O Leopardo

Jo Nesbo · Capítulo 39 de 96

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O Leopardo

Capítulo 39

 

BUSCA RELACIONADA

 

Harry chegou à sede da polícia às seis e quarenta e cinco da manhã. Além do segurança na recepção, não havia ninguém no grande átrio além das pesadas portas de entrada.

Ele acenou para o segurança, passou o crachá no leitor da catraca e pegou o elevador para o porão. De lá andou a passos largos pelo corredor subterrâneo e entrou na sala. Acendeu o primeiro cigarro do dia e ligou para o número de celular enquanto o computador iniciava. A voz de Katrine Bratt estava sonolenta.

— Quero que faça uma daquelas buscas relacionadas — pediu Harry. — Entre Tony Leike e todas as vítimas de assassinato. Incluindo Juliana Verni de Leipzig.

— A sala de recreação fica vazia pelo menos até as oito e meia — respondeu ela. — Começo já. Mais alguma coisa?

Harry hesitou.

— Pode checar um Jussi Kolkka para mim? Policial.

— Qual é a história dele?

— É essa a questão — respondeu Harry. — Não sei qual é a história dele.

 

Harry guardou o celular e começou a trabalhar no computador.

De fato, Tony Leike tinha sido condenado uma vez. E de acordo com o registro, teve problemas com a polícia em duas outras ocasiões. Como Colbjørnsen havia mencionado, as duas eram por agressão violenta. No primeiro caso, a acusação tinha sido retirada; no outro, o processo fora arquivado.

Harry realizou buscas por Tony no Google e teve vários resultados: artigos menores nos jornais, a maioria ligado a sua noiva, Lene Galtung, mas também alguns de veículos de economia e finanças, nos quais era alternadamente referido como investidor, especulador da bolsa e “cordeiro” ignorante. A última descrição estava no Kapital, dizendo que Leike pertencia ao rebanho que imitava o cordeiro líder, o psicólogo Einar Kringlen, em tudo o que fazia; desde compra de ações, cabanas e carros à escolha correta do restaurante, do drinque, da mulher e endereço do escritório, da residência e das férias.

Harry passou pelos links até parar num artigo de um jornal sobre finanças.

— Bingo — murmurou.

Tony Leike estava sem dúvida querendo deixar sua própria marca. O jornal Finansavisen noticiou um projeto de mineração iniciado e gerenciado por Leike. Ele havia sido fotografado com os sócios, dois jovens com corte de cabelo com divisão lateral. Eles não estavam vestindo os costumeiros ternos de grife, mas macacões, sentados numa pilha de madeira em frente a um helicóptero e sorrindo. Tony Leike tinha o sorriso mais largo de todos. Possuía ombros largos, membros longos, pele e cabelo escuros, e um imponente nariz aquilino que, com seu tom de pele, fez Harry pensar que ele devia ter uma boa pitada de sangue árabe nas veias. Mas o motivo da exclamação contida de Harry era a manchete: “O REI DO CONGO?”

Harry continuou seguindo os links.

A imprensa estava mais ocupada com o iminente casamento com Lene Galtung e a lista dos convidados.

Harry olhou o relógio. Sete e cinco. Ligou para o policial de plantão.

— Estou precisando de reforço para uma detenção em Holmenveien.

— Detenção?

Harry sabia que não dispunha de provas suficientes para pedir um mandado de prisão ao promotor.

— Para interrogatório — disse Harry.

— Achei que tinha falado em detenção? Por que precisa de reforço se é só...

— Pode trazer dois homens e um carro na frente da garagem em cinco minutos?

Harry recebeu um bufo como resposta, que interpretou como um “sim”. Deu duas tragadas no cigarro, o apagou, trancou a porta e saiu. Tinha dado poucos passos quando ouviu um som baixinho atrás de si, sabendo que era o telefone do escritório tocando.

Já havia saído do elevador e estava quase na porta de saída quando ouviu alguém chamar seu nome. Ele se virou e viu o segurança gesticulando. Na frente do balcão, viu as costas de um casaco de lã amarelo-mostarda.

— Este homem perguntou por você — disse o recepcionista.

O casaco virou-se. Era do tipo que devia parecer ser de casimira, e às vezes era mesmo. Nesse caso, Harry supôs que era. Porque encontrava-se preenchido pelos ombros largos de uma pessoa com membros longos, olhos e cabelo escuros, e possivelmente uma pitada de sangue árabe nas veias.

