O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 67 de 96

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O Leopardo

Capítulo 67

 

O CAVALHEIRO

 

Eram quinze para as oito, e o dia ainda não havia ajustado cor e contraste. A luz cinzenta da manhã mostrava a paisagem numa versão granulada em preto e branco quando Harry estacionou ao lado do único carro na beira do lago Lyseren e caminhou até o cais flutuante. O delegado Skai estava na beira com uma vara de pescar na mão e um cigarro no canto da boca. Chumaços de neblina pairavam como algodão sobre o junco que despontava do espelho d’água escuro e liso.

— Hole — disse Skai sem se virar. — Levantou cedo.

— Sua mulher disse que você estava aqui.

— Toda manhã das sete às oito. A única chance que tenho para pensar um pouco antes do estresse começar.

— Pegou algum?

— Nada. Mas tem peixes ali no meio do junco.

— Soa familiar. Receio que o estresse vá começar mais cedo hoje. É sobre Tony Leike.

— Tony, sim. A fazenda do avô dele ficava em Rustad, a leste do lago Lyseren.

— Então você se lembra bem dele?

— Esse é um lugar pequeno, Hole. Meu pai e o velho Leike eram amigos, e Tony vinha aqui todo verão.

— O que você lembra dele?

— Bem... Cara engraçado. Muitas pessoas gostavam de Tony. Especialmente as mulheres. Ele era bonito, tipo Elvis. E também conseguiu se cercar de bastante mistério. Os rumores diziam que tinha crescido sozinho com a mãe, que era infeliz e alcoólico, até ela o mandar embora, porque o homem com quem estava namorando não gostava do garoto. Mas as mulheres por aqui gostavam bastante dele. E Tony gostava delas. Às vezes, isso o metia em encrencas.

— Como quando ele cantou sua filha?

Skai se sobressaltou, como se tivesse fisgado algo.

— Sua mulher — disse Harry. — Perguntei a ela sobre Tony, e ela contou. Que era pela sua filha que Tony e aquele garoto daqui brigaram aquela vez.

Skai fez que não.

— Aquilo não foi uma briga, foi uma matança. Coitado de Ole, pensou que ele e Mia eram namorados, só porque estava apaixonado e ela o deixou levá-la de carro para um baile com a amiga. Ole não era do tipo que gostava de briga, era mais mauricinho. Mas ele foi atrás de Tony. E Tony o derrubou, tirou a faca e… Foi muito feio, não estamos acostumados com esse tipo de coisa por aqui.

— O que ele fez?

— Cortou fora metade da língua do garoto. Colocou-a no bolso e foi embora. Meia hora depois prendemos Tony na casa do avô e dissemos que estavam precisando da língua na sala de cirurgia. Tony disse que a havia jogado aos corvos.

— O que quis te perguntar é se você chegou a suspeitar que Tony houvesse cometido um estupro. Naquela época ou em qualquer outra.

Skai se virou energicamente.

— Deixe-me explicar dessa maneira, Hole. Mia nunca mais voltou a ser a mesma garota alegre e feliz. Ela ainda queria o maluco, claro, mas as garotas dessa idade são assim mesmo. E Ole se mudou. Toda vez que o coitado abria a boca por aqui, não só ele como todos os outros se lembravam daquela humilhação. Por isso, sim, diria que Tony Leike é um cara violento. Mas não, não acho que ele tenha violentado alguém. Se tivesse, já teria feito com Mia, por assim dizer.

— Ela…?

— Eles estavam no mato atrás do salão do baile. Ela não deixou Tony pegá-la. E ele aceitou.

— Tem certeza? Lamento ter que perguntar, mas é…

O anzol saltou da água na direção deles. Brilhou nos primeiros raios horizontais do sol.

— Tudo bem, Hole. Sou policial e estou a par do caso em que estão trabalhando. Mia é uma garota direita e não mente. Nem na hora de testemunhar. Pode ter o relatório se quiser saber os detalhes. Só quero que ela não tenha que passar por tudo outra vez.

— Não será necessário — disse Harry. — Obrigado.

