O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 37 de 96

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O Leopardo

Capítulo 37

 

PERFIL

 

O prato do dia no restaurante Schrøder era picadinho, servido com ovo frito e cebola crua.

— Delicioso — disse Kaja.

— Parece que o cozinheiro está sóbrio hoje — entoou Harry e apontou: — Olha lá!

Kaja se virou para ver a televisão para a qual Harry apontava.

— Uau!

O rosto de Mikael Bellman preenchia a tela, e Harry sinalizou para Nina aumentar o volume. Harry estudou os movimentos da boca de Bellman. Os traços suaves, quase femininos. Brilhava no olhar escuro e intenso por baixo das sobrancelhas modeladas. As manchas brancas, como chuvisco na sua pele, não estragavam sua aparência, pelo contrário, o faziam mais interessante para se olhar, como um animal exótico. Se o número dele não fosse sem registro, como o da maioria dos investigadores, sua caixa de mensagem de voz logo ficaria abarrotada de mensagens sensuais e platônicas. Então o som foi ligado.

— … na cabana de Håvass no dia sete de novembro à noite. Estamos fazendo um apelo às pessoas que estavam lá para entrarem em contato com a polícia o mais rápido possível.

Daí o locutor voltou com outra notícia.

Harry empurrou o prato e fez sinal com a mão pedindo café.

— Me conte o que você pensa sobre esse assassino agora que achamos Adele. Me dá o perfil dele.

— Por quê? — perguntou Kaja, bebericando água. — A partir de amanhã a gente vai começar a trabalhar em outros casos.

— Só por diversão.

— Quer dizer que fazer perfil de um serial killer se enquadra na sua definição de diversão?

Harry mordiscou um palito.

— Sei que existe uma boa resposta a isso, mas não me ocorre nenhuma.

— Você é doente.

— Então, quem é ele?

— Primeiro, ainda se trata “dele”. E ainda se trata de um serial killer. Não acho que Adele foi necessariamente a primeira vítima.

— Por que não?

— Porque saiu tão perfeito que ele devia estar com a cabeça bem fria. A primeira vez que alguém mata, não costuma estar com tanto controle sobre o que faz. Além do mais, ele a escondeu tão bem que definitivamente não queria que fosse encontrada. Isso indica que ele pode estar por trás de várias vítimas da lista de pessoas desaparecidas.

— Muito bom. Continue.

— Bem…

— Vamos. Você acabou de dizer que ele escondeu Adele Vetlesen muito bem. É a primeira vítima dele da qual temos algum conhecimento. Como aconteceram os outros homicídios?

— Ele fica cada vez mais ousado, mais confiante. Ele não as esconde mais. Charlotte foi encontrada atrás de um carro na floresta e, Borgny, no porão de um prédio comercial no centro da cidade.

— E Marit Olsen?

Kaja pensou por bastante tempo.

— Foi ousado demais. Ele perdeu o controle.

— Ou… — disse Harry. — Ele chegou ao nível seguinte. Ele quer mostrar a todos como é esperto, então começa a exibir suas vítimas. O assassinato de Marit Olsen nas piscinas de Frogner foi uma grande tentativa de chamar a atenção, mas a execução em si demonstra poucos sinais de falta de controle. A corda que ele usou foi, na pior das hipóteses, falta de cuidado, mas de resto, não deixou nenhuma pista. Discorda?

Ela pensou um pouco e balançou a cabeça.

— Então, temos Elias Skog — continuou Harry. — Alguma coisa diferente ali?

— Ele torturou a vítima com uma morte lenta — explicou Kaja. — E revelou seu lado sádico.

— As maçãs de Leopoldo também são instrumentos de tortura — disse Harry. — Mas concordo com você que é a primeira vez que vemos uma cena de sadismo. Ao mesmo tempo, é uma escolha consciente, ele se revela; ele não se deixa ser revelado pelos outros. Ele continua na direção e no controle.

O bule de café e xícaras foram colocados na mesa, sem rodeios.

— Mas… — falou Kaja.

— Mas?