— Você é mais alto do que aparenta nas fotos — comenta Tony Leike, mostrando uma fileira de dentes de porcelana e uma mão estendida.

 

— Café bom — disse Tony Leike, parecendo sincero. Harry observou os longos dedos retorcidos de Leike em torno da xícara. Na hora de estender a mão para Harry, Leike havia explicado, com um riso, que não era contagioso, apenas o reumatismo de sempre, uma aflição hereditária que, se não havia servido para outra coisa, pelo menos fez dele um meteorologista confiável. — Mas, francamente, achei que ofereciam salas melhores para seus inspetores. Um pouco quente, não?

— É o aquecedor da prisão — respondeu Harry, dando um gole no café. — Então você leu sobre o caso hoje de manhã no Aftenposten?

— Sim. Estava tomando o café da manhã. Quase engasguei, para ser sincero.

— Por quê?

Leike se mexeu um pouco na cadeira, como um piloto de Fórmula 1 no assento anatômico do carro antes da partida:

— Espero que o que eu disser fique entre nós.

— Quem somos nós?

— A polícia e eu. De preferência, entre você e eu.

Harry se esforçou para manter a voz neutra e impassível.

— E qual seria o motivo?

Leike respirou fundo.

— Não gostaria que viesse a público que eu estava na cabana de Håvass na mesma noite em que a representante parlamentar, Marit Olsen. No momento, meu nome está bastante evidente na mídia devido a meu casamento iminente. Não seria muito favorável ser relacionado a um caso de homicídio agora. A imprensa ia fazer alarde, e isso poderia… remexer em coisas do meu passado que eu prefiro manter enterradas e esquecidas.

— Certo — retrucou Harry, fingindo ingenuidade. — É claro que eu teria que avaliar vários aspectos, e por isso não posso prometer nada. Mas isso não é um interrogatório, apenas uma conversa, e não costumo vazar esse tipo de informação para a imprensa.

— Nem para os meus… ah, entes mais próximos?

— Não, a não ser que haja motivo para isso. Se você tem medo de que alguém possa descobrir que você esteve aqui, por que veio?

— Vocês já pediram a todas as pessoas que estavam na cabana para entrar em contato, então, é minha obrigação como cidadão, não é? — Ele olhou indagador para Harry. E depois fez uma careta. — Meu Deus, fiquei com medo! Eu entendi que as outras pessoas que estavam na cabana aquela noite podiam também estar na mira do assassino. Sentei no carro e vim direto para cá.

— Aconteceu algo em especial nos últimos tempos que tenha deixado você preocupado?

— Não. — Tony Leike olhou-o pensativo. — Nada além de um arrombamento da porta do porão alguns dias atrás. Eu devia instalar um alarme, não acha?

— Você registrou o roubo na polícia?

— Não, só levaram uma bicicleta.

— E você acha que serial killers fazem bico como ladrões de bicicletas?

Leike deu um riso curto e fez que sim, sorridente. Não o sorriso desajeitado de quem está envergonhado por ter dito alguma bobagem, pensou Harry. Mas o sorriso desarmador e sedutor que diz “aí você me pegou, amigo”, a celebração galante do conquistador acostumado a ganhar.

— Por que pediu para falar comigo?

— Dizia no jornal que você está liderando as investigações, por isso achei natural procurar você. E, como eu disse, gostaria que pudesse ficar entre poucas pessoas, por isso vim direto à chefia.

— Não sou da chefia, Leike.

— Não? O Aftenposten deu a entender que sim.

Harry passou a mão sobre o maxilar saliente. Ele ainda não havia formado uma opinião sobre Tony Leike. Era um homem com uma aparência bem-cuidada, mesclado com o charme de menino malvado que fez Harry pensar num jogador de hóquei de gelo que tinha visto num anúncio de roupas íntimas. Parecia querer passar a impressão de ser um cosmopolita despreocupado e astuto, mas também parecia ser um homem sincero, com sentimentos que não conseguia esconder. Ou talvez fosse o contrário; talvez o cosmopolita fosse verdadeiro, e os sentimentos, fingidos.

— O que você fazia na cabana de Håvass?

— Fui esquiar, claro.

— Sozinho?

