O Leopardo
Capítulo 29
KLUIT
Era uma noite excepcionalmente amena em Hong Kong. Os arranha-céus lançavam longas sombras no The Peak, algumas até a mansão onde Herman Kluit estava sentado no terraço com um Singapore Sling vermelho-sangue numa das mãos e o telefone na outra. Ele escutou enquanto observava as filas de carros serpenteando como lagartos luminosos lá embaixo dele.
Gostava de Harry Hole, tinha gostado dele desde a primeira vez em que havia visto o norueguês alto e atlético, visivelmente alcoolizado, entrar no Happy Valley para apostar seu último dinheiro no cavalo errado. Havia algo no seu olhar de guerreiro, na postura agressiva e na linguagem corporal vigilante que o lembrou dele mesmo quando era um jovem soldado mercenário na África. Herman Kluit havia lutado em toda parte, em todos os lados, servido aos senhores que pagassem. Em Angola, Zâmbia, Zimbábue, Serra Leoa, Libéria. Todos os países com passado sombrio e um futuro ainda mais. Mas nenhum mais sombrio do que o país sobre o qual Harry havia perguntado. O Congo. Foi lá que finalmente encontraram a veia de ouro. Em forma de diamantes. E cobalto. E coltan. O chefe da aldeia pertencia ao povo mai-mai, que acreditava que água tornava seus integrantes invulneráveis. Fora isso, ele era um homem sensato. Não havia nada na África que não se podia arranjar com um maço de notas ou — num aperto — com uma Kalashnikov carregada. Em um ano, Herman Kluit tinha se tornado um homem rico. Em três anos, podre de rico. Uma vez por mês tinham ido à cidade mais próxima, Goma, e dormido em camas em vez do chão batido na selva onde, toda noite, um tapete de moscas misteriosas e sanguessugas subiam de um buraco do chão e se acordava como se metade do corpo houvesse sido devorada. Lava negra, dinheiro negro, beldades negras, pecados negros. Na selva, a metade dos homens havia pegado malária, e o resto, doenças que nenhum médico branco conhecia, todos sob o nome genérico de febre da selva. Era uma doença dessas que Herman Kluit tinha, e mesmo que o deixasse em paz durante longos períodos, nunca tinha conseguido se livrar dela de vez.
O único remédio que Herman Kluit conhecia era o Singapore Sling. Ele foi introduzido ao drinque em Goma por um belga, dono de uma mansão fantástica, aparentemente construída pelo rei Leopoldo quando o país se chamava Estado Livre do Congo e que servia como parque de diversão e baú de tesouros. A mansão ficava na beira do lago Kivu, com mulheres tão lindas quanto o pôr do sol, fazendo com que se esquecesse por algum tempo da selva, dos mai-mai e das moscas da terra.
Foi o belga que tinha mostrado a Herman Kluit o pequeno tesouro do rei no porão. Lá, ele havia colecionado de tudo, de relógios dos mais avançados do mundo, armas raras e criativos instrumentos de tortura a pepitas de ouro, diamantes brutos e cabeças humanas preservadas.
Foi lá que Kluit se deparou pela primeira vez com o que chamavam de Maçã de Leopoldo. Aparentemente tinha sido desenvolvido por um dos engenheiros do rei para usar em líderes tribais recalcitrantes que não queriam contar onde haviam encontrado seus diamantes. O método anterior havia sido usar búfalos. Eles untavam o chefe da tribo com mel, amarravam-no a uma árvore e traziam um búfalo capturado no mato até ele, e o bicho começava a lamber-lhe o mel. Como a língua do búfalo do mato era tão áspera, a ideia era que nas lambidas a pele e a carne fossem arrancadas juntas. Mas levava tempo para se capturar búfalos, e eles podiam ser difíceis de se conter quando já haviam começado a lambança. Por isso, a Maçã de Leopoldo. Não tanto por ser eficaz em termos de tortura — afinal, a maçã impedia o prisioneiro de falar. Mas o efeito aos nativos presentes, que presenciavam o que acontecia quando o interrogador puxava a corda pela segunda vez, era impressionante. A pessoa seguinte solicitada a abrir bem a boca para receber a maçã soltava a língua e falava sem parar.
