no que aconteceu na cabana, não num… incidente posterior. E foi apenas isso, um pequeno incidente, breve, logo esquecido. Idiotas como ele existem em todo lugar. Como indivíduo, não se pode dar ao trabalho de registrar queixa contra cada cretino que aparece.

McCormack grunhiu. A mulher tinha razão, claro. Ele tampouco tinha vontade de prosseguir com o caso. Sempre havia um monte de problemas e coisas desagradáveis, para não falar em mais trabalho quando uma pessoa possuía um título profissional que começava ou terminava com a palavra “polícia”. Ele olhou pela janela. O sol brilhava na água de Port Jackson e no lado de Manly, onde ainda se via fumaça, apesar de já ter se passado uma semana desde que o último incêndio florestal da estação fora apagado. A fumaça ia para o sul. Vento norte, agradável e quente. Perfeito para velejar. McCormack havia gostado de Harry Hole. Ou Holy, como ele chamara o norueguês. Havia feito um trabalho brilhante quando os ajudou com o caso de assassinato do palhaço. Mas a voz do norueguês alto e loiro parecia cansada ao telefone. McCormack torcia para que Holy não estivesse emborcando outra vez.

— Vamos voltar ao começo, Srta. Peller?

 

Mikael Bellman entrou na sala de reunião Odin e ouviu as conversas silenciarem de imediato. Ele foi direto ao púlpito e colocou as anotações na sua frente, conectou o computador e se posicionou no meio da sala com os pés afastados. O grupo de investigação contava com 36 pessoas, o triplo do normal num caso de homicídio. Já trabalhavam havia tanto tempo sem resultados que ele duas vezes teve que estimular certo ânimo no grupo, mas em geral deram duro, como heróis. Por isso, Bellman não dera só a si mas também ao seu pessoal o que tinha prometido ser o grande triunfo: a prisão de Tony Leike.

— Devem ter lido os jornais de hoje — começou, observando seu público.

Ele havia salvado as peles deles. Na primeira página de dois dos três maiores jornais via-se a mesma foto: Tony Leike entrando num carro diante da sede da Polícia. O terceiro trazia uma foto de Harry Hole, uma foto de arquivo de um talk show onde tinha falado sobre o Boneco de Neve.

— Como podem ver, o inspetor Hole assumiu a responsabilidade. O que é, de fato, justo e correto.

Suas palavras foram devolvidas por um silêncio profundo, e ele encarou o cansado olhar matinal dos policiais. Ou seria outra espécie de cansaço? Nesse caso, devia ser combatido. Porque a situação estava ficando séria. O chefe da Kripos havia aparecido para dizer que o Ministério da Justiça ligara fazendo perguntas. A areia da ampulheta escorria.

— Não temos mais um suspeito principal — anunciou ele. — Mas a boa notícia é que temos pistas novas. E todas vêm da cabana de Håvass, em Ustaoset.

Ele foi até o computador, bateu numa tecla, fazendo surgir a primeira página da apresentação em PowerPoint que havia preparado durante a noite.

Meia hora depois checaram todos os fatos que tinham disponíveis, com nome, horário e supostas rotas.

— A questão é — emendou ele ao desligar o computador — com que tipo de assassinato estamos lidando. Acho que podemos excluir o típico assassinato em série. As vítimas não foram escolhidas casualmente dentro de um grupo demográfico; elas estão ligadas a um local específico e a um horário específico. Por isso, há razões para acreditar que estamos também falando de um motivo específico que pode até ser entendido como racional. Se for o caso, facilitaria muito a nossa tarefa: encontre o motivo e teremos o assassino.

Bellman viu vários investigadores assentirem com a cabeça.

— O problema é que não há testemunhas para contar qualquer coisa. A única que sabemos estar viva, Iska Peller, estava doente e passou o dia e a noite inteira sozinha no quarto. Sabemos, por exemplo, que Adele Vetlesen estava com um homem que tinha acabado de conhecer, mas ninguém no seu círculo de amizade parece saber nada sobre ele, por isso temos que supor que era uma relação de curta duração. Estamos procurando os homens que ela contatou por telefone e pela internet, mas leva tempo para verificar todos. E, sem testemunhas, temos que estabelecer nosso próprio ponto de partida. Precisamos de hipóteses para o motivo. Qual pode ser o motivo para assassinar pelo menos quatro pessoas?

— Ciúmes ou vozes na cabeça — respondeu alguém do fundo da sala. — É o que toda a nossa experiência diz.

— De acordo. Quem pode ter vozes na cabeça que mandam matar?

— Qualquer um com uma ficha psiquiátrica — disse uma voz no dialeto cantado do norte.

— E qualquer um sem — acrescentou outra voz.

— Certo. Quem costuma ter ciúmes?

— Namorado ou cônjuge de alguém que estava lá.