— Sim. Tive alguns dias exaustivos no trabalho, precisava de um descanso. Vou muito a Ustaoset e Hallingskarvet. Durmo nas cabanas. É a minha área, por assim dizer.

— Então, por que não tem sua própria cabana?

— Não é mais permitido construir nada onde eu gostaria de ter uma cabana. Regulamentos do parque nacional.

— Por que sua noiva não foi com você? Ela não sabe esquiar?

— Lene? Ela… — Leike tomou um gole do café. O tipo de gole que as pessoas tomam no meio de uma frase quando precisam de um tempo para pensar no que dizer, refletiu Harry. — Ela estava em casa. Eu… a gente… — Ele olhou para Harry com uma expressão levemente preocupada, como que pedindo ajuda. Harry não o ajudou. — Droga. Pressão nenhuma, né?

Harry não respondeu.

— Está bem — disse Leike como se Harry havia afirmado. — Eu precisava respirar, escapar um pouco. Pensar. Noivado, casamento… são decisões sérias. E eu penso melhor quando estou sozinho. Especialmente lá no alto da planície.

— E pensar ajudou?

Leike exibiu o sorriso branco outra vez.

— De fato.

— Você se lembra de mais alguém na cabana?

— Como disse, me lembro de Marit Olsen. Tomamos uma taça de vinho tinto juntos. Eu não sabia que ela era membro do Parlamento até ela me contar.

— Mais alguém?

— Havia três ou quatro outras pessoas que apenas cumprimentei de longe. Mas cheguei meio tarde, algumas pessoas podiam ter ido dormir.

— É mesmo?

— Havia seis pares de esqui na neve em frente à cabana. Lembro bem disso, porque os levei para dentro do corredor por causa do risco de avalanche. Lembro de ter pensado que os outros talvez não fossem tão experientes na montanha. Se a cabana fosse enterrada por 3m de neve, todos estariam encrencados sem esquis. Eu fui o primeiro a acordar de manhã, normalmente sou, e fui embora antes que os outros houvessem levantado.

— Você disse que chegou tarde da noite. Quer dizer que esquiava sozinho no escuro?

— Com uma lanterna presa na cabeça, um mapa e um compasso. A viagem foi decidida em cima da hora, e peguei o trem para Ustaoset de noite. Mas, como disse, conheço bem o lugar, estou acostumado a me orientar pela montanha no escuro. E o tempo estava bom, com o luar refletido na neve, não precisei do mapa nem da lanterna.

— Pode dizer alguma coisa sobre o que aconteceu na cabana enquanto estava lá?

— Não aconteceu nada. Marit Olsen e eu conversamos sobre vinho tinto e depois sobre as dificuldades em manter um relacionamento moderno. Quer dizer, acho que o relacionamento dela era mais moderno que o meu.

— E ela não mencionou se havia acontecido algo na cabana?

— Não, nada.

— E os outros que estavam lá?

— Estavam sentados em frente à lareira, bebendo e conversando sobre viagens na qual haviam esquiado. Bebiam cerveja, talvez. Ou algum tipo de isotônico. Duas garotas e um homem entre 20 e 35, suponho.

— Nomes?

— A gente só se cumprimentou com um aceno de cabeça, dando um “oi”. Como disse, eu tinha ido para a montanha para ficar sozinho, não para fazer amizades.

— Como eles eram?

— De noite é bastante escuro nessas cabanas. Se eu disser que um era loiro e o outro moreno, pode ser que não seja nada disso. Como disse, nem lembro quantas pessoas estavam lá.

— Dialetos?

— Uma das garotas falava o dialeto do litoral oeste, acho.

— De Stavanger? Bergen? Sunnmøre?

— Lamento, não sou muito bom nisso. Pode não ter sido do litoral oeste, talvez fosse da região sul.

— Ok. Você queria estar sozinho, mas conversou com Marit Olsen sobre relacionamentos.

— Aconteceu. Ela se sentou perto de mim e puxou papo. Não era exatamente tímida. Tagarela. Gorda e divertida.

Ele disse isso como se as duas palavras se completassem naturalmente. E ocorreu a Harry que a foto de Lene Galtung que ele havia visto mostrava uma mulher magérrima — pelo menos em relação ao atual peso médio da população da Noruega.

— Então, além de Marit Olsen, não pode contar nada sobre mais ninguém? Nem se eu mostrasse fotos de pessoas que sabemos que estavam lá?

