O Leopardo
Capítulo 91
DESPEDIDA
Choveu no enterro de Olav Hole. A presença foi como Harry havia esperado: não estava tão cheio quanto no enterro da mãe, mas não tão escasso que causasse constrangimento.
Depois, Harry e Søs ficaram na frente da igreja recebendo as condolências de velhos parentes de quem nunca tinham ouvido falar, de velhos colegas professores de cujos nomes eles lembravam, mas não de seus rostos. As únicas pessoas que não pareciam ser as próximas na fila eram os colegas de Harry da polícia: Gunnar Hagen, Beate Lønn, Kaja Solness e Bjørn Holm. Øystein Eikeland parecia definitivamente prestes a fazer o check-out, mas se desculpou dizendo que havia estado numa grande farra na noite anterior. E que Tresko, que não pôde ir, mandava abraços e pêsames. Harry passou os olhos pela igreja à procura das duas pessoas que ele tinha visto no último banco de trás, mas, obviamente, haviam partido antes do caixão ser carregado para fora.
Harry convidou todos para irem comer uns sanduíches e tomar um chope no restaurante Schrøder. Os poucos que haviam aceitado tinham muito a dizer sobre o tempo, mas pouco sobre Olav Hole. Harry terminou seu suco de maçã, explicou que tinha um compromisso, agradeceu a todos por terem comparecido e foi embora.
Ele pegou um táxi e deu um endereço de Holmenkollen ao motorista.
Ainda havia um pouco de neve nos gramados lá em cima.
Enquanto subiam a rua para a casa de toras pretas, o coração de Harry batia com força. E mais forte ainda quando estava na frente da porta familiar, depois de tocar a campainha e ouvir passos se aproximando. Passos familiares também.
Ela estava como sempre. Como sempre estaria. O cabelo escuro, a gentileza nos seus olhos castanhos, o pescoço fino. Maldita. Estava tão linda que doía.
— Harry — disse ela.
— Rakel.
— Seu rosto. Eu o vi na igreja. O que houve?
— Nada. Eles dizem que vai ficar bom de novo — mentiu ele.
— Entre, vou fazer café.
Harry balançou a cabeça.
— Deixei um táxi esperando na rua. Oleg está?
— Está no quarto. Quer vê-lo?
— Outro dia. Quanto tempo vão ficar?
— Três dias. Talvez quatro. Ou cinco. Veremos.
— Posso ver vocês dois em breve? Pode ser?
Ela fez que sim.
— Eu não sei se fiz a coisa certa.
Harry sorriu.
— Não, quem sabe o que é isso?
— Na igreja, quero dizer. Saímos antes de… atrapalhar. Você tinha outras coisas em que pensar. De qualquer modo, fomos por causa de Olav. Você sabe, Oleg e ele… bem, eles se davam muito bem. Duas pessoas reservadas. Não acontece todo dia.
Harry fez que sim.
— Oleg fala muito de você, Harry. Você significa mais para ele do que pode imaginar. — Ela olhou para baixo. — Mais do que eu também imaginei, talvez.
Harry limpou a garganta.
— Então tudo aqui está como desde… ?
Rakel apressou-se em dizer que sim, poupando-o de completar a frase impossível. Desde quando o Boneco de Neve tentou matá-los naquela mesma casa.
Harry olhou para ela. Só queria vê-la, ouvir sua voz. Sentir o olhar dela nele. Não queria perguntar. Harry limpou a garganta de novo.
— Tem uma coisa que preciso perguntar a você.
— O que é?
— Podemos ir até a cozinha?
Entraram. Ele se sentou à mesa bem na frente dela. Explicou lentamente e em detalhes. Ela o escutou sem interromper.
— Ele quer que o visite no hospital. Ele quer pedir o seu perdão.
— Por que eu devia aceitar?
— Você terá que responder isso por você mesma, Rakel. Mas ele não tem muito tempo.
— Eu li que é possível viver com a doença por muito tempo.
— Ele não tem muito tempo — repetiu Harry. — Pense a respeito. Você não precisa responder agora.
Ele esperou. Ele a viu piscar. Viu seus olhos ficarem marejados, ouviu o choro quase inaudível. Ela arfou.
— O que você faria, Harry?
— Eu diria não. Mas você sabe, sou uma pessoa bem ruim.
Seu riso se mesclou com as lágrimas. E Harry se perguntou como era possível sentir tanta falta de um som, certa oscilação de ar. Por quanto tempo você podia ansiar por certo riso.
— Preciso ir agora — disse ele.
— Por quê?
— Restam três reuniões.
— Restam? Antes de quê?
— Eu te ligo amanhã.
Harry se levantou. Ele tinha ouvido música do andar de cima. Slayer. Slipknot.
Depois de entrar no táxi e informar o próximo endereço, ele pensou sobre sua pergunta. Antes de quê? Antes de ter terminado. Antes de ficar livre. Talvez.
Foi uma corrida curta.
— Aqui pode levar mais tempo — avisou ele.
Respirou fundo, abriu o portão e foi até a porta da casa dos contos de fada.
Ele pensou poder ver os olhos turquesa seguindo-o da janela da cozinha.