— Mas já verificamos os álibis dos namorados das vítimas e possíveis motivos — apontou outro. — Foi a primeira coisa que fizemos. Ou não tinham parceiros estáveis ou os eliminamos como suspeitos.

Mikael Bellman sabia muito bem que eles só estavam pisando no acelerador com as rodas girando no mesmo atoleiro onde estavam presos havia algum tempo, porém o mais importante agora era que estavam prontos para fazer exatamente isso: acelerar. Porque ele não tinha dúvida de que a cabana de Håvass era uma tábua que podia ser colocada por baixo da roda para tirá-los do atoleiro.

— Não eliminamos todos os namorados e cônjuges do caso — disse Bellman e balançou nos calcanhares. — Só não consideramos todos suspeitos. Qual deles não tinha álibi para o horário em que sua mulher foi assassinada?

— Rasmus Olsen!

— Correto. E, quando fui ao Parlamento para conversar com Rasmus Olsen, ele admitiu que tivessem o que ele chamou de “um pequeno rompante de ciúmes” alguns meses antes. Rasmus havia flertado com uma mulher. E Marit Olsen foi passar alguns dias na cabana de Håvass para pensar. Os dias conferem. Talvez ela tenha feito mais que pensar. Talvez quisesse se vingar. E aqui existe uma informação. Na noite em questão, quando as vítimas estavam na cabana, Rasmus Olsen não estava em Oslo; ele possuía uma reserva no hotel de Ustaoset. O que Rasmus fazia na área se sua mulher estava na cabana de Håvass? E será que ele passou a noite no hotel ou foi de esqui até a cabana?

Os olhares na sua frente não estavam mais pesados e cansados, pelo contrário; ele estava acendendo uma luz neles. Esperou uma resposta. Em geral, um grupo de investigação tão grande não era a maneira mais eficaz de resolver aquele tipo de charada improvisada, mas já estavam trabalhando tempo suficiente no caso para que todos ali presentes tivessem seus pontos de vista, suas dicas certeiras e suas hipóteses fantasiosas refutados e seus egos amansados.

Um jovem investigador arriscou.

— Ele pode ter chegado à cabana durante a noite sem avisar, pegando-a no flagra. Talvez ele tenha visto algo e saído de fininho. Depois planejou tudo com calma.

— Talvez — disse Bellman, que foi até o púlpito e pegou um bilhete. — O primeiro argumento em favor da teoria: acabei de receber isso da Telenor. Mostra que Rasmus Olsen falou por telefone com sua mulher na parte da manhã. Vamos, portanto, supor que ele sabia a que cabana ela estava indo. O segundo argumento em favor da hipótese é esse relatório do tempo que mostra que o luar proporcionava visibilidade durante a noite toda, e ele pode muito bem ter esquiado para lá, da mesma forma que Tony Leike. O primeiro argumento contra a hipótese: por que matar alguém além de sua mulher e seu hipotético parceiro?

— Talvez ela tivesse mais de um — gritou uma das investigadoras, uma mulher baixinha e peituda que Bellman supôs ser lésbica o suficiente para brincar com a ideia de levá-la para a casa de Kaja uma noite. Apenas em pensamento, claro. — Talvez houvesse uma puta orgia geral lá em cima.

As gargalhadas ressoaram na sala. Ótimo, a atmosfera já estava mais leve.

— Talvez ele não tenha visto com quem ela estava transando nem se era mulher ou homem, apenas que alguém estava embaixo dos lençóis com ela — comentou outro. — Só queria se garantir.

Mais risos.

— Parem com isso, não temos tempo para toda essa bobagem — gritou Eskildsen, um policial experiente que ninguém sabia por quanto tempo havia atuado como investigador de homicídios. A sala ficou em silêncio. — Algum de vocês novatos se lembra do caso que solucionaram na Divisão de Homicídios uns anos atrás, quando todos achavam que havia um serial killer à solta em Oslo? — continuou Eskildsen. — Quando pegaram o assassino, descobriram que ele só tinha motivo para matar a terceira vítima da série. Mas, sabendo que seria suspeito se houvesse apenas aquele assassinato, ele matou as outras para camuflar, tentando fazer parecer assassinatos em série.

— Uau — berrou o jovem policial. — A Divisão de Homicídios conseguiu solucionar um caso? Deve ter sido um tiro no escuro.

O jovem olhou em torno com um sorriso estampado no rosto, que enrubesceu quando não houve resposta. Porque todos com algum tempo no ramo de homicídios se lembravam daquele caso. Estava no programa das academias policiais de todos os países nórdicos. Era lendário. Assim como o homem responsável por solucionar o caso.

 

— Harry Hole.

— Aqui é Neil McCormack, Holy. Como vai? E onde você está? — disse em inglês.