— Ah, acho que posso, sim — disse Leike, sorrindo.

— Então?

— Quando eu estava num quarto procurando um beliche para me deitar, tive que ligar a luz para ver onde havia um lugar vago. E vi duas pessoas dormindo. Uma mulher e um homem.

— E você acha que pode descrever os dois?

— Não com muitos detalhes, mas com certeza eu os reconheceria.

— É?

— Você costuma se lembrar de rostos quando os vê de novo.

Ele sabia que Leike tinha razão. Em geral, as descrições dadas por testemunhas eram totalmente erradas, mas se você enfileirasse suspeitos, raramente erravam.

Ele foi até o arquivo que haviam trazido de volta, abriu as respectivas pastas das vítimas e retirou as fotos. Ele passou os cinco retratos a Leike, que os olhou, um por um.

— Esta é Marit Olsen — afirmou ele e estendeu uma foto para Harry. — E acho que estas são as duas garotas que estavam perto da lareira, mas não tenho certeza. — Ele devolveu as fotos de Borgny e Charlotte. — Esse deve ser o garoto. — Elias Skog. — Mas nenhuma destas pessoas estava dormindo no quarto, tenho certeza. E também não reconheço essa última — disse ele, devolvendo a foto de Adele.

— Então você não tem certeza sobre as pessoas com quem ficou na mesma sala por algum tempo, mas tem certeza sobre aquelas que você viu por apenas alguns segundos?

Leike fez que sim.

— Estavam dormindo.

— É mais fácil reconhecer as pessoas quando dormem?

— Não, mas elas não olham para você. Você pode olhar para elas com calma.

— Humm. Por alguns segundos.

— Talvez mais um pouco.

Harry colocou as fotos de volta nas pastas.

— Tem algum nome? — perguntou Leike.

— Nome?

— É. Como disse, eu fui o primeiro a levantar e comi duas fatias de pão na cozinha. O livro de hóspedes estava lá, e eu não tinha me registrado. Enquanto comi, eu o abri e li os nomes das pessoas que haviam assinado na noite anterior.

— Por quê?

— Por quê? — Tony deu de ombros. — Muitas vezes são as mesmas pessoas que fazem essas viagens de cabana a cabana. Eu queria ver se conhecia alguém.

— E conhecia?

— Não. Mas se você passar os nomes das pessoas que você sabe ou acha que estavam lá, posso talvez lembrar se eu os vi no livro de hóspedes.

— Parece razoável, mas infelizmente não temos nome nenhum. Ou endereços.

— Está bem — emendou Leike e começou a abotoar o casaco. — Então acredito que eu não possa ajudar muito. Mas já podem riscar meu nome.

— Humm — murmurou Harry. — Já que está aqui, tenho mais algumas perguntas. Se você tiver tempo?

— Sou meu próprio chefe — disse Leike. — Pelo menos por enquanto.

— Ótimo. Você diz que tem um passado conturbado. Pode dar uma ideia geral de que se trata?

— Tentei matar um cara — afirmou Leike sem rodeios.

— Entendo — disse Harry, e inclinou-se para trás na cadeira. — Por quê?

— Porque ele me atacou. Ele alegou que eu tinha roubado a namorada dele. A verdade é que ela nem era, nem queria ser namorada dele, e eu não roubo mulheres. Não preciso.

— Humm. Ele pegou vocês no flagra e bateu nela, não foi?

— Como assim?

— Só estou tentando entender que tipo de situação que possa ter levado você a querer matá-lo. Se você quis dizer isso literalmente, é claro.

— Foi ele que bateu em mim. Por isso fiz o que pude para matá-lo. Com uma faca. E eu estava quase conseguindo quando uns amigos meus me tiraram de cima dele. Fui condenado por agressão violenta. O que é pouco para uma tentativa de assassinato.

— Está ciente de que o que você está dizendo pode fazer de você um dos primeiros suspeitos?

— Deste caso? — Leike olhou desconfiado para Harry. — Está brincando? Vocês devem ter mais tino do que isso, não é?

— Se você teve o intuito de matar uma vez…

— Tive o intuito de matar várias vezes. Suponho que o tenha feito também.

— Supõe?

— De noite na selva não é fácil enxergar pessoas negras. Em geral, você acaba atirando a esmo.

— Você fez isso?

