O Leopardo
Capítulo 34
M ÉDIUM
– Então Juliana Verni foi encontrada morta em Leipzig três dias depois de voltar num voo de Kigali — disse Kaja. — Para onde tinha viajado em nome de Adele Vetlesen, registrando-se no Hotel Gorilla como Adele Vetlesen, e enviado um cartão-postal escrito pela verdadeira Adele Vetlesen, cujas palavras foram provavelmente ditadas a ela.
— Certo, é por aí mesmo — respondeu Harry, já preparando outro café.
— E vocês acham que Verni deve ter feito tudo em conluio com alguém — emendou Hagen. — E essa outra pessoa matou Adele para encobrir as pistas.
— Correto — disse Harry.
— Resta então achar a ligação entre ela e essa outra pessoa. Não deve ser tão difícil, pois devem ter tido uma relação bem próxima para cometer um crime como esse.
— Nesse caso, acho que será difícil.
— Por quê?
— Porque — explicou Harry, fechando a tampa da cafeteira e pressionando um botão — Juliana Verni tinha ficha criminal. Por drogas. Prostituição. Vadiagem. Em suma, era do tipo que seria fácil contratar para um trabalho como esse, se o dinheiro fosse bom. E tudo nesse caso indica que a pessoa por trás não deixou pistas, parece ter pensado em praticamente cada detalhe. Katrine descobriu que Verni viajou de Leipzig a Oslo. Então, de lá deve ter prosseguido com o nome de Adele até Kigali. No entanto Katrine não achou sequer uma conversa por telefone entre o celular de Verni e a Noruega. Essa pessoa tomou todas as precauções.
Desanimado, Hagen balançou a cabeça.
— Tão perto…
Harry sentou-se na mesa.
— Há outro dilema que precisamos resolver. Os hóspedes na cabana de Håvass naquela noite.
— O que é que têm eles?
— Não podemos excluir a possibilidade de que a folha que sumiu do livro de hóspedes seja uma lista de vítimas em potencial. Elas têm que ser avisadas.
— De que maneira? Nem sabemos quem são.
— Através da mídia. Mesmo que isso signifique revelar para o assassino que achamos uma pista.
Hagen balançou a cabeça devagar.
— Lista de vítimas. E você só chegou a esta conclusão agora?
— Eu sei, eu sei, chefe. — Harry encarou o olhar do chefe. — Se eu tivesse ido à mídia com um aviso assim que a gente descobriu a cabana de Håvass, isso poderia ter salvado Elias Skog.
A sala ficou em silêncio.
— Nós não podemos ir à mídia — concluiu Hagen.
— Por que não?
— Se alguém responder ao aviso talvez a gente possa descobrir quem mais esteve lá, e o que aconteceu de fato — disse Kaja.
— Não podemos ir à mídia — reafirmou Hagen ao se levantar. — A gente investigou o caso de uma pessoa desaparecida e acabamos descobrindo conexões a um homicídio que está nas mãos da Kripos. Temos que repassar a informação a eles, e deixar que levem o caso adiante. Vou ligar para Bellman.
— Espere! — pediu Harry. — Quer dizer que ele vai ganhar o mérito pelo trabalho que nós fizemos?
— Não sei se vai ter algum mérito a ser ganho — respondeu Hagen e foi até a porta. — E vocês podem começar a arrumar as coisas e sair daqui.
— Não é um pouco precipitado demais? — perguntou Kaja.
Os outros dois olharam para ela.
— Quer dizer, ainda temos uma pessoa desaparecida. Não devemos tentar achá-la antes de cair fora?
— E como você acha que vai conseguir essa façanha? — perguntou Hagen.
— Como Harry já falou. Com uma ação de busca.
— Vocês nem sabem por onde começar a procurar.
— Harry sabe.
Eles olharam para o homem, que tinha acabado de pegar a jarra da cafeteira com uma das mãos, segurando com a outra o copo de plástico por baixo do jato marrom.
— Sabe mesmo? — perguntou Hagen por fim.
— Sei, sim — disse Harry.
— Onde?
— Você vai se meter numa encrenca — disse Harry.