— Não destoa um pouco que um assassino sádico deixe a cena do crime antes de poder testemunhar o real sofrimento da vítima e, por fim, sua morte? De acordo com a proprietária, ela ouviu as batidas vindas do banheiro depois que o convidado foi embora. Ele se mandou… Engraçado, né?

— Bem-observado. Então, o que temos? Um falso sádico? E por que fingir ser sádico?

— Porque ele sabe que vamos tentar fazer um perfil dele, como estamos fazendo agora — disse Kaja, engajada. — Daí, a gente vai procurar por ele em lugares errados.

— Humm. Talvez. Nesse caso, um assassino sofisticado.

— O que você acha, venerável sábio?

Harry serviu o café.

— Se realmente se trata de um serial killer, acho que as mortes destoam demais.

Kaja inclinou-se sobre a mesa, e seus dentes afiados reluziram quando sussurrou.

— Você acha que pode não ser um serial killer?

— Bem, estou sentindo falta de uma assinatura. Em geral há certos aspectos do assassinato que marcam um serial killer, e certos comportamentos se repetem nas execuções seguintes. Neste caso não há indícios de que o assassino cometesse algo sexual durante o assassinato. E não há nenhuma semelhança nos métodos de matar, exceto no caso de Borgny e Charlotte, que provavelmente foram mortas com uma maçã de Leopoldo. As cenas do crime são totalmente diferentes, e as vítimas também. De ambos os sexos, idade, histórico e físico diferentes.

— Mas não são escolhidas por acaso; eles pernoitaram na mesma cabana na mesma noite.

— Exato. E é por isso que não tenho tanta certeza de que seja um clássico serial killer que estejamos enfrentando. Ou, pelo menos, não com um clássico motivo para matar. Em geral, para um serial killer, o assassinato em si é motivo suficiente. Se as vítimas são prostitutas, por exemplo, não é por serem pecadoras, mas por serem vítimas fáceis. Só conheço um serial killer que usava um critério de escolha das vítimas que tinha a ver com as próprias vítimas.

— O Boneco de Neve.

— Eu não acredito que um serial killer escolha suas vítimas de uma página aleatória num livro de registro de hóspedes numa cabana de turistas. E se houve algo na cabana de Håvass que motivasse um assassino, não estamos falando em clássicos assassinatos em série. Além do mais, a progressão em se mostrar é rápida demais para ser um serial killer comum.

— Como assim?

— Ele mandou uma mulher para Ruanda e para o Congo para encobrir um assassinato, aproveitando para comprar a arma do crime da próxima vítima. Depois ele a matou. Em outras palavras, ele empenhou-se ao extremo para esconder esse assassinato. Ele cometeu outro assassinato algumas semanas depois, no entanto não fez absolutamente nada. E, no seguinte, agiu como um matador que esfrega os colhões na cara da gente enquanto abana com a capa. É uma transformação de personalidade que aumenta rapidamente. Não faz sentido.

— Você acha que pode haver mais de um assassino? Cada um com seu método?

Harry fez que não.

— Há uma semelhança. O assassino não deixa pistas. Se um serial killer é uma raridade, um que não deixe pistas é como uma baleia branca. Só tem um deles nesse caso.

— Ok, então do que estamos falando? — Kaja abriu os braços. — Um serial killer com múltiplas personalidades?

— Uma baleia branca com asas — disse Harry. — Não, não sei. E tanto faz, só estamos especulando por diversão. Agora está nas mãos da Kripos. — Ele tomou um gole do café. — Vou pegar um táxi até o hospital.

— Eu posso te levar lá.

— Obrigado, mas não. Vá para casa e se prepare para novos casos interessantes.

Kaja soltou um suspiro profundo.

— Aquilo com Bjørn…

— Não é para comentar com ninguém — emendou Harry. — Durma bem.

 

No hospital, Altman estava saindo do quarto do seu pai quando Harry chegou.

— Ele está dormindo — avisou o enfermeiro. — Dei a ele 10 miligramas de morfina. Você pode ficar aqui, é claro, mas ele não deve acordar tão cedo.