Herman Kluit fez um gesto para sua empregada filipina levar o copo vazio para dentro.
— Está lembrando corretamente, Harry — disse Herman Kluit. — Ainda está aqui na minha estante. Felizmente, não sei se alguma vez já foi usada. Um souvenir. Ela me lembra daquilo que existe no coração da escuridão. Isso é sempre útil, Harry. Não, não vi nem ouvi dizer que foi usado em outro lugar. É uma peça de tecnologia complexa, entende, com todas essas molas e agulhas. Exige uma liga especial. Coltan, correto. Certamente. Muito raro. A pessoa que me vendeu a minha maçã, Eddie Van Boorst, alegou que, no total, só foram fabricadas 24, e que ele tinha 22, das quais uma em ouro de 24 quilates. Correto, são também 24 agulhas, como sabia? Parece que o número vinte e quatro tinha algo a ver com a irmã do engenheiro, não me lembro por quê. Mas também pode ser algo que Van Boorst tenha dito para fazer o preço subir. Afinal, ele é belga.
A gargalhada de Kluit passou para tosse. Maldita febre.
— De qualquer maneira, ele deve saber onde as maçãs se encontram. Ele morava numa mansão linda em Goma, na parte norte de Kivu, perto da divisa com a Ruanda. O endereço? — Kluit tossiu mais um pouco. — Goma ganha uma nova rua todo dia, e de vez em quando metade da cidade é enterrada por lava, por isso não há endereços lá, Harry. Mas o correio tem o registro de todas as pessoas brancas. Não, não faço ideia se ele ainda mora em Goma. Se é que está vivo. A expectativa de vida em Congo é de 30 e pouco, Harry. Também para os brancos. Além do mais, a cidade está praticamente sitiada. Exato. Não, claro que você não ouviu falar da guerra. Ninguém ouviu falar dela.
Gunnar Hagen olhou incrédulo para Harry, e debruçou-se por cima da mesa.
— Você quer ir a Ruanda? — perguntou.
— Um viagem rápida — disse Harry. — Duas noites, incluindo os voos.
— Para investigar o quê?
— O que eu disse. Um desaparecimento. Adele Vetlesen. Kaja está indo a Ustaoset para tentar descobrir com quem Adele viajou pouco antes de desaparecer.
— Por que não podem apenas ligar para lá e pedir para verificarem no livro de hóspedes?
— Porque não tem atendimento na cabana de Håvass — disse Kaja, que tinha se sentado na cadeira ao lado de Harry. — Mas todas as pessoas que pernoitam nas cabanas da Associação de Turistas precisam assinar no livro de hóspedes, informando o próximo destino. É obrigatório porque, se alguém é notificado como desaparecido na montanha, o grupo de busca pode saber por onde começar. Espero que Adele e seu companheiro de viagem estejam registrados com nomes e endereços completos.
Gunnar Hagen coçou o cabelo com as mãos.
— E nada disso tem algo a ver com os outros casos de homicídio?
Harry projetou o lábio inferior.
— Pelo que vejo, não, chefe. Você vê alguma relação?
— Hum. E por que devia dizimar a verba de viagem da Divisão com um passeio tão extravagante?
— Porque o tráfego humano é uma área prioritária — disse Kaja. — De acordo com o discurso do ministro da Justiça à imprensa no início desta semana.
— Contudo — disse Harry, alongando-se e pondo as mãos atrás da cabeça. — Não é impossível que, durante o processo, outras coisas venham à tona, podendo levar à solução de outros casos.
Gunnar Hagen olhou pensativo para o inspetor.
— Chefe — acrescentou Harry.