— Na minha juventude depravada, sim. Depois de ter cumprido a pena daquela condenação, alistei-me no Exército e então fui direto para a África do Sul e consegui trabalho como mercenário.

— Humm. Então foi mercenário na África do Sul?

— Durante três anos. E a África do Sul foi apenas o local onde me alistei, o combate era nos países vizinhos. Sempre havia uma guerra, sempre havia um mercado para profissionais, especialmente brancos. Os negros ainda acham que somos mais espertos, sabe? Eles confiam mais em oficiais brancos do que nos seus próprios.

— Então, esteve no Congo também?

A sobrancelha direita de Tony Leike formou uma curva preta.

— Como assim?

— Pensei que pudesse ter estado lá naquela época.

— Naquela época se chamava Zaire. Mas a maior parte do tempo a gente não fazia ideia de em que merda de país a gente estava. Só havia verde, verde, verde e depois breu, breu, breu até o sol raiar de novo. Eu trabalhava para uma empresa de segurança em algumas minas de diamante. Foi lá que aprendi a ler o mapa e o compasso com uma lanterna de cabeça. Aliás, o compasso é perda de tempo por lá, tem metal demais naquelas montanhas.

Tony Leike inclinou-se para trás na cadeira. Relaxado e destemido, notou Harry.

— Falando em metal — disse Harry. — Acho que li em algum lugar que você tem uma empresa de mineração por lá.

— Correto.

— Que tipo de metal?

— Já ouviu falar em coltan?

Harry fez que sim com um lento movimento da cabeça.

— É usado em celulares.

— Exato. E em consoles de videogames. Nos anos 1990, quando a produção de celulares no mundo decolou, eu estava com minha tropa numa missão a noroeste do Congo. Alguns franceses e nativos faziam mineração lá, e eles usavam crianças com pás e picaretas para extrair o coltan. Parece uma pedra comum, mas é usado para produzir tântalo, que é a matéria realmente valiosa. E eu percebi que, se eu conseguisse alguém que me financiasse, eu poderia criar uma mineração moderna e tornar a mim e a meus sócios homens ricos.

— E foi o que aconteceu?

Tony Leike riu.

— Não exatamente. Consegui levantar o empréstimo, fui extorquido por sócios safados e perdi tudo. Peguei mais dinheiro emprestado, fui enganado outra vez, peguei mais dinheiro e ganhei um pouco.

— Um pouco?

— Alguns milhões para pagar a dívida. Mas aí já dispunha de uma rede de contatos e algumas menções na imprensa, já que eu naturalmente botei a carroça na frente dos bois, o que bastou para ser aceito no círculo onde rola a grana preta. Para ingressar lá, o que conta são os dígitos da sua fortuna, não importando se negativos ou positivos. — Leike soltou uma gargalhada estrondosa, e Harry não conseguiu deter um sorriso.

— E agora?

— Agora estamos aguardando o grande lucro, porque é por esses dias que o coltan vai ser extraído. Tudo bem, já venho dizendo isso há muito tempo, mas desta vez é verdade. Tive que vender algumas ações do projeto em troca de opções de compra para poder pagar minhas dívidas. Essa parte já está resolvida, agora falta arrumar dinheiro para resgatar minhas ações e de novo ser sócio com plenos direitos.

— Humm. E o dinheiro?

— Algumas pessoas irão considerar sensato me emprestar o dinheiro em troca de uma pequena participação. O lucro é imenso, e o risco, mínimo. E todos os grandes investimentos já foram realizados, incluindo os subornos locais. Limpamos até uma pista de voo no meio da selva, para poder carregar diretamente os aviões de carga e enviar a mercadoria via Uganda. Você é rico, Harry? Posso ver se há uma possibilidade de você ter uma fatia do bolo.

Harry fez que não.

— Esteve em Stavanger ultimamente, Leike?

— Humm. No verão.

— Não depois disso?

Leike pensou e fez que não.

— Não tem certeza? — perguntou Harry.

— Estou apresentando meu projeto para investidores em potencial, e isso significa que tenho que viajar muito. Neste ano devo ter ido três ou quatro vezes a Stavanger, mas não estive lá desde o verão.

— E em Leipzig?

— É agora que devo perguntar se preciso de um advogado, Harry?

— Só queria eliminar você do caso o mais rápido possível, para podermos nos concentrar em informações mais relevantes. — Harry passou o indicador sobre o nariz. — Se você não quer a mídia farejando nada, imagino que não queira envolver advogados, ou ser chamado para um interrogatório formal e daí por diante, certo?