— Cale a boca e bota para fora — disse Hagen, sem perceber a contradição. Porque ele estava pensando: “E lá vou eu fazer a mesma coisa outra vez.” Qual era desse policial alto e loiro que sempre conseguia fazer com que os outros caíssem com ele?
Olav Hole levantou o olhar para Harry e a mulher ao seu lado.
Ela fez mesura ao se apresentar, e Harry viu que o pai gostou; ele sempre reclamava que as mulheres não faziam mais isso.
— Então, você é a colega de Harry — indagou o pai. — Ele está se comportando?
— Estamos a caminho para organizar uma busca — disse Harry. — Só passamos para ver como você está.
Seu pai deu um sorriso fraco, deu de ombros e chamou Harry para mais perto de si. Harry inclinou-se para ouvir. E endireitou-se num sobressalto.
— Você vai ficar bem — disse Harry com a voz subitamente rouca. — Volto à noite, Ok?
No corredor, Harry interceptou o enfermeiro Altman e sinalizou a Kaja para ir em frente.
— Escute, será que pode me fazer um grande favor? — pediu, quando Kaja já estava fora de alcance. — Meu pai acabou de me dizer que está com dores. Ele nunca quer admitir isso para vocês, porque tem medo de que vocês deem mais anestésicos, e bem, ele tem um medo danado de se viciar em… em entorpecentes. Há um histórico familiar, entende.
— Fois não — ceceou o enfermeiro, e houve um momento de confusão até Harry entender que Altman dissera “pois não”. — O problema é que estou começando o turno em outra ala agora.
— Estou pedindo um favor pessoal.
Altman semicerrou os olhos atrás dos óculos, fixando o olhar pensativo no espaço entre ele e Harry.
— Vou ver o que posso fazer.
— Obrigado.
Kaja ficou no volante enquanto Harry falava ao telefone com o chefe de operações do corpo de bombeiros de Briskeby.
— Seu pai parece ser um homem legal — disse Kaja quando Harry desligou.
Ele pensou um pouco.
— Graças à minha mãe. Enquanto ela estava viva, ele era legal. Ela conseguiu despertar as melhores coisas nele.
— Parece que você passou pela mesma situação — comentou ela.
— Qual?
— A de que alguém fez bem a você.
Harry olhou pela janela. E concordou com a cabeça.
— Rakel?
— Rakel e Oleg — disse Harry.
— Desculpe, não quis…
— Sem problema.
— É que quando cheguei à Divisão de Homicídios, todos estavam falando sobre o caso do Boneco de Neve. E que ele quase matou os dois. E você. Mas que vocês haviam terminado antes de o caso começar, não foi assim?
— De certa forma — disse Harry.
— Já esteve em contato com eles?
Harry balançou a cabeça.
— Tivemos que tentar esquecer tudo. Ajudar Oleg a esquecer. Quando são jovens assim ainda conseguem.
— Nem sempre — comentou Kaja, com um sorriso triste.
Harry olhou-a de soslaio.
— E quem fez bem a você?
— Even — disse ela sem hesitar.
— Nenhum grande amor?
Ela fez que não.
— Nenhum dos grandes. Só alguns dos pequenos. E um médio.
— Algum pretendente?
— Pretendente? — falou ela, rindo baixinho.
Harry sorriu.
— Meu vocabulário é um pouco ultrapassado nessa área.
Ela hesitou.
— Acho que estou bastante a fim de um cara.
— E as perspectivas são…?
— Péssimas.
— Me deixe adivinhar — começou Harry, baixando o vidro para acender um cigarro. — Ele é casado e diz que vai deixar a mulher e os filhos por você, mas nunca deixa.
Ela riu.
— Me deixe adivinhar. Você é um daqueles caras que se acha perito em decifrar as outras pessoas porque só se lembra das vezes em que seus palpites estavam certos.
— Ele diz que você só precisa dar um tempo a ele?
— Errou de novo — respondeu. — Ele não diz nada.
Harry fez um gesto de compreensão. Ia fazer mais perguntas quando lhe ocorreu: ele não queria saber.