O Leopardo
Capítulo 62
TRÂNSITO
K im Erik Lokker era o funcionário mais jovem da Perícia Técnica. Consequentemente, recebia tarefas de caráter menos importante. Como ir de carro até a cidade de Drammen. Bjørn Holm havia mencionado que Bruun era homossexual, do tipo que gostava de flertar, mas que Kim Erik apenas entregaria as roupas e depois iria embora.
Quando a mulher do GPS declarou “Você chegou ao seu destino”, ele se encontrou em frente a um pequeno prédio antigo. Estacionou, atravessou a entrada e subiu até a porta no terceiro andar com os nomes GEIR BRUUN/ADELE VETLESEN escritos num pedaço de papel, colado com dois pedaços de fita adesiva.
Kim Erik tocou a campainha uma vez, e outra, e ouviu finalmente o som de passos pesados chegando.
A porta foi aberta. O homem tinha apenas uma toalha presa na cintura. Era excepcionalmente branco e sua careca estava molhada, brilhando de suor.
— Geir Bruun? Esp… Espero não estar incomodando — desculpou-se Kim Erik Lokker e segurou o saco plástico à frente com o braço estendido.
— Sem problema, só estou dando uma trepada — disse ele com a voz afetada que Bjørn Holm imitara.
— O que é isso?
— As roupas que levamos emprestadas. Receio que vamos ter que ficar com as calças de esqui por mais um tempo.
— Sério?
Kim Erik ouviu a porta atrás de Geir Bruun ser aberta. E uma voz bem feminina piar:
— O que foi, meu amor?
— Só alguém entregando algo.
Uma figura se aninhou atrás de Geir Bruun. Ela nem havia se preocupado em pôr uma toalha, e Kim Erik constatou que aquela pequena criatura era cem por cento mulher.
— Olá — saudou ela sobre o ombro de Geir Bruun. — Se terminou, gostaria de tê-lo de volta. — Ela levantou um delicado pezinho e chutou. O vidro da porta tremeu e ressoou um bom tempo depois que foi batida.
Harry parou o veículo e olhou para dentro da neve.
Havia algo ali.
Bellman estava com os braços em volta de Harry, a cabeça encostada às costas dele para se proteger do vento.
Harry esperou. Observou.
Estava ali de novo.
Uma cabana. De toras entalhadas. E uma despensa externa.
Sumiu de novo, apagada pela neve, como se nunca houvesse existido. Mas Harry sabia em que direção ela se encontrava.
Por que não acelerava de imediato para aquela direção, para se salvarem? Por que hesitou? Ele não sabia. Mas havia algo naquela cabana, algo que tinha pressentido nos poucos segundos em que havia ficado visível. Alguma coisa com as janelas pretas, a sensação de estar observando uma casa decididamente abandonada e, mesmo assim, habitada. Algo que não era bom. E que o fez acelerar bem devagar, para que o vento abafasse o som.