 

Harry havia informado os outros investigadores na sala de reuniões Odin de que a pessoa que ele tinha visto por baixo da motoneve — mas ainda não encontrada, apesar das tentativas com reforço policial — possuía os dedos artríticos de Tony Leike. Então expôs de novo sua teoria. E depois se inclinou para trás e aguardou as reações.

A investigadora Pelicano olhou para Harry por cima dos óculos, mas aparentemente falava a todos da reunião matinal.

— Quer dizer que você acha que Adele fez aquilo voluntariamente? Ela gritou por socorro, pelo amor de Deus!

— Isso foi algo que Elias Skog só pensou mais tarde — rebateu Harry. — Seu primeiro pensamento foi o de ver duas pessoas transando de forma consensual.

— Mas uma mulher que leva um homem para uma cabana não transa com outro cara que por acaso aparece no meio da noite! É preciso ser mulher para entender isso? — sibilou ela, e com seus novos dreadlocks, de impressionante mau gosto, lembrou a Harry uma furiosa Medusa.

A resposta veio da pessoa perto de Harry.

— Você realmente acha que o gênero automaticamente te dá conhecimento superior sobre a preferência sexual da metade da população mundial? — Ærdal fez uma pausa, estudando a unha do mindinho que tinha acabado de limpar. — Não constatamos que Adele Vetlesen mudava de parceiro o tempo todo por livre e espontânea vontade? E que ela aceitou transar com um homem que mal conhecia numa fábrica fechada, no meio da noite?

Ærdal baixou a mão e começou a limpar a unha do dedo anelar, murmurando tão baixinho que somente Harry podia ouvir.

— Além do mais, já fodi mais mulheres que você, sua ave descarnada.

— As mulheres se apaixonavam por Tony com facilidade e vice-versa — disse Harry. — Tony chegou tarde à cabana, o namorado de Adele estava chateado com algo e tinha ido para a cama. Ele e Adele podiam flertar em paz. Ele estava com problemas em casa, e ela havia começado a perder o tesão pelo namorado. Adele e Tony estavam a fim um do outro, mas na cabana havia pessoas em todo canto. Por isso, deram uma saidinha na madrugada e se encontraram em frente à casinha do banheiro. Começaram a se beijar, se tocaram e estavam tão excitados que havia o que na Divisão de Combate à Violência Sexual se chama de “fluido pré-ejaculatório” na ponta do pênis, que foi esfregado nas calças de esqui dela, antes que ele conseguisse baixá-las e eles começassem a transar. Extasiada, ela gritou o suficiente para acordar Elias Skog, que os viu pela janela. E acho que também acordou o namorado, e que ele os viu do seu quarto. Acho que ela não deu a mínima. Ao contrário de Tony, que tentou abafar seus gritos.

— Se ela não estivesse nem aí, por que ele estaria? — indagou Pelicano. — Afinal, são as mulheres que são estigmatizadas por esse tipo de frivolidade, enquanto o status dos homens só aumenta. De outros homens, quero dizer.

— Tony Leike tinha pelo menos dois bons motivos para abafar os gritos — explicou Harry. — Primeiro porque não se quer divulgar sexo extracurricular sendo um noivo que figura nas manchetes de jornal, e especialmente não quando é o dinheiro do futuro sogro que salvará seus investimentos no Congo. Além do mais, ele era um alpinista experiente e conhecia bem a área.

— E o que isso tem a ver com o caso?

Ouviram uma gargalhada, e todos se viraram para a ponta da mesa, onde Mikael Bellman estava.

— Avalanche — respondeu ele, rindo. — Tony Leike estava com receio de que os gritos de Adele Vetlesen pudessem provocar uma avalanche.

— Tony devia saber que mais de um quarto das avalanches que acontecem é provocado por pessoas — disse Harry.

Risos incrédulos se espalharam ao redor da mesa; até Pelicano se permitiu dar um sorriso.

— Mas o que faz você achar que o namorado de Adele os viu? — perguntou ela. — E por que Adele não estava nem aí? Será que ficou tão excitada assim?