— Obrigado — disse Harry.

— Sem problema. Eu mesmo tive uma mãe que… bem, teve que aguentar mais dor do que precisava.

— Humm. Você fuma, Altman?

Harry viu pela reação de arrependimento de Altman que a resposta era positiva, e convidou-o para sair. Os dois homens ficaram fumando enquanto Altman, ou Sigurd, que era seu primeiro nome, contou que foi por causa da mãe que ele havia se especializado em anestesia.

— Então, quando você deu aquela injeção no meu pai, você…

— Sim, foi um favor de um filho a outro — comentou Altman com um sorriso. — Mas estava liberado pelo médico, claro. Não gostaria de perder meu emprego.

— Sábio — disse Harry. — Queria eu ser tão sábio.

Eles terminaram seus cigarros, e Altman estava indo embora quando Harry fez a pergunta.

— Já que é especialista em anestesia, pode me dizer onde uma pessoa consegue arranjar cetamina?

— Opa — disse Altman. — Acho que é melhor eu não responder.

— Relaxa — disse Harry, esboçando um sorriso. — Tem a ver com o caso de homicídio em que estou trabalhando.

— Ah, bom. Ao não ser que você trabalhe na área de anestesia, é difícil encontrar cetamina na Noruega. Funciona como uma bala, quase literalmente, o paciente desmorona. Mas os efeitos colaterais, úlceras, são bem desagradáveis. E o risco de parada cardíaca é grande quando há overdose, já foi usado por suicidas. Mas isso é passado, a cetamina foi proibida na União Europeia e na Noruega há muitos anos.

— Eu sei, mas aonde você iria se quisesse arranjar cetamina agora?

— Humm. Aos Estados da antiga União Soviética. Ou à África.

— Congo, por exemplo?

— Com certeza. O fabricante vende a droga a preços mais baixos depois que ela foi proibida na Europa, daí acaba nos países pobres. É sempre assim.

 

Harry sentou ao lado da cama do pai e ficou olhando o frágil peito coberto pelo pijama que subia e descia. Uma hora depois, ele se levantou e foi embora.

Resolveu deixar a ligação de lado até chegar em casa, colocar o Don’t Get Around Much Anymore — um dos discos de Duke Ellington do seu pai — para tocar e então pegar a pedra marrom. Ele viu que havia uma mensagem de voz de Gunnar Hagen, que ele não estava a fim de ouvir, pois tinha uma boa noção do que se tratava. Bellman devia ter reclamado de novo: de agora em diante não podiam nem chegar perto do caso, mesmo com as melhores justificativas do mundo. E Harry devia se apresentar para o serviço regular se ainda quisesse trabalhar para a polícia. Bem, talvez não a última parte. Estava na hora de viajar. E a viagem ia começar ali mesmo, agora, nessa noite. Ele pegou o isqueiro com uma das mãos, e, com a outra, começou a checar os dois recados que havia recebido. O primeiro era de Øystein. Ele sugeriu uma noite para a galera sair junto, só os homens, num futuro próximo, convidando também Tresko, o qual provavelmente era o mais abastado dos três. O outro era de um número desconhecido. Harry ouviu a mensagem.

Vi no Aftenposten on-line que o caso é seu. Posso te dar uma ajuda. Elias Skog abriu o bico antes de ser colado na banheira. C.

 

Ele deixou o isqueiro cair, e o objeto acertou a mesa de vidro com um estalido alto. Harry sentiu o coração disparar. Em casos de homicídio sempre recebiam muitas ligações com dicas, conselhos, suposições. Pessoas que podiam jurar que tinham visto, ouvido ou ficado sabendo de algo, e será que a polícia não podia ceder um tempinho para ouvir o que tinham a dizer? Muitas vezes eram as mesmas vozes, mas sempre surgiam mensagens novas e confusas. Harry já sabia que esta não era uma delas. A imprensa havia escrito muito sobre o caso; as pessoas tinham muita informação. Porém ninguém entre o público geral sabia que Elias Skog tinha sido colado na banheira. Ou tinha o número de celular não registrado de Harry.