McCormack achou que ouviu Harry responder “em coma”, mas supôs que estava pronunciando o nome de um lugar na Noruega.

— Conversei com Iska Peller — comentou, ainda em inglês. — Como você falou, ela não tinha muito o que dizer sobre a noite na cabana, mas sobre a noite seguinte…

— É?

— Ela e a amiga Charlotte saíram da cabana com o policial local que as levou para a casa dele. Enquanto a Srta. Peller dormia para melhorar da gripe, o policial e a amiga tomaram um drinque na sala, e ele tentou seduzir Charlotte. Chegou a usar força, tanto que ela gritou por ajuda, a Srta. Peller acordou e foi até a sala onde o policial já havia baixado a calça de esquiar da sua amiga até os joelhos. Ele parou, e a Srta. Peller e a amiga decidiram ir para a estação de trem para ficar num hotel num lugar que receio não…

— Geilo.

— Obrigado.

— Você disse “tentou seduzir”, Neil, mas quer dizer estuprar?

— Não. Tive que conversar bastante com a Srta. Peller até chegarmos a uma formulação precisa. Ela disse que, pela descrição da amiga, o policial havia baixado a calça dela sem seu consentimento, mas que ele não tocou nas partes íntimas da moça.

— Mas…

— Podemos supor que era essa sua intenção, mas não sabemos. De qualquer maneira, ainda não havia acontecido nada de fato criminoso. A Srta. Peller estava de acordo com isso. Nem se deram ao trabalho de registrar queixa... só se mandaram de lá. O policial tinha até conseguido que algum maluco do lugar levasse os três até a estação de trem e inclusive as ajudou a embarcar. De acordo com a Srta. Peller, o policial não parecia perturbado com o caso; ele estava mais interessado em conseguir o telefone da amiga do que em se desculpar. Como se fosse algo bastante natural quando um homem encontra uma mulher.

— Humm. Mais alguma coisa?

— Não, Harry. Estamos dando proteção policial a ela, como você sugeriu. Serviço 24 horas, comida e necessidades entregues à porta. Ela pode ficar curtindo o sol. Se tiver sol em Bristol, claro.

— Obrigado, Neil. Se surgir algo…

— Eu ligo, e vice-versa.

— Claro. — E emendou em inglês: — Se cuida.

É o que você diz, pensou McCormack, ao desligar e olhar para o céu azul da tarde. Os dias eram um pouco mais longos no verão, ainda dava para velejar uma hora e meia antes de escurecer.

 

Harry se levantou e foi para o chuveiro. Ficou parado, deixando a água escaldante escorrer pelo corpo durante vinte minutos. Depois saiu, secou a pele sensível e vermelha e se vestiu. Viu no celular que houve dezoito ligações perdidas enquanto dormia. Quer dizer que conseguiram seu número de celular. Ele reconheceu os primeiros dígitos dos três maiores jornais da Noruega e os dois maiores canais de televisão, visto que todos tinham números PABX com zeros e dígitos parecidos. O final da série de números era mais arbitrário e levava com certeza a jornalistas famintos por notícias. Mas seu olhar se deteve em um dos números, sem que soubesse o motivo. Porque havia alguns bits em seu cérebro que se divertiam em memorizar números, talvez. Ou porque os primeiros dígitos mostraram que era de Stavanger. Ele verificou no registro de ligações e reencontrou o número de dois dias antes. Colbjørnsen.

Harry apertou seu número, segurando o celular entre o ombro e o queixo enquanto amarrava as botas, dando-se conta de que estava na hora de comprar novas. A proteção de ferro que permitia pisar em cima de pregos estava saindo da sola.

— Puxa, Harry. Os jornais de hoje acabaram com você. Um massacre. O que seu chefe diz?

Colbjørnsen parecia estar de ressaca. Ou doente mesmo.

— Não sei — respondeu Harry. — Ainda não falei com ele.

— A Divisão de Homicídios se safa, a culpa cai toda em cima de você. Foi seu chefe que te fez assumir a culpa pelo grupo?

— Não.

A pergunta veio depois de um longo silêncio.

— Não… Não foi Bellman, foi?

— O que você quer, Colbjørnsen?

— Porra, Harry. Acabei de fazer uma investigação por conta própria, igual a você. Por isso preciso saber se a gente ainda está jogando no mesmo time ou não.

— Não tenho time, Colbjørnsen.

— Ótimo, saquei você que ainda está no nosso time. O dos perdedores.

— Estou de saída.

— Certo. Tive outra conversa com Stine Ølberg, a garota da qual Elias Skog gostava.

— Então?

— Descobri que Elias Skog contou mais a ela sobre o que aconteceu na cabana naquela noite do que fiquei sabendo durante o primeiro interrogatório.

— Estou começando a acreditar nos segundos interrogatórios — disse Harry.

— Hein?

— Nada. Conta aí.