— Porque — começou a responder Harry, inclinando-se para trás na cadeira — Adele já fez isso antes. Ela mandou uma mensagem de celular para seu namorado da época com uma foto dela transando com outro. Uma mensagem cruel, mas clara. De acordo com os amigos, ela não se encontrou mais com o namorado da época da viagem depois de irem à cabana de Håvass.

— Interessante — disse Bellman. — Mas aonde você está nos levando?

— Ao motivo — respondeu Harry. — Pela primeira vez nesse caso temos um “por quê”.

— Então, estamos desistindo da teoria sobre um serial killer maluco? — perguntou Ærdal.

— O Boneco de Neve também tinha um motivo — emendou Beate Lønn, que tinha acabado de entrar e se sentar na ponta da mesa. — Insano, mas definitivamente um motivo.

— Esse motivo é mais simples — rebateu Harry. — Os ciúmes de sempre. Motivo de dois entre três assassinatos nesse país. E na maioria dos outros. Nesse sentido, como seres humanos somos bastante previsíveis.

— Talvez isso explique os assassinatos de Tony Leike e Adele Vetlesen — começou Pelicano. — Mas e os outros?

— Tiveram que ser eliminados — respondeu Harry. — Eram todos testemunhas em potencial do que aconteceu na cabana e podiam contar à polícia, revelando o motivo. E talvez pior: foram testemunhas da sua total humilhação; tinha sido traído em público. Para uma pessoa instável, isso pode ser motivo suficiente.

Bellman bateu as mãos.

— Espero termos logo algumas respostas. Falei com Krongli por telefone e ele disse que o tempo está melhor na área de busca. Agora podem mandar cães e usar um helicóptero. Alguma razão para não ter mencionado antes que você suspeita que o corpo seja de Tony Leike, Harry?

Harry deu de ombros.

— Pensei que chegaríamos ao corpo bem mais rápido, por isso não vi motivo para especular em voz alta. Afinal, artrite não é uma doença tão rara.

Bellman pousou seu olhar em Harry por um segundo antes de se dirigir aos outros.

— Pessoal, temos um suspeito. Alguém quer batizá-lo?

— O oitavo hóspede — sugeriu Ærdal.

— O Cavalheiro — continuou Pelicano.

Durante alguns segundos reinou um silêncio absoluto, como se as novas revelações precisassem ser digeridas antes de prosseguirem.

— Bem, não sou nenhuma investigadora tática — começou Beate Lønn, segura de que todos na sala sabiam que ela nunca comentava nada sobre algo do qual não tivesse profundos conhecimentos. — Mas não estão estranhando alguma coisa? Leike tinha álibi para os horários dos homicídios, mas e quanto a todas as pistas que apontam para ele? Como fica a ligação de seu telefone fixo para Elias Skog? E a arma do crime que foi comprada no Congo? Uma área onde Leike tinha interesses econômicos. Seria por acaso?

— Não — respondeu Harry. — Desde o primeiro dia, o Cavalheiro tem nos guiado a Tony Leike como assassino. Foi o Cavalheiro que pagou Juliana Verni para ir ao Congo, porque ele sabia que cada pista levando ao Congo apontaria para Tony Leike. E quanto à ligação da sua casa a Elias Skog, chequei hoje algo que já deveríamos ter investigado há tempo, mas que é típico deixarmos de lado ao sentir que estamos nos aproximando do desfecho. Mais ou menos na mesma hora da ligação da casa de Leike para Skog foram feitas três ligações do telefone fixo do seu escritório em Aker Brygge. Ele não pode estar em dois lugares ao mesmo tempo. Aposto 200 coroas que ele estava em Aker Brygge. Alguém aposta contra?

Rostos mudos, mas atentos.

— Quer dizer que o Cavalheiro ligou para Elias Skog da casa de Leike? — perguntou Pelicano. — Como…

— Quando Leike foi me procurar na delegacia, ele contou que houve um arrombamento da porta do porão alguns dias antes. Confere com o horário da ligação a Skog. O Cavalheiro roubou uma bicicleta para disfarçar, fazendo parecer um roubo comum, inocente o suficiente para a gente anotar a ocorrência e mais nada. Leike sabe que a gente não faz nada nesse tipo de roubo, por isso nem deu queixa. Assim, o Cavalheiro plantou uma prova irrefutável contra Leike.