Leike fez que sim com a cabeça.

— Claro, tem razão. Obrigado pelo conselho, Harry.

— Leipzig?

— Lamento — disse Leike, parecendo lamentar de verdade, a julgar pela voz e pelo rosto. — Nunca estive lá. Deveria?

— Humm. Também tenho que perguntar onde estava e o que estava fazendo em algumas datas.

— Vai em frente.

Harry ditou as datas dos quatro assassinatos enquanto Leike os anotou num caderno Moleskin com capa de couro.

— Vou verificar assim que estiver no escritório — respondeu ele. — E esse é o meu número. — Ele estendeu a Harry um cartão de visita com a escrita Tony C Leike, Empresário.

— E o C é de quê?

— Bela pergunta — disse Leike e se levantou. — Tony é só uma abreviação de Anthony, por isso achei que precisava de uma inicial. Acrescenta certo peso, não acha? Acho que os estrangeiros gostam disso.

Em vez de passar pelo corredor subterrâneo, Harry levou Leike pela escada que dava à prisão, bateu na janela de vidro e um guarda foi abrir para eles.

— É como estar participando de um episódio da Gangue Olsen — disse Leike quando estavam no caminho de cascalho fora dos muros imponentes da velha prisão.

— Desse modo é um pouco mais discreto — respondeu Harry. — Seu rosto está ficando conhecido, e as pessoas já estão chegando ao trabalho na sede da polícia.

— Falando em rosto, vi que alguém quebrou seu maxilar.

— Devo ter caído e me machucado.

Leike fez que não com a cabeça, sorrindo.

— Sei alguma coisa sobre queixos quebrados. Esse é de uma briga. Você apenas deixou que cicatrizasse sozinho. Devia procurar alguém para dar um jeito, não seria muito complicado.

— Agradeço a dica.

— Devia muito dinheiro a eles?

— Sabe algo sobre isso também?

— Sei! — exclamou Leike, arregalando os olhos. — Infelizmente.

— Humm. Uma última coisa, Leike…

— Tony. Ou Tony C. — Leike mostrou sua brilhante ferramenta de mastigar. Como quem não tem uma única preocupação na vida, pensou Harry.

— Tony. Já esteve no lago Lyseren? O lago em Øst…

— Se estive, mas é claro! — respondeu Tony, sorrindo. — A propriedade da família fica em Rustad. Eu visitava meu avô todo verão. Cheguei até a morar lá por dois anos. Um lugar incrível, não é? Mas por que a pergunta? — Seu sorriso sumiu de repente. — Ah, droga, foi lá que vocês acharam aquela garota! Uma coincidência e tanto, não é?

— Bem — disse Harry. — Tão improvável não é. O lago é grande.

— É verdade. Novamente, obrigado, Harry. — Leike estendeu a mão para ele. — E se surgirem alguns nomes da cabana de Håvass, ou se aparecer alguém, é só ligar, então posso ver se eu me lembro deles. Cooperação total, Harry.

Harry se viu apertando a mão do homem que ele havia acabado de concluir ser o mesmo que tinha assassinado cinco pessoas durante os últimos três meses.

 

Quinze minutos depois que Leike saiu, Katrine Bratt ligou.

— Sim?

— Negativo em quatro de cinco — afirmou ela.

— E o quinto?

— Um resultado. Nas profundezas das entranhas da informação digital.

— Poético.

— Vai gostar. Dia 16 de fevereiro, Elias Skog recebeu uma ligação de um número que não está registrado no nome de ninguém. Um número confidencial, em outras palavras. E esse pode ser o motivo pelo qual a polícia de Oslo…

— De Stavanger.

— … não descobriu a ligação antes. Mas na profundeza das entranhas…

— Quer dizer, no superprotegido registro interno da central da Telenor?

— Algo do gênero. Surgiu o nome de Tony Leike, Holmenveien 172, como responsável pela fatura desse número confidencial.

— Ótimo! — disse Harry. — Você é um anjo.

— Péssima escolha de metáfora. Já que parece que eu acabei de mandar um homem para a prisão perpétua.

— A gente se fala.

— Espere! Não vai querer saber sobre Jussi Kolkka?

— Quase tinha me esquecido. Me conte.

Ela contou.