— Que víbora! — exclamou Pelicano.

— Aceito a explicação de como — disse Beate Lønn. — Mas por quê? Por que apontar para Tony Leike?

— Porque ele sabia que a gente cedo ou tarde ia conseguir ligar as vítimas à cabana de Håvass — explicou Harry. — E isso limitaria o número de suspeitos, de modo que todos que passaram aquela noite lá estariam no foco da investigação. Havia dois motivos para ele remover a página do livro de hóspedes. Primeiro, ele possuía os nomes dos hóspedes, e assim podia tranquilamente encontrá-los e matá-los, e a gente não teria como detê-lo. Segundo, e mais importante, ele podia manter o próprio nome escondido.

— Lógico — disse Ærdal. — E para ter absoluta certeza de que a gente não iria atrás dele, tinha que nos dar alguém que parecesse culpado. Tony Leike.

— E foi por isso que ele teve que esperar para matar Tony Leike no final — disse um dos investigadores, um homem com farto bigode tipo Fridtjof Nansen e de quem Harry só lembrava o sobrenome.

A pessoa próxima a Harry, um jovem com pele e olhos reluzentes, de quem ele não lembrava nome nenhum, interveio:

— Mas, infelizmente para ele, Tony tinha um álibi para os horários dos assassinatos. E como Tony já foi usado no papel de bode expiatório, chegou a hora de matar o inimigo número um.

A temperatura na sala havia aumentado, e o sol pálido e hesitante de inverno parecia iluminar a reunião. Eles avançavam; o nó estava finalmente frouxo. Harry registrou que até Bellman estava inclinado mais para a frente na cadeira.

— Tudo isso é muito bom — continuou Beate Lønn, e Harry esperou o “mas”, porém já sabia o que ia perguntar, sabia que ela ia fazer o papel de advogado do diabo, porque Beate LØnn sabia que ele tinha as respostas. — Mas por que esse Cavalheiro fez tudo de um jeito tão complicado?

— Porque os seres humanos são complicados — respondeu Harry e podia ouvir um eco de algo que tinha ouvido e esquecido. — Queremos fazer coisas complexas, que se entrelaçam, por meio das quais podemos controlar nossos destinos e nos sentir soberanos em nosso próprio universo. A sala que queimou na fábrica Kadok... Sabem do que mais me lembrou? Uma sala de controle. O quartel-general. E nem é certo que ele planejava matar Leike. Talvez quisesse apenas que fosse preso e julgado.

O silêncio foi tão absoluto que podiam ouvir um pássaro chilrear do lado de fora.

— Por quê? — perguntou Pelicano. — Se ele podia matá-lo? Ou torturá-lo?

— Porque a dor e a morte não são o pior que pode acontecer a um ser humano — respondeu Harry, de novo ouvindo o eco. — É a humilhação. Era isso que ele queria para Leike. A humilhação de ser destituído de tudo que se tem. A queda. A vergonha.

Ele viu o esboço de um sorriso nos lábios de Beate Lønn, e notou seu reconhecimento num gesto de cabeça.

— Mas — prosseguiu ele —, como já foi apontado, infelizmente para o nosso assassino, Tony tinha um álibi. E por isso Tony escapou com outra punição. Uma morte lenta e certamente cruel.

No silêncio subsequente, Harry sentiu algo passar por ele. O cheiro de carne chamuscada. E parecia que a sala toda respirou fundo ao mesmo tempo.

— Então, o que faremos agora? — perguntou Pelicano.

Harry ergueu o olhar. O pássaro trinando no galho do outro lado da janela era um tentilhão. Uma ave migratória que havia chegado cedo demais. Que dava às pessoas a esperança da primavera, mas que congelou na noite da primeira geada.

Não faço ideia, pensou Harry. Não